Assine o fluminense

Apropriação Cultural: Sim ou não?

Especialistas falam sobre o termo que vem ganhando espaço em debates

Daniella Ferreira conta que já foi questionada sobre o uso dos dreadlocks

Arquivo pessoal

Com Raiana Collier

Um clipe da banda Coldplay gerou polêmicas, recentemente, ao usar elementos da cultura indiana e caracterizar a cantora Beyoncé, que faz uma parceria na música, como uma atriz de Bollywood. Iggy Azalea, rapper australiana e branca, também incita críticas por se popularizar em um ritmo tradicionalmente negro. Justin Bieber foi alvo de julgamentos ao colocar dreadlocks no cabelo há alguns dias. Mesmo envolvendo pessoas diferentes, todos esses casos têm algo em comum: a discussão sobre apropriação cultural. O termo vem ganhando espaço em debates e ainda gera controvérsia entre os especialistas. 

Segundo a doutora em antropologia social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ana Cláudia Viegas a apropriação cultural acontece quando uma cultura absorve elementos de outra. Para ela, esse processo faz parte da dinâmica das culturas e todos os povos trocam componentes entre si. “A apropriação cultural é uma consequência normal do contato entre diferentes culturas. Mas existe um contexto social e político, que não pode ser negado”, explica.

Stephanie Ribeiro, do Blogueiras Negras, e ativista social, defende que o conceito de apropriação cultural está ligado a estruturas de poder presentes na sociedade. 

“A apropriação cultural se configura quando uma cultura dominante se apropria de símbolos, aparência, roupas, estética, costumes, literalmente, a identidade de outro povo, simplesmente porque detem poder e obtém, inclusive, lucros sobre isso”, enfatiza.

Já Eli Vieira, biólogo e geneticista, considera o próprio conceito de apropriação cultural uma forma de atacar a diversidade cultural tão característica do Brasil.

Justin Bieber também aderiu aos dreadlocks

Divulgação

“O Brasil não é um país destituído de racismo, mas a população brasileira, com sua enorme variação, é vista pelo resto do mundo como um modelo de diversidade genética. E eu acho que também é um modelo de diversidade cultural. Não faz qualquer sentido tentar barrar essa diversidade alegando, como dizem as pessoas contrárias à ‘apropriação cultural’, que há problema em um paulista loiro usar tranças ou dreadlocks mais frequentemente associados a pessoas negras”, defende. 

Daniella Ferreira, jovem branca, 27 anos, já foi acusada de apropriação cultural por ter dreadlocks. Ela acredita que não está se apropriando de uma cultura, e questiona aqueles que a julgam. “Já ouvi coisas do tipo ‘olha ela querendo ser negrinha’. Porém, o interessante é que esse tipo de comentário veio de pessoas com seus cabelos modificados, alisados, alongados e coloridos. O que difere essas pessoas de mim? Também estão se apropriando de estilos de cabelos”, argumenta.

Stephanie Ribeiro defende que a adoção de padrões estéticos como cabelo liso e claro é, na verdade, uma imposição cultural. “Existe um padrão do que é o ‘melhor’ e esse padrão é imposto para diferentes pessoas, de contextos e realidades distintas. A criação disso se dá pela soma de inúmeros agentes que reafirmam essa ideia, desde as empresas de produtos para cabelos, novelas e até mesmo os indivíduos”, explica.

Ana Cláudia Viegas cita o exemplo da colonização europeia dos índios para falar sobre a imposição cultural. Ela destaca que a absorção de elementos da cultura ocidental pelos índios acontece através de uma imposição, já que havia uma tentativa de substituir a cultura indígena pela branca.

Para a professora, entretanto, a absorção de elementos de outros povos seria consequência inevitável do modelo globalizado em que vivemos. “Não vejo a apropriação como negativa necessariamente. Nesse movimento da globalização, o contato entre as culturas é mais intenso, então os elementos vão se misturando de maneira mais rápida”, detalha.

A jornalista Carolina Cunha defende que a globalização impulsiona a mistura entre culturas, mas que isso acontece dentro de um contexto de desigualdades sociais. “Se o mundo não fosse desigual, o único efeito desse fenômeno da globalização seria o contato com outras culturas. Mas vivemos num mundo em que o racismo é um problema real e as pessoas não têm as mesmas oportunidades. A apropriação é o lado negativo desse contato, ela acontece quando essa troca é feita de maneira desigual, refletindo esses desequilíbrios”, aponta.

Stephanie fala também sobre o uso de elementos da cultura negra, por exemplo, dreadlocks, por pessoas brancas, como foi o caso de Justin Bieber e Daniella Ferreira.

“Tivemos no Loollapalooza uma moça sendo vista como o destaque de beleza do evento, ela usava tranças que negras sempre usaram, porém, era branca, loira e com olhos mais claros. Por que negras que usam as mesmas tranças lidam com comentários racistas e maldosos, e ela é destaque estético? Simples, racismo”, aponta.

Carolina acredita que o uso desses elementos pode ser uma forma de desrespeito à outra cultura. 

“Hoje o movimento negro entende que usar um turbante é símbolo de empoderamento e autoestima, de celebrar sua beleza, origens e cultura. Então, usar turbante nesse contexto é um ato político. Mas quando um branco usa um turbante no carnaval como fantasia, esse uso é ofensivo porque reforça estereótipos e tira o turbante de um contexto positivo. A cultura de uma outra pessoa não pode ser uma piada”, afirma.

Para quem faz parte de uma cultura dominante, Stephanie indica refletir e aceitar quando alguém critica a apropriação cultural. 

“É preciso sair de uma posição de conforto, talvez muitos não queiram se ver questionados, por isso essa abertura para o assunto é tão pequena”, analisa. Carolina defende que não há problema em usar símbolos de outras culturas, desde que se estude as origens. 

“Eu preciso reconhecer o outro e fazer a pergunta: em que momento o meu uso pessoal pode desrespeitar uma comunidade tradicional? É preciso respeitar e entender que quem tem propriedade sobre esse conhecimento tradicional é aquele povo. Eles não podem ser esquecidos”, finaliza.

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Veja também

Scroll To Top