Assine o fluminense

Abaixo o preconceito

Cada vez mais homens desempenham tarefas que eram consideradas femininas

Aos 24 anos, o manicuro João Paulo da Conceição começou na profissão aos 17

Divulgação

O uruguaio Martin Irazusta é especialista em massoterapia e é hoje tão requisitado quanto as profissionais mulheres

Divulgação

Quem nunca ouviu que boneca é brinquedo de menina, que atire a primeira pedra. Ou quem, depois, mais tarde, se acostumou a ver homens em profissões como pedreiros ou motoristas de transporte público. As divisões silenciosas de gênero, construídas na esfera sociocultural, têm raízes em fatores históricos e culturais, mas alguns homens desafiam preconceitos e investem em carreiras consideradas “femininas”. João Paulo da Conceição Silva, hoje com 24 anos, atua desde os 17 como manicuro. Ele conta que a irmã também trabalha na área, e, quando era mais novo, ficava observando os trabalhos dela. Com o tempo, foi aprendendo as manhas e passou a fazer as unhas de algumas pessoas, mas ainda sem compromisso profissional.  

“No começo eu só esmaltava. Vez ou outra, cutilava. Com o tempo, e fazendo unhas de amigos e amigas, passei a adquirir mais confiança e habilidade. Até que teve um dia em que minha irmã me chamou para uma prova de fogo: fazer a unha dela. Não fiz tão bem quanto um profissional, é claro, mas com as dicas e toques que ela me deu passei no teste. Aos 17 anos consegui meu primeiro emprego em um salão graças a ela. Foi lá que eu peguei agilidade e profissionalismo na função”, recorda. 

João Paulo conta que, logo quando começou, algumas – poucas – mulheres chegaram a recusar ser atendidas por ele. Hoje, entretanto, são elas que procuram pelo seu serviço. O manicuro garante, ainda, que não vê diferença no serviço dele e no de uma mulher. 

“Atendo todas as clientes da mesma maneira: com profissionalismo. Quando falo de trabalho sou uma pessoa divertida, atenciosa, profissional e ágil. Acho que, por esses fatores, minha agenda no salão é lotada. Quase não tenho hora para almoçar”, conta. 

Aos 25 anos, o diarista Felipe Fersonymee foi parar na profissão por acaso. Ele conta que trabalhava como promotor de vendas e estava à procura de uma forma de ganhar dinheiro extra quando conheceu um colega que fazia serviços em um hostel, que, na época, estava com uma vaga disponível no setor de limpeza. Contratado no estabelecimento, em seguida foi chamado para fazer uma diária na casa da dona do hostel. Como se saiu bem no serviço, foi sendo indicado pelo boca a boca, e, hoje, vive das suas diárias. 
 

Felipe Fersonymee começou fazendo faxinas diárias como forma de conseguir renda extra. Hoje virou sua profissão oficial

Arquivo pessoal

“Meu trabalho não se limita à limpeza doméstica. Eu faço organização de closet, pequenos reparos, customização de ambientes. Nas horas vagas sou babá, fico com a criança quando a pessoa precisa sair. Comigo não tem essa, não me limito no trabalho. Eu lavo, passo, cozinho, faço almoço”, conta o diarista, que hoje trabalha somente com as diárias.
Recentemente Felipe “recrutou” a mãe como sua ajudante nos dias de semana e a carga horária – que era de seis horas – caiu para três, já que, juntos, eles conseguem fazer todo o serviço com mais rapidez. Assim a dupla costuma trabalhar em duas casas por dia. 

“Hoje eu inicio minha rotina de trabalho entre 8h e 9h, e, entre 11h e 12h, termino a limpeza da casa, dependendo do dia e do cliente. Tem casa que é só limpeza, tem casa que é passar, limpar e cozinhar. Então a gente termina a limpeza do primeiro cliente e se desloca para a próxima.

Felipe conta, ainda, que seus clientes são bem “descolados” e já se acostumaram com ele, apesar de nunca terem trabalhado com um diarista homem em suas casas. 

“Meus clientes contam que, fora do País, isso é comum, mas por aqui não. Quando eu comento com as pessoas de fora do meu convívio, o pessoal não consegue identificar muito bem. Às vezes, até confundem, acham que eu quis dizer dentista. Se uma mulher fala que é diarista, acham normal. Quando eu falo, demoram a assimilar”, relata. 

O uruguaio Martin Irazusta, de 29 anos, é massoterapeuta e gerente de uma rede de hotéis do Rio de Janeiro. Ele sempre trabalhou em funções administrativas, até que uma namorada massoterapeuta disse que ele tinha uma excelente mão e que fazia uma ótima massagem por intuição, sugerindo, então, que ele fizesse um curso. Foi assim que descobriu o dom para a profissão. 

“Hoje adoro fazer massagem e me destaco entre os terapeutas. Sou tão requisitado quanto as terapeutas femininas. Recebo muitos elogios e é uma satisfação poder ver que muitos clientes voltam procurando por mim no spa”, comemora o profissional, que diz que nunca sofreu preconceito por ser massoterapeuta, mas que já escutou comentários de que essa seria uma profissão “de mulher”. Tanto que admite já ter passado por situações em que homens e mulheres recusaram ser atendidos por ele.

“Teve homem que recusou, porque não fazia com terapeuta masculino, não permitia que um homem tocasse seu corpo, nem profissionalmente. E teve também mulher que recusou, pois ficava constrangida, mesmo sabendo que todas as massagens são feitas com o corpo coberto para respeitar a integridade dos spazianos”, conta. 

As diferenças entre seu serviço e o serviço de uma mulher existem, acredita. 

“Na maioria das vezes essa diferença está na força, pois homem possui uma força diferente das mulheres. Existe, ainda, um cuidado especial para não machucar, queremos deixar as pessoas mais confortáveis durante as terapias”, explica.

O antropólogo Luiz Fernando Rojo explica que, embora atualmente alguns setores da sociedade comecem a questionar este tipo de discriminação por sexo, ainda é muito forte a percepção ancorada em estereótipos que foram (e continuam em muitos grupos) sendo construídos historicamente. 

“Há um processo de desconstrução acontecendo em relação a estas concepções. Mas este processo nem é homogêneo na sociedade, nem linear. Então, ao mesmo tempo que vemos diversas iniciativas na ruptura deste tipo de discriminação, ainda convivemos com diversas manifestações de setores da sociedade – como é o caso de alguns deputados federais, por exemplo, que fazem da discriminação de gênero uma de suas bandeiras políticas – que lutam pela manutenção destas práticas. Deste modo, como ocorre em todo tipo de transformação cultural, este é um processo complexo e que não pode ser pensado como algo que seria, naturalmente, decorrente da chamada modernização da sociedade”, defende Luiz, ressaltando que, em termos de percepção das profissões como sendo “de mulher” ou “de homem”, outras duas características podem ser encontradas. Luiz explica que as mulheres que atuam em profissões consideradas “de homem” são taxadas de “masculinas”, em um processo de tentativas de desconstrução social de seu gênero. O mesmo ocorre no sentido contrário, com os homens que passam a ser socialmente rotulados como feminilizados. 

“A segunda característica é uma pequena variação deste último caso. Em determinadas profissões que são consideradas ‘de mulheres’, os homens que atuam nelas, desde que em posições destacadas, transformam este perfil. Assim, por exemplo, o trabalho na cozinha (em hospitais, escolas, etc.) é tipicamente associado às mulheres, mas no caso da chamada ‘arte culinária’, os grandes chefes não perdem masculinidade. Muitas vezes ocorre mesmo o contrário”, finaliza. 

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Veja também

Scroll To Top