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Aparência & Essência

Licius Coelho bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com pós-gradução em Direito Processual Civil, bacharelando em História pela UFF. Email para a coluna: licius210@gmail.com

Nesta eleição teremos que escolher entre a Civilização e a Barbárie

No último dia 11 de setembro o Partido dos Trabalhadores foi forçado a abandonar o seu projeto inicial em torno da candidatura do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e promoveu a indicação de Fernando Haddad (PT) como candidato à Presidência da República, juntamente com Manuela d’Ávila (PCdoB) que compõe a chapa na condição de candidata a vice-presidente. Esta decisão alterou o atual cenário político, e a partir de então a campanha eleitoral entrará numa nova fase. 

Em poucos dias o Partido dos Trabalhadores conseguiu demonstrar a sua capacidade de transferência de votos para a nova candidatura, e na pesquisa CNT/MDA, divulgada no dia 17/09, o candidato Fernando Haddad já aparece como segundo colocado na corrida eleitoral, alcançando o índice de 17,6% de intenções de votos. Os dados da referida pesquisa apontam para uma provável polarização entre o candidato do Partido dos Trabalhadores, e o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, que ocupa a primeira posição com 28,2% de preferência dos eleitores. Caso esta tendência se confirme, as eleições de 2018 irão reproduzir novamente um cenário de acirradas disputas políticas. 

Os setores mais progressistas da sociedade brasileira acabarão convergindo para a chapa encabeçada por Fernando Haddad, pois esta candidatura representa a possibilidade mais viável de construção de um projeto de desenvolvimento que seja capaz de promover uma maior inclusão social. Do outro lado, irão se concentrar os segmentos sociais que sempre assumiram um posicionamento mais conservador, razão pela qual são refratários a qualquer proposta de governo que vise atender as demandas das classes sociais menos favorecidas. No entanto, diferentemente das últimas seis eleições, neste pleito o PSDB deixou de exercer um protagonismo político, e esta organização partidária não consegue mais aglutinar e organizar os segmentos mais conservadores de nossa sociedade.  

Mas como explicar o enorme enfraquecimento político e eleitoral do PSDB? 

Em artigos anteriores sempre defendemos o ponto de vista de que o impeachment de Dilma Roussef foi uma manobra oportunista, implementada a partir da aliança estabelecida entre alguns partidos de oposição e o MDB de Michel Temer, com o objetivo de assumirem ilegitimamente o controle do governo federal. No entanto, as consequências do processo de impeachment foram tão desastrosas para o país, que os partidos políticos que deflagraram esta ação irresponsável estão sendo julgados e condenados pelos eleitores. O próprio ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, concedeu uma entrevista na semana passada, e reconheceu que o partido incorreu em inúmeros erros a partir das eleições de 2014: "O partido cometeu um conjunto de erros memoráveis. O primeiro foi questionar o resultado eleitoral. Começou no dia seguinte (à eleição). Não é da nossa história e do nosso perfil. Não questionamos as instituições, respeitamos a democracia. O segundo erro foi votar contra princípios básicos nossos, sobretudo na economia, só para ser contra o PT. Mas o grande erro, e boa parte do PSDB se opôs a isso, foi entrar no governo Temer. Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio (Neves). Fomos engolidos pela tentação do poder”. 

A autocrítica do Senador Tasso Jereissati (PSDB) é contundente, e reconhece explicitamente que a decisão de promover o afastamento da presidente Dilma Roussef foi um grande erro político. Ao mesmo tempo, o fracasso do projeto golpista também foi determinante para que as candidaturas de Henrique Meirelles (MDB) e de Geraldo Alckmim (PSDB) fossem inviabilizadas, e os dois partidos e seus respectivos aliados não conseguem exercer nenhuma influência decisiva sobre o atual processo eleitoral.  

Mas como explicar o aparecimento de um novo protagonista político no campo conservador? 

Os idealizadores do “Golpe Brando” implementaram um projeto político com inúmeras medidas impopulares, e impuseram enormes sacrifícios a nossa população. No entanto, para que os golpistas alcançassem sucesso tiveram que convencer à opinião pública a apoiar o processo de impeachment. Assim, durante longos meses os brasileiros foram diariamente massacrados por uma insidiosa campanha midiática que criminalizava a atividade política, e ao mesmo tempo tentava desmoralizar os governos do Partido dos Trabalhadores. Estas enganosas campanhas contribuíram para criar um ambiente propício para que os golpistas tomassem o poder, mas produziram um efeito colateral negativo que está contaminando o atual processo eleitoral. 

A tentativa de criminalizar a atividade política em meio a uma grave crise econômica, e num ambiente social de aumento dos índices de criminalidade, criaram um clima de insegurança e de desesperança em amplas parcelas da sociedade brasileira, e estes fatores pavimentaram o caminho para o surgimento de uma candidatura com propostas políticas conservadoras, alicerçada num discurso salvacionista, e temperada de muita retórica que remontam as trágicas experiências fascistas do passado. Este seguramente foi o maior mal que os golpistas acabaram produzindo para o Brasil.  

O Deputado Federal Jair Bolsonaro possui uma longa trajetória de atividade parlamentar, mas nunca conseguiu se consolidar como uma liderança política nem mesmo no Congresso Nacional. No entanto, os desacertos do projeto golpista criaram as condições objetivas para o surgimento da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República, que aglutinou os setores mais conservadores da sociedade, e ao mesmo tempo vem conseguindo seduzir alguns segmentos da classe trabalhadora que, submetidos a uma crise econômica sem precedentes, sonham com respostas imediatas para a solução de seus problemas. Mas não podemos deixar de considerar que o presidenciável Jair Bolsonaro é na verdade um produto do “Golpe Brando”, e que o aludido parlamentar participou ativamente desta ilegítima aventura política. Contudo, devemos ressaltar que a sua candidatura somente assumiu contornos mais amplos em razão da atual conjuntura de crise econômica, e não podemos deixar de levar em conta que suas propostas podem representar uma ameaça à democracia, pois o candidato Jair Bolsonaro desenvolve uma retórica que difunde a intolerância e o ódio, e estes fatores poderão promover um esgarçamento ainda maior das relações sociais na sociedade brasileira. 

O processo eleitoral está caminhando para a reta final, e lamentavelmente as pesquisas eleitorais apontam para um embate no segundo turno que promete ser extremamente conflituoso. No cenário que se avizinha, os brasileiros terão que decidir se pretendem construir uma sociedade baseada no Diálogo ou na Intolerância. Se iremos preservar a Democracia ou enveredar numa aventura Autoritária e Fascista. Enfim, teremos que decidir entre a Civilização ou a Barbárie.

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