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Aparência & Essência

Licius Coelho bacharel em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com pós-gradução em Direito Processual Civil, bacharelando em História pela UFF. Email para a coluna: licius210@gmail.com

Uma sociedade marcada pela desesperança

Na última quinta-feira (31/08) completou um ano que o Senado Federal decidiu afastar definitivamente Dilma Rousseff da Presidência da República, e desde então vem sendo implementado um “novo” projeto de governo para a sociedade brasileira. Mas as medidas que estão sendo adotadas por Michel Temer já demonstraram que são ineficazes para reverter a nossa crise econômica. O sinal mais evidente do fracasso da atual política econômica é a expressiva queda da arrecadação tributária, que obrigou o governo a ampliar a meta do déficit público deste ano para algo em torno de R$ 159 bilhões, e ao mesmo tempo anunciar que o rombo nas contas públicas também se repetirá nos próximos dois anos. A política recessiva do governo e a diminuição dos investimentos públicos restringiu a atividade econômica do país, fatores que promoveram uma queda acentuada no consumo das famílias. Os efeitos da crise econômica são devastadores, e impactam decisivamente na qualidade de vida de cada um de nós.

No entanto, uma outra dimensão do atual cenário nacional é muito mais preocupante, pois cria uma maior dificuldade para que a sociedade brasileira consiga construir alternativas que possam nos levar a uma superação da atual crise econômica. O afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff foi considerado por muitos como um “Golpe Parlamentar”, e este somente pôde ser concretizado pois recebeu o apoio de uma ampla campanha midiática que instrumentalizou a “Operação Lava Jato”, com o nítido propósito de desgastar a imagem e desestabilizar a base de sustentação política daquele governo. A estratégia utilizada conseguiu alcançar o seu objetivo, mas a criminalização da atividade política acabou produzindo efeitos mais amplos, e atingiram todas as principais lideranças do país. Inúmeras pesquisas de opinião apontam que há uma descrença generalizada na classe política brasileira, e este é um dado que merece um exame mais aprofundado, pois consideramos que a solução para os nossos problemas passará necessariamente por uma intensificação da atividade política que mobilize amplas camadas de nossa sociedade. No entanto, o posicionamento da população em relação as suas lideranças políticas criou um ambiente de desesperança, e este coincide com um momento em que a própria humanidade já enfrenta enormes dificuldades para lidar com uma realidade marcada pela imprevisibilidade quanto ao futuro, e este fato é denominado por alguns teóricos como “crise de temporalidade”.

Estamos inseridos em sociedades que concebem o tempo de forma linear, visão que se contrapõem à concepção de tempo circular (cíclico) vivenciada por outros grupamentos humanos. O tempo linear é uma herança judaico-cristã que estabeleceu uma articulação temporal, mas nem sempre as sociedades lidam com as três categorias temporais (passado, presente e futuro) de uma mesma maneira. Há estudos que buscam examinar as diferentes dinâmicas de como a humanidade articulou em determinados contextos históricos as três categorias do tempo, fenômeno que o historiador francês François Hartog denominou de “Regimes de Historicidade”.

Segundo François Hartog, a partir do século XVIII, com o advento do Iluminismo e das revoluções científicas, econômicas e sociais, a humanidade passou a ter uma nova experiência temporal. O passado, como um “espaço de experiências”, perdeu a sua centralidade, e o foco da humanidade se voltou para o futuro, depositário de um “horizonte de expectativas”. Este teria sido o Regime Moderno de Historicidade, período em que a humanidade voltou os olhos para o futuro, não como uma mera repetição do passado, mas com uma noção de aperfeiçoamento contínuo e permanente. Um futuro que parecia inexorável, e para onde todas as sociedades caminhavam. Uma concepção de futuro fortemente influenciada por uma visão de progresso e de desenvolvimento.

Este período foi marcado pela expansão de grandes projetos “utópicos” de sociedade, os quais eram vistos como algo sempre melhor do que a realidade do passado, e mesmo do presente até então vivenciados. No entanto, o final do século XX acabou promovendo uma nova mudança, que representaria uma ruptura com o “Regime Moderno de Historicidade”. A partir da segunda metade do século XX, uma série de acontecimentos iriam desencadear um novo “Regime de Historicidade”, pois colocaria em dúvida algumas das certezas que até então orientavam a humanidade, e que estavam alicerçadas num ideal de progresso contínuo e inexorável. Os efeitos devastadores das duas guerras mundiais, os movimentos de contestação de 1968, a expansão da sociedade de consumo, o fortalecimento da globalização, a queda do Muro de Berlim em 1989, e o fim da URSS, são alguns dos acontecimentos que podem ser elencados como fatores que colocaram em dúvida a noção de um futuro necessariamente melhor. O desaparecimento das certezas em relação ao futuro, que passou a ser visto como um amplo leque de possibilidades, lançou a humanidade no que ficaria conhecido como “Regime Presentista de Historicidade”.

O historiador François Hartog salienta que: “O presente tornou-se o horizonte. Sem futuro e sem passado, ele produz diariamente o passado e o futuro de que sempre precisa, um dia após o outro, e valoriza o imediato”. Não é difícil constatarmos a pertinência destas afirmações quando observamos o comportamento das sociedades humanas nos dias atuais. A busca individual pela realização do prazer imediato, o enfraquecimento dos grandes debates sobre projetos “utópicos" de sociedade, e a fluidez nas relações sociais, são algumas características da atualidade que condicionam e orientam o comportamento e as decisões dos indivíduos. Estes comportamentos podem ser um um obstáculo a  mais para que a humanidade consiga enfrentar suas dificuldades. Mas não podemos desconsiderar estes dados comportamentais quando analisamos a realidade em que estamos inseridos.

A sociedade brasileira apresenta sinais de uma profunda desesperança, e este sentimento pode estar sendo potencializado pelo fato de vivermos numa realidade marcada por um eterno “presentismo”, ou seja, uma concepção de temporalidade que enfraqueceu na humanidade as perspectivas em relação ao nosso futuro. Mas acreditamos que todas estas dificuldades precisam ser superadas, mas certamente demandarão um grande esforço. Precisaremos romper com a apatia que nos aprisiona, e as lideranças políticas de nossa sociedade terão uma difícil tarefa. Demonstrar que ainda é possível construir um futuro melhor. 

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