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Aparência & Essência

Licius Coelho bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com pós-gradução em Direito Processual Civil, bacharelando em História pela UFF. Email para a coluna: licius210@gmail.com

Porque os “Protestos de Rua” silenciaram?

Os brasileiros estão vivenciando um período de inúmeras dificuldades e incertezas, razão pela qual passamos a externar uma compreensível insegurança em relação ao futuro. Ao mesmo tempo, há uma expansão considerável de comportamentos tipicamente conservadores e retrógrados, e este fator amplia ainda mais o clima de intolerância entre os indivíduos. Aumenta a sensação de que estamos sendo submetidos a um processo de regressão das condições materiais de subsistência, e que estamos enfraquecendo os valores civilizatórios que possibilitam a nossa existência enquanto sociedade. Todas estas mudanças estão emergindo numa velocidade avassaladora, e mesmo um observador mais atento encontra certa dificuldade para estabelecer uma clara compreensão da realidade.

No artigo anterior, publicado no dia 01/09/2017, assinalamos que a “sociedade brasileira apresenta sinais de uma profunda desesperança”, e este sentimento poderia estar sendo
potencializado em razão da ocorrência de uma ruptura com a noção de progresso contínuo e inexorável das sociedades humanas, visão que orientava e condicionava o comportamento dos indivíduos até o final do século XX. Por outro lado, verificamos que, mesmo diante de uma realidade tão negativa, a população em geral permanece numa aparente inércia, e as manifestações públicas de protestos desapareceram por completo. Mas não devemos nos enganar. Sob esta ilusória apatia momentânea, existe uma população que reflete sobre o atual cenário político, e acabará construindo formas próprias e alternativas de resistência. Mas como podemos perceber e interpretar os desejos de uma sociedade, num ambiente em que os modelos clássicos de protestos não estão sendo utilizados? Esta é uma tarefa extremamente difícil, e vem mobilizando a atenção de muitas pessoas que buscam encontrar soluções para superar a atual crise brasileira. Neste sentido, precisamos nos valer de todo e qualquer elemento disponível, e que possa indicar qual é o horizonte de expectativas que está sendo construído por nossa sociedade.

Na última terça-feira (19/09) foi divulgado o resultado da 134ª Pesquisa MDA/CNT, que coletou dados entre os dias 13 a 16 de setembro de 2017. A pesquisa é bastante abrangente, e consideramos que alguns dados podem ser úteis para compreender a conjuntura nacional.

A “Operação Lava Jato” vem influindo decisivamente no atual cenário político desde 2014, e as novas apurações são difundidas pelos principais veículos de comunicação como se fossem verdades comprovadas e irrefutáveis, razão pela qual muitos encaravam esta investigação como se fosse uma “Cruzada Ética” que iria transformar o país. Mas a aludida pesquisa aponta que esta concepção vem perdendo força entre a população, Embora 78,5% dos entrevistados Aprovem a investigação de políticos e empresários, apenas 54,0% consideram que a “Lava Jato” está Beneficiando o Brasil, ou seja, metade dos entrevistados não possuem mais a compreensão de que os fatos que estão sendo revelados serão capazes de modificar positivamente o país. Este dado é fundamental para que possamos compreender os índices de intenção de votos para a eleição presidencial de 2018.

Ao examinarmos os indicadores que apontam as preferências do eleitorado para 2018, chama a atenção o fato de que nenhuma liderança política que teve um papel central no afastamento da presidente Dilma Rousseff consegue alcançar índices de intenção de voto que o habilitem como alguma chance de vitória. Por outro lado, Lula continua liderando nas pesquisas de opinião como franco favorito na corrida presidencial. Não podemos deixar de salientar, que certamente Lula é a liderança política nacional mais investigada pela “Lava Jato”, responde a vários processos criminais, e já foi condenado em primeira instância pelo Juiz Federal Sergio Moro. No entanto, comparando com os dados da pesquisa anterior desenvolvida pelo mesmo instituto, Lula ampliou ainda mais o percentual de preferência do eleitorado, cabendo registrar que o ex-presidente aparece como vitorioso em todas as simulações de segundo turno.

A mesma pesquisa aponta que 91,0% dos entrevistados nunca participou de protestos e atos políticos deste 2013. Por outro lado, 94,3% acreditam que o país está vivenciando uma crise política. Contudo, ao serem indagados sobre a situação política do país, 59,5% dos entrevistados declararam que o Brasil está fora de rumo, mas que ainda há esperança. Esperança que parcela considerável da população está depositando na candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, que poderá ter suas pretensões eleitorais interrompidas através de uma possível condenação criminal pelo TRF4.

Uma parcela considerável da sociedade brasileira está mandando um recado silencioso para as elites dirigentes do país, e frustar estas expectativas poderá criar um ambiente de total descrédito nas instituições, e inevitavelmente irá ampliar o clima de desesperança da população.

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