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Aparência & Essência

Licius Coelho bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com pós-gradução em Direito Processual Civil, bacharelando em História pela UFF. Email para a coluna: licius210@gmail.com

Os “privilégios” perpetuam as desigualdades sociais

As desigualdades sociais deveriam provocar a nossa indignação. Mas ao contrário, a visão predominante é que a diferenciação socioeconômica entre os indivíduos é imutável, razão pela qual todos precisariam se conformar com este fato. No entanto, a história da humanidade demonstra que a estratificação das sociedades foi produzida pela ação direta do homem e, consequentemente, esta realidade pode ser alterada. Por outro lado, também é possível constatar que em algumas sociedades existem classes sociais que desfrutam de “privilégios” que alimentam e reproduzem a diferenciação entre os homens, e este fato dificulta a adoção de medidas que procuram combater ou minimizar as desigualdades sociais.

Estudos apontam que todos os indivíduos acumulam capital ao longo da vida, e que este pode ser subdividido em “capital econômico”, “capital cultural”, “capital social” (os contatos), e “capital simbólico” (o prestígio), os quais reunidos influenciam e configuram as classes sociais. Porém, a acumulação de capital nunca se realiza de maneira igualitária, pois o domínio sobre as diversas formas de capital se concretiza de maneira diferenciada. Não é difícil reconhecer, por exemplo, que o proprietário de uma empresa sempre irá acumular mais “capital econômico” do que os seus empregados assalariados. Mas nesta oportunidade tentaremos analisar especificamente apenas o “capital cultural”.

O “capital cultural”, também conhecido como “capital informacional”, é um termo criado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, e este conceito assume diversos matizes, cabendo um destaque especial para o procedimento de incorporação, visto que as capacidades culturais são transmitidas entre as gerações durante o processo de socialização dos indivíduos. BOURDIEU enfatiza que a família pode ser considerada como a principal instituição social encarregada da transmissão intergeracional do “capital cultural”, e salienta que a escola assume o papel de institucionalização deste processo, uma vez que reforça e valoriza um tipo específico de “capital cultural” incorporado. Todos as pessoas são submetidos a este processo de socialização, mas dependendo da posição que cada indivíduo ocupa na sociedade, a acumulação de “capital cultural” se dará de maneira diferenciada.

O “capital cultural” acumulado influenciará diversos aspectos de nossas vidas, e será determinante na definição do papel que iremos desempenhar na sociedade. Assim, quando o acesso ao “capital cultural” é limitado a poucos segmentos sociais, torna-se um poderoso mecanismo de exclusão social, e de reprodução das condições de desigualdades então existentes. Contudo, quando estabelecemos medidas que ampliam e democratizam o acesso ao “capital cultural”, estas estratégias podem se transformar num vigoroso veículo de mudança social.

Uma vez que o processo de acumulação de “capital cultural” se inicia na infância, nascer numa família que possua recursos econômicos satisfatórios pode fazer uma grande diferença. Ter pais com formação universitária, acesso a boa alimentação, a livros, a cinema, a teatro, e realizar viagens, são fatores que acabam influindo de maneira decisiva na formação dos indivíduos, dando-lhes maior acesso a saberes, informações e conhecimentos, e desta forma propiciam uma maior acumulação de “capital cultural”. Neste sentido, numa sociedade em que o acesso à cultura é limitado a uma pequena parcela da população, o “capital cultural” passa a ser um elemento de dominação de classe, pois cristaliza as desigualdades sociais, e se transforma num verdadeiro “privilégio”.

A sociedade brasileira é marcada por profundas desigualdades sociais, e o acúmulo ampliado de “capital cultural” é restrito a poucos segmentos sociais. Consideramos que apenas 20% da população possui condições satisfatórias de pleno acesso à cultura, o que caracteriza um quadro de evidente “privilégio”. Mas os indivíduos que integram estes segmentos sociais privilegiados não reconhecem esta condição, e mascaram esta realidade assumindo um discurso de que o sucesso individual sempre é fruto de muito esforço e dedicação pessoal. No entanto, são refratários a quaisquer medidas que visem ampliar o acesso ao “capital cultural”, pois sabem que o êxito destas medidas poderão acarretar num aumento de competição no acesso aos postos de destaque e de prestigio que existem na sociedade.

Os assuntos tratados neste artigo não pretendem esgotar a discussão em torno dos “privilégios”, mas acreditamos que esta é uma característica marcante das nossas estruturas sociais que precisam ser discutidas e enfrentadas, e acreditamos que a abordagem destes temas podem ser úteis para tentarmos entender as disputas que estão sendo travadas na sociedade brasileira.  

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Comentários

Rômulo Machado
Até que ponto a "sociedade" está disposta a abrir mão desses privilégios e aumentar sua concorrência a esses postos de trabalho? E se fizesse como reagiriam? Veja, que isso já acontece, embora de forma cíclica e conforme a trajetória da política sócio-econômica praticada em nosso país. Realmente não se esgota a discussão ou luta de classes, como desejar designar. Uma coisa é sabida. A sensação da decadência social é aproveitada desde tempos pelos programas de tv's que utilizam a carência humana como jogos de entretenimento.
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