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Atento à emoção

Em 'Tête-à-Tête' deste mês, a repórter Ana Paula Soares conversou com a francesa Marie Bendelac Ururahy

Marie Bendelac Ururahy fala sobre Comunicação Não Violenta

Foto: Divulgação

Conhecida como Ciência da Felicidade, a Psicologia Positiva agrupa, entre seus estudos, a Comunicação Não Violenta – conceito criado pelo psicólogo norte-americano Marshall Bertram Rosenberg (1934-2015) –, que está embasando palestras e cursos que envolvem inteligencia emocional por mundo todo. Basicamente, a ideia é ajudar a pessoas a aumentarem seu vocabulário emocional Desde 2011 trabalhando como coaching, após 18 como executiva no ramo corporativo de administração de empresas e viajando o mundo, a francesa Marie Bendelac Ururahy queria colaborar com a qualidade de vida des pessoas. Moradora no Rio desde 2009, Marie cursou Science of Coaching Psychology em Harvard, além de outros cursos que somam 800 horas de formação em coaching, e se tornou sócia-diretora e cofundadora da Be Coaching Brasil.  . 
 

O fundamento básico da Comunicação Não Violenta é não usar de críticas e juízos de valor ao se relacionar. É a capacidade de se expressar sem usar julgamentos como “bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”. Falando parece simples. Por que no cotidiano as pessoas têm dificuldades?
Por vários motivos. O cérebro do ser humano foi feito para avaliar e detectar possíveis perigos e ameaças. Isso é uma capacidade nata nossa: avaliar e, consequentemente, julgar, necessária, inclusive, para nossa sobrevivência. Um outro motivo é que, desde criança, somos avaliados pelos nossos pais, pelos professores, e já crescemos nesse, digamos, modus operandi, de avaliar e julgar. No entanto, numa relação, quando julgamos o outro, a tendência é afastá-lo e/ou gerar reações defensivas ou agressivas, porque soa como crítica. 

Li que todas as ações da CNV nasceram da tentativa de satisfazer necessidades humanas, evitando o uso do medo, da vergonha, da acusação, da ideia de falha, da coerção ou das ameaças. Como isso é feito?
Todas essas maneiras de agir acabam sendo formas de manipulação, sejam conscientes e intencionais ou não. É assim que aprendemos a obter o que precisamos desde crianças. Não aprendemos a identificar e expressar o que estamos sentindo e precisando para sensibilizar o outro e fazer pedidos claros. No lugar disso, esperamos que o outro adivinhe o que precisamos, ou tentamos atender nossas necessidades usando o nosso poder sobre o outro, exigindo, fazendo o outro se sentir culpado se não fizer nossas vontades, intimidando ou, ainda, ameaçando. A CNV nos ajuda a assumir a responsabilidade por nossos sentimentos e pedir ações concretas para atender as necessidades que estão por trás destes sentimentos. 

Como a CNV pode colaborar para a evolução de pessoas de perfis tão diferentes?
Procurando estabelecer uma conexão de maior qualidade, consigo e com o outro, e desenvolver uma consciência que não temos quando agimos no modo automático. Isso independe do perfil de cada pessoa... Desenvolver nossa consciência, nossa intenção benevolente, pode se aplicar a todos nós. Outra forma em que a CNV pode colaborar é no auxílio de um novo jeito de se comunicar. Se expressar de uma maneira mais objetiva, clara e assertiva.  

Existe algum passo a passo que ajude as pessoas a perceberem com maior facilidade em que momento estão usando os caminhos equivocados para se relacionar?
O primeiro passo é desenvolver sua capacidade de percepção e ficar atento à forma como o outro reage. Uma pessoa que se mostra irritada, frustrada ou com raiva durante uma conversa é um sinal de que tem uma ou várias necessidades não atendidas, e que você vai precisar redobrar de atenção na sua forma de se comunicar, de dialogar. Observe e procure ouvir com atenção.

Em que se diferem relações da vida pessoal com relações da vida profissional? Existe alguma dica que você pode dar para colaborar com a manutenção da paz nessas áreas?
O que difere, talvez, é o nível de intimidade nesses dois tipos de relação. Em casa, a tendência é se permitir, muitas vezes, ter uma comunicação mais agressiva. No trabalho, lida-se com o socialmente correto, e as reações tendem a ser mais contidas. Tenta-se evitar expressar emoções como a raiva, gritar e coisas do tipo. O que pode ajudar a colaborar com a manutenção de paz nessas áreas é ouvir o outro de forma empática, tentar compreender de forma genuína no lugar de julgar, expressar nossos sentimentos e buscar harmonizar necessidades próprias e do outro.

Em tempos complicados de polarização de opiniões e preconceitos naturalizados, como o momento em que o Brasil e o mundo estão vivendo, qual instrução você dá para que as relações não fiquem desgastadas e que sejam promovidos a tolerância e o respeito?
Desenvolver habilidades interpessoais. Dentre essas habilidades, uma das mais importantes e valorizadas no mundo atual é a comunicação. Minha sugestão é aprender a ouvir mais e a se colocar no lugar do outro. Em outras palavras, exercer nossa capacidade de empatia. Hoje, é uma das habilidades mais valorizadas no mercado de trabalho. Isso é algo que cada um de nós pode aprender e aprimorar, com dedicação e treino.
 
Falar sobre autoestima é uma questão para todos nós humanos, que, de uma forma ou de outra, somos afetados pelos padrões sociais, de beleza e pelas vidas “perfeitas” das redes sociais. Como a CNV pode trazer autoconfiança e amor-próprio para a vida?
Justamente para diminuir o autojulgamento. Se julgo menos o outro quando “pratico” a CNV, posso passar a me julgar menos. Se estou com preguiça de ir para ginástica depois de uma noite maldormida ou de um longo dia de trabalho, por exemplo, no lugar de ficar com raiva de mim mesma e me chamar de preguiçosa, posso me conectar com meu sentimento de cansaço e minha necessidade de descanso. É uma forma de aprender a se respeitar e se amar, praticando a autocompaixão. Isso eleva a autoestima. 

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