NITERÓI/RJ
Min:   Max:

Acadêmicos do Cubango promete explosão de cores

Passistas ganharam como diretora Cris Alves, que também volta ao posto de rainha. Cubango aposta, ainda, na chegada do casal Thais Romi e Diogo Jesus, além da musa Cris Beyonce

Foto: Douglas Macedo

A africanidade tão característica da Acadêmicos do Cubango sofreu uma revolução. Sem deixar de lado sua raiz , a verde branco usa a mudança de direção como pontapé para uma mudança estética do desfile. E mais que isso, uma transformação na moral da escola, sentimento esse que gerou um movimento entre os componentes: o Renova Cubango.

Segundo o novo presidente Rogério Belisário, a verde e branco de Niterói vem mais preparada para entrar na Passarela do Samba e conquistar uma chuva de notas 10. A Cubango é a quinta a desfilar neste sábado.

“A expectativa da nossa escola é a melhor possível. Através do ‘Resgata Cubango’, conseguimos trazer de volta vários antigos integrantes que buscavam a renovação, o resgate da escola. Estamos com o barracão pronto e confiantes no nosso samba, que está muito bem encaixado”, disse o presidente da Cubango, que assumiu a direção há apenas nove meses.

Um desses integrantes que retornaram é a rainha de bateria Cris Alves, que veste a camisa da agremiação há 36 anos.  Fora verde e branco no ano passado, a sambista vê 2018 como um momento de virada na Sapucaí.

Momento da peregrinação que Arthur Bispo do Rosário fez, de Botafogo ao Centro do Rio, será revivido. Os sete anjos que ele dizia que os cercava viraram esculturas

Foto: Douglas Macedo

“Estou fazendo 36 anos de Cubango, passando só um ano fora por vontade da antiga diretoria. E, hoje, tenho a oportunidade de estar de volta. Voltei para ser só diretora da ala de passistas e fui presenteada com esse convite para retornar ao meu posto de rainha”, comemorou Cris Alves.

Retorno de uns, estreia de outros. A dupla de carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora saem dos desfiles Intendente Magalhães, na Zona Norte do Rio, e aterrissam na Série A da Marquês de Sapucaí. Os jovens trazem uma vontade antiga, alinhada às características da Cubango: um enredo homenageando Arthur Bispo do Rosário, grande artista plástico negro, pobre, nordestino e que passou boa parte da vida internado  em um hospício. Será um delírio carnavalesco.

“O Rei que bordou o mundo” fala da vida e obra do Bispo do Rosário, que hoje é considerado um dos maiores artistas plásticos brasileiros da contemporaneidade.

“A nossa proposta é abrir uma lacuna. Apesar de ter aparecido em outros enredos de forma pontual, não sendo um personagem estranho no universo carnavalesco, ainda não rendeu um enredo integralmente sobre a vida e obra dele”, esclareceu Leonardo.

Os quatro carros alegóricos e 20 alas da escola levarão um festival de cores e criatividade para a Passarela do Samba, sem deixar de destacar, claro, o verde e branco de seu pavilhão.

“O grande desafio foi extrair o verde das obras onde predominam o azul”, confessou Leonardo.

Segundo os carnavalescos, o universo temático trabalhado nas obras do Bispo do Rosário estará representado na Avenida, seguindo um rigoroso mapeamento.

O esperado abre-alas foi parcialmente confeccionado com fantasias doadas pela Vila Isabel, que ganharam um novo significado. Esse primeiro setor da escola se transforma num navio, em alusão à vida de marinheiro que ele já teve e à série de navios que confeccionou.

A famosa peregrinação que marcou a história do homenageado surge no segundo setor do desfile. Bispo do Rosário dizia que era um enviado por Deus e tudo o que fazia tinha o viés religioso.

“Ele dizia simplesmente que apareceu no dia 24 de dezembro e não que nasceu. Bispo do Rosário peregrinou durante 48 horas, de Botafogo ao Centro do Rio, onde interrompeu uma celebração de Natal no Mosteiro de São Bento e foi levado para o hospital psiquiátrico da Praia Vermelha e, depois, para a Colônia Juliano Moreira”, contou o carnavalesco Leonardo. O ator Izak Dahora vem no segundo carro, representando o artista plástico.

O terceiro setor, chamado de “Inventário”, trata da obra, propriamente dita, que o artista produziu ao longo da vida, grande parte na Colônia Juliano Moreira.

“É uma obra vastíssima, que passeia por alguns temas centrais: as cenas dedicadas ao universo marinheiro, série de obras dedicadas aos esportes, já que ele era boxeador, seu apreço pelos fardões e os concursos de miss”, explica Bora.

A terceira alegoria é um tabuleiro de xadrez, mencionando que o homenageado era um grande enxadrista e que vencia as partidas com todo mundo que desafiava.

O último e quarto setor é a “Chegança”, que são as obras do artista que relembram suas raízes quilombolas em Japaratuba, interior de Sergipe, onde nasceu. A sequência de alas é a visão carnavalesca do que seria o “manto da apresentação”.

“Ele passou a vida bordando um manto, chamado manto da apresentação, que seria utilizado no dia do juízo final junto ao criador”, relembrou Leonardo.

Segundo Gabriel Haddad, o último carro vem recheado de elementos presentes na obra do bispo, representando a chegança dele, como carrossel, atabaques e pandeiros.
Os lençóis desfiados pelo Rosário para bordar suas peças vêm representados na Ala das Baianas.  

“Acho que vai causar um impacto bem legal”, espera Haddad. 


Ficha técnica

Presidente: Rogério Belisário
Carnavalesco: Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Intérprete: Evandro Malandro
Mestre-Sala: Diogo Jesus
Porta-Bandeira: Thais Romi 
Mestre de Bateria: Demétrius Luiz
Rainha de Bateria: Cris Alves
Alas: 20
Alegorias: 4
Componentes: 1800

“O Rei que bordou o mundo”

“Velas ao mar, que o vento leve...
Nos mares da insanidade, naveguem
Delírios, sonhos, devaneios...
Por sete anjos me guiei
Num sopro divino, segui peregrino, andei...
E não me fiz entender
Pensamento aprisionado por meus irmãos
Na mente à procura de ser
Enviado pela voz, o “Rosário” da razão 
Mas a Arte irrompe a pele
Bordando o destino, a direção
 
O bem e o caos, rainha ou peão?
No “Bispo”, senhor, a salvação!
Um inventário em jogo, à luz dos olhos teus...
Ao tabuleiro, as mãos de Deus!
 
Parti pra fazer a minha chegança
O mundo, enfim, pude recriar
A emoção dos tempos de infância
Sagrado samba que faz relembrar:
 
O manto e suas coroas
Tambores em procissão
Quilombos e cabaças
Alma do sertão

Sou mais um negro
Orgulho dos meus ancestrais
A vida eu colori de paz
Nas páginas brancas da memória
Tingi de verde a minha história 

Resgata, Cubango, o meu grande amor
Insano ..... nessa avenida eu vou
Trançando em arte o sentimento mais profundo
Eu sou o rei que bordou o mundo”

Scroll To Top