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Elisa Lucinda

A premiada atriz Elisa Lucinda divide com o leitor dicas, experiências e reflexões de maneira singular estabelecendo o conceito artístico em todas as palavras

"É a cara da minha Dundum!”

Toda hora me vem a vida ensinando, ensinando, ensinando. Sua dinâmica é maluca e, muitas vezes, o mestre é o aluno, o menor, o mais pobre, o mais desfavorecido, o mais frágil, o mais minoria. De todo lado pode vir a lição. Fiquemos atentos. Agora que meu filho é adulto, muitas vezes, como através de cenas, já relatadas aqui, ele hoje completa minha educação. Muito de seu saber é, também, oriundo de muitos saberes que passei ou provoquei, ou produzi. E aquilo volta. Transformado. 
Um grande amigo me contou, ele, um artista, um homem moderno, antenado com o pensamento mais contemporâneo, que seu filho de oito anos lhe relatou sorrindo: 
– Pai, hoje a gente zoou tanto o Luquinha que ele saiu chorando da sala. Moleque bobo. 
– Mas o que aconteceu?
– Ah, pai, o moleque falou que ia estudar balé, vê?!
– Que pena, filho. Por que é que vocês fizeram isso? Você devia ter falado pra ele que seu pai também estudou balé. 
– Você??? Por quanto tempo?
– Fiz poucas aulas porque os meus colegas fizeram comigo o que vocês fizeram hoje com o Luquinha. 
Perplexo, atordoado, o filho teve uma pena do pai e uma compreensão mais afetuosa do que tinha acontecido ali, naquele bullying infantil que a gente chama de “coisa de criança” e deixa pra lá. Pois esse meu amigo não deixou. Interferiu, educou. O filho, até então, nunca havia pensado que coubesse na masculinidade do pai uma sapatilha, nunca pensou que se pudesse ser pai e bailarino ao mesmo tempo, ou hétero e bailarino ao mesmo tempo. Era o que o pai era. Fico feliz de existir este meu amigo no seio da sua família; ele, que é pai também de duas meninas, oferecendo à sua prole os ensinamentos dos tempos de agora. A toda hora a palavra e os conceitos se refundam à luz da atualização dos saberes e, se é assim, não devemos tirar os olhos nem de nossa eterna formação como ser humano, quanto da formação dos que nos põem na vida no lugar de mestres de alguém. Sempre há uma criança ao nosso redor que nos pergunta “Pode?”, “O que devo fazer?”, “Isso está certo?”. Os mais experientes nos temas podem, a princípio, enriquecê-los com a veteranidade da sua posição. Enquanto cabe ao ignorante, digo, o menos experiente, a liberdade teórica desta ignorância. Ou seja, como ele não sabe os limites daquele pensar, pode ir além deles e propor novos caminhos. 
Atenção, pais de futuros homens e mulheres e trans, precisamos desmontar deste mundo em nossa educação o que pudermos que reproduza em nossos filhos o egoísmo, o conceito de “primeiro eu”, do “eu sou o melhor”, e tudo isso em detrimento do bem coletivo. O machismo, o racismo, a homofobia ensinam guerras. Noutro dia meu queridíssimo Gabriel, afilhado, amado, filho da minha diretora em “A Paixão Segundo Adélia Prado”, Geovana Pires, a passear com a mãe, passou pela feirinha do Largo do Machado e, de súbito, parou em uma banca, fascinado: “mãe, eu preciso dar essa bonequinha pra minha Dundum! É a cara da minha Dundum! Você pode, mamãe, comprar?”. Os olhinhos castanhos vivíssimos, olhos que miram sem cerimônia, porque não sabem ser de outro jeito, lá dentro da alma da gente. A sensível artesã, senhorinha, autora das bonequinhas de pano, disse:
– Mas você não quer escolher outra, também? Esta aqui também é linda!
– Mas eu quero aquela, de cabelo azul e vestido azul. É a cara da minha Dundum mesmo.
Encantada, a boa senhora perguntou. 
– Mas que idade tem essa sua Dundum?
– Ela é minha madrinha. Ela já é grande. E ela é assim: marronzinha e alegre!
Quando a boneca chegou pra mim junto com a história, ganhei dois presentes. Que história linda! Fiquei apaixonada. O vestidinho azul dela com coroas de rainha desenhadas no estampado em cor branca sobre o azul bebê, o cabelinho de nuvem azul com direito a uma florzinha rosa de fuxico! Eu que sou uma mulher, que não sou dada a ursinhos de pelúcia, recebi o presente como uma criança o recebe e, ao mesmo tempo, com o respeito que se tem por um presente de Orixá. E ainda aconteceu mais: o Gabriel estuda na Escola Antroposófica e fui convidada a assistir sua apresentação de música. Fui e, ao sair de casa, decidi que levaria minha bonequinha comigo. A doce bonequinha, que passou a morar na minha cama, e a quem logo apelidei de Lili, parecia também querer vir comigo. Só dentro do táxi, já chegando à escolinha, percebi que havia esquecido a não usual bagagem de mão, até então.
Enquanto assistia à apresentação dos meninos e das meninas, via seus olhinhos fixos em mim, no seu pai, sua mãe, nas pessoas, nos amigos, nos outros professores, as pessoas que cuidam do seu crescer. Zelam. 
Na plateia pensava: “Que pena, como gostaria que ele me visse com a bonequinha. Seu coração sorriria, tenho certeza”. Ora, mas quem sentiria falta daquilo? Quem ia imaginar que eu pudesse trazer a bonequinha? Certamente ele nem esperava que eu o fizesse. Sou uma adulta, afinal! Fiquei pensando se eu não pareceria aos olhos dos outros uma velha doida com uma bonequinha de pano nas mãos.
Aplausos. Termina a apresentação dos curumins. Depois de abraçar o pai e a mãe, vem a criaturinha correndo em minha direção, os olhos alegres e quase aflitos me olham de cima a baixo. Ele observa muito atento minhas mãos e me mata: 
– Você não trouxe a bonequinha?
Chorei. 

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