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Boom fitness

Representando 43% do mercado da boa forma da América Latina, o Brasil vive o boom fitness, que se adapta às tecnologias e às novas demandas

Aquecido, mercado da boa forma se diversifica e se expande

Foto: Evelen Gouvêa

Segundo a pesquisa Global Report, da International Health, Racquet & Sportsclub Association (IHRSA) junto ao Conselho Federal de Educação Física (Confef), o mercado fitness cresceu consideravelmente nos últimos 10 anos. Em relação a outros países da América Latina, só em 2013, o número da receita do mercado no Brasil correspondia a 43% da América Latina, e o número de alunos chegava a quase 49%. De fato, tudo indica que estamos vivendo um “boom” fitness.

Gustavo Almeida – diretor-executivo da Fitness Brasil, empresa especializada no desenvolvimento do mercado, – destaca que a crença de o exercício físico ser um dos pilares de uma vida equilibrada e saudável é uma das razões deste avanço do mercado.

“Estamos sendo bombardeados pela informação do quanto é importante termos hábitos de vida saudáveis para ter uma vida melhor. Ainda há quem procure fazer atividade física ou uma academia simplesmente pela parte estética, mas, cada vez mais, as pessoas procuram pela manutenção da saúde e não esperam adoecer para correr atrás do prejuízo”, justifica.

A personal trainer gonçalense Bruna Carreiro, 29, trabalha há cinco anos no mercado e tem percebido este comportamento em seus clientes.

“Atendo muitas pessoas sedentárias que nunca entraram em uma academia e estão buscando resgatar o que deveria ter se iniciado há tempo. O público mais idoso, por exemplo, tem se preocupado muito mais com a saúde. As pessoas estão percebendo que a academia não é só um local para emagrecimento e hipertrofia muscular, mas um local que trabalha corpo e mente e previne doenças”, informa.

Com o aumento do número de academias, que, no Brasil são de pequeno porte em sua maioria e apresentam a média de 250 alunos por estabelecimento, surgiu a demanda de trabalhar a gestão do negócio. Esta é uma das prioridades do 18º IHRSA Fitness Brasil, que acontece em São Paulo entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro.

“As academias estão precisando acelerar o processo de profissionalização de gestão do negócio. É aí que estamos sentindo uma maior carência. Neste grande encontro em parceria com a IHRSA, teremos palestras com conteúdo de gestão para quem atua no setor e, em paralelo, uma feira que reúne os líderes dos mercados do insumo básico para uma academia funcionar”, explica Gustavo, que também percebeu que o aumento da oferta de variedade de atividades pode aumentar ainda mais o número de brasileiros que praticam atividade física, cerca de 9,6 milhões – 21,5% a mais em relação ao ano passado.

“Essa variedade aumenta as possibilidades das pessoas gostarem de uma atividade física e torná-la um hábito. O que conversamos muito com os nossos clientes é sobre como mais pessoas podem entrar para o setor”, fundamenta.

Mesmo diante da crise financeira no País, o personal trainer Victor Brito, proprietário da Treino2, ao lado do irmão Vinicius Arêas, percebe que a relação do público com o exercício físico é cada vez mais fiel

Foto: Lucas Benevides

Zumba, crossfit, corrida de rua, indoor e o funcional – que, segundo o profissional, está muito forte atualmente – são algumas das atividades que começaram a bombar nos últimos anos e acabaram exigindo um novo comportamento das empresas de fabricantes de equipamentos.

“O treinamento funcional está bombando. O crossfit é uma das modalidades e, por ser mais lúdico e dinâmico, tem conquistado o brasileiro. Isso porque a atividade funcional é mais simples, tem uma variedade maior de acessórios que são mais baratos e que permitem a realização de dezenas de exercícios diferentes. Como resultado, tem aparecido cada vez mais negócios de treinamento funcional, o que acabou gerando a necessidade dos grandes fabricantes de equipamentos oferecerem uma linha de acessórios mais ampla”, revela Gustavo.

A segmentação do mercado está dentro da variedade de ofertas de atividades físicas. A fim de agradar a todos os gostos, empresas como a paulista Studio Velocity, que inaugurou neste ano sua primeira unidade no Rio, é um exemplo próximo que trouxe a nova proposta de utilizar a bike como instrumento para promover experiências e sensações.

“Cada vez mais pessoas estão buscando atividades que as aliviem do estresse diário e que não tragam o peso da obrigatoriedade do treino. A Velocity é como uma terapia em movimento que, além de proporcionar grandes resultados físicos, também inspira e empodera”, observa Shane Young, sócio investidor e administrador da Velocity.

Ainda que o avanço deste mercado seja significativo, o momento atual do País e do Estado é desafiador. Mas o empresário acredita que o futuro tende a ser promissor.

“O mercado carioca está sofrendo um pouco e teremos que enfrentar esse cenário nos próximos 6 a 12 meses até que volte a se fortalecer e consolidar. Até lá, conseguiremos manter uma base alta de alunos fiéis com ações e práticas que fogem um pouco do tradicional. Não há proposta como a nossa na cidade, até então e o Rio é muito ligado ao fitness. Quem souber se adaptar às mudanças de comportamento, de cenário e souber inovar, terá sucesso”, opina Shane

Priscilla Martins da Costa e Laís Porto Andrade, donas da primeira lanchonete fit de São Gonçalo.

Foto: Lucas Benevides

Mesmo diante da crise financeira no País, o personal trainer Victor Brito, 31, proprietário da Treino2 ao lado do irmão Vinicius Arêas, 31, percebe que a relação do público com o exercício físico é cada vez mais fiel, e o interesse pelos treinos de movimentos integrados trouxe nova perspectiva ao fitness.  

“O mercado está em ascensão e, com total certeza, crescerá ainda mais, já que, hoje, todos entendemos que muitas dores e patologias podem ser prevenidas através do exercício físico e que a prática regular do mesmo traz inúmeros benefícios”, explica.

Tendo o treinamento físico como ponto de partida, os profissionais de educação física e especialistas em treinamento desportivo, fisiologia do exercício e psicomotricidade Victor e Vinicius, que atuam na área há mais de 10 anos, criaram a Treino2 a partir da necessidade que sentiram de levar aos clientes e amigos um novo conceito de treinamento, aliado à ciência e performance. 

“Hoje, os clientes estão buscando mais esse treinamento personalizado, pois entendem a importância do trabalho individualizado na conquista de um bom resultado”, completa Vinicius, que acredita que além do treino personalizado, a chegada das academias com o sistema “low cost” tornou a procura pela prática regular de exercícios físicos por parte da classe média, média-alta e alta mais contundente.

O Studio Velocity utiliza a bike como instrumento para promover experiências e sensações

Foto: Divulgação

No ramo de academias tradicionais, a Smart Fit, que pertence ao Grupo Bio Ritmo, apostou nesse sistema de baixo custo e trouxe planos low cost que deram tão certo que a rede possui atualmente mais de 280 unidades espalhadas por todo o País. Entre as estratégias adotadas pela empresa está o plano black, uma alternativa para quem costuma viajar e não quer deixar de ir à academia, já que oferece acesso ilimitado à área de musculação e aeróbico de quase todas as unidades da rede no País.  

“Em tempos de crise, as pessoas buscam obter a melhor relação entre custo e benefício com os produtos e serviços que consomem, com qualidade e conveniência. Além de democratizar o fitness de alto padrão, a Smart quer oferecer o máximo de praticidade aos clientes”, explica Edgard Corona, fundador do grupo.

Para acompanhar este boom dos exercícios físicos e da busca por hábitos mais saudáveis, empresas do ramo alimentício também se reinventaram. Há dois meses, as empresárias Priscilla Martins da Costa, 32, e Laís Porto Andrade, 29, abriram a primeira lanchonete fit de São Gonçalo, a Tempere Mix, com um cardápio leve, prático e saboroso.

“Sentíamos falta de um lugar onde pudéssemos comer algo saudável, então sabíamos que tínhamos mercado. De acordo com um estudo da agência de pesquisa Euromonitor, o mercado de alimentação ligado à saúde e ao bem-estar cresceu 98% no País só de 2009 a 2014. Acreditamos que o mercado ganhou força e chegou para ficar”, revela Priscilla.

Situado próximo a boxes de crossfit e academias e em meio a estabelecimentos que oferecem frituras, as empresárias já percebem a fidelização dos clientes e investem para que possam atendê-los de forma adequada e inspirá-los a comer melhor.

Rebeca Carletto dos Santos e Marcel Flôres dos Santos, gerentes da fábrica-loja da Fit Cookies em Niterói

Foto: Lucas Benevides

“Acreditamos que a má alimentação tem muito a ver com hábitos e, por isso, queremos que nossos clientes experimentem novos caminhos. Oferecemos tapioca, omelete, salada, sanduíche natural, quibe vegetariano, açaí, sucos, entre outras opções saudáveis. Nosso próximo passo é aumentar o serviço delivery e ter o acompanhamento de um profissional de nutrição para ajudar a desenvolver ainda mais o nosso cardápio”, completa Laís.

Enquanto Priscilla e Laís provam que ter hábitos alimentares saudáveis pode ser uma experiência saborosa em São Gonçalo, em Niterói, Marcel Flôres dos Santos, 30, e Rebeca Carletto dos Santos, 27, ainda acrescentam que não é preciso abrir mão dos doces. Gerentes da fábrica-loja da Fit Cookies na cidade, empresa que nasceu em Curitiba, oferecem produtos sem açúcar refinado, sem glúten, sem lactose, sem soja, sem adição de conservantes e ricos em proteína, fibras e gorduras boas. 

“Nossos produtos se encaixam desde o café da manhã à ceia e, além de serem funcionais, a produção é toda artesanal. Três deles são os queridinhos dos clientes: a pasta de amendoim tradicional com pedacinhos de amendoim, a ganache proteica e o brigadeiro fit”, confessa Marcel.

O casal de empresários percebeu que o mercado é uma tendência e que o acesso à informação na internet aproximou muito as pessoas dos profissionais da área de saúde.

“Agora, elas se preocupam mais com o que colocam no prato e compreendem a importância das atividades físicas. O nosso objetivo é contribuir com essa mudança comportamental, principalmente de quem ainda não acredita que é possível ser saudável sem sofrer”, explica.

No Brasil, estima-se que mais de 100 milhões de pessoas acessem a internet, que, em conjunto com as redes sociais, vem promovendo mudanças comportamentais significantes e ainda pouco estudadas. Os influenciadores digitais – criadores de conteúdo digital capazes de incentivar um grande número de usuários através de seus perfis na internet – têm tido um papel significante no avanço do mercado fitness.

Alessandra Monteiro é adepta dos aplicativos e manuais para exercícios enquanto viaja

Foto: Divulgação

“Os influenciadores vêm sendo um fator preponderante em diversas áreas, inclusive na fitness. Eles passam para os seus seguidores de forma visual e clara o bem-estar de se fazer um exercício físico. É algo que vem sendo mostrado em diversos meios de comunicação e que se fortaleceu na internet”, explica Vinicius Arêas.

Nesse contexto, Gustavo Almeida, da Fitness Brasil, atenta que a questão dos influenciadores digitais é delicada e precisa ser bem avaliada pelo público.

“Isso porque só quem pode prescrever exercício físico são os profissionais registrados na área. Se conseguirmos ter esse filtro de que o influenciador está compartilhando o seu estilo de vida e que não devemos imitá-lo, mas usá-lo como inspiração para buscar novos hábitos, acaba sendo positivo, porque gera interesse”, pondera.

Só no Instagram, o lifestyle da blogueira, modelo e marketing Alessandra Monteiro, 32, conhecida como Alê, é acompanhado por mais de 100 mil seguidores. A mineira percebe a responsabilidade do seu papel de influenciadora para os seus seguidores.

“Sempre tento mostrar que compartilho o que acredito – o que não quer dizer que será o mais indicado para todo o mundo, afinal, cada um é de um jeito. Estimulo as pessoas a fazerem exercícios e serem felizes com o próprio corpo. Tenho um retorno muito bom. Diariamente, recebo mensagens de seguidores agradecendo as dicas”, confessa a blogueira, que, durante suas viagens, não abre mão de se exercitar. Para isso, encontrou algumas alternativas, entre elas um aplicativo fitness.

“Uso o gympass, app que permite que você frequente academias participantes em qualquer lugar do mundo. Também uso o Body Boss Method, manual com um programa semanal para se exercitar em qualquer lugar. Na falta de uma academia, em meia horinha consigo fazer tudo”, revela.

A lista de aplicativos fitness é extensa: vai de aplicativos de corrida, de treino personalizado, a yoga. No entanto, a personal trainer Bruna Carreiro alerta para os perigos de abdicar da consulta com um profissional da área. 

“Os aplicativos de exercícios são uma ajuda e tanto, mas os usuários não podem dispensar a consulta com um profissional de educação física. Fazer exercícios não é tão simples como parece, entra aí o conhecimento da fisiologia do exercício para a execução correta, que diminui o risco de lesões. A modernidade ajuda, mas também pode atrapalhar. É preciso saber definir isso”, finaliza Bruna.

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