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Mão na Massa

O chef Romeu Valadares apresenta as novidades do mundo gastronômico e dicas sobre pratos saborosos e cheios de detalhes curiosos

Planeta Mouraz

 

Fotos: Colaboração / Romeu Valadares

Mouraz é uma freguesia portuguesa do concelho de Tondela. Uma aldeia, com cerca de mil habitantes, numa área que não chega a 10km2. Parece pouco, não é verdade? Depende da perspectiva, aliás, como gosto dessa palavra! Vista pelo prisma do vinho Mouraz, se agiganta, fica na região do Dão, também chamada de “a Borgonha portuguesa”, uma alusão provocada pelos vinhos que definem tanto uma como a outra denominação. Separadas por fronteiras étnicas, devem ter, escondido entre um e outro laço de DNA, o parentesco reconhecido na elegância dos vinhos que produzem.

Já falamos sobre a vinícola “Casa de Mouraz”, na altura, publicava a dor que os incêndios de 2017 traziam, 4 vezes mais intensos que o normal, os piores dos últimos 10 anos e que haviam atingido severamente as terras e as instalações dessa empresa do casal Antonio Ribeiro e Sara Dionísio. Dia 5 desse mês, Antonio esteve em Niterói, em um encontro de casas, Casa de Mouraz e Casa Fragni, bistrô das irmãs Fragni em Pendotiba. Sinto falta de casas assim, tocadas por famílias, com mãos e coração na massa! Hoje o domingo é dessa gente e o produto do seu trabalho! Quem quiser experimentar receitas antigas como esse tortellini e acompanhá-lo com um vinho do Antonio tem que visitar Pendotiba; mais que negócios eles fazem história.

A Casa de Mouraz com seu pioneirismo na produção natural e biodinâmica oferece um projeto, um modo de vida engarrafado. Dinamizar o solo, cuidar das plantas e dos animais buscando interferir o mínimo possível na sua interação não é rezar para a lua nem usar livros de bruxaria como a grande agroindústria tenta banalizar. Infelizmente o desejo das sociedades de buscar uma alimentação mais saudável também despertou a sanha de aproveitadores, inventores de selos e títulos para embalar em lã de cordeiro lobos sorrateiros, disfarçados nas prateleiras, prontos para devorar a boa-fé. Meu testemunho é da prática da mesa, sinto-me muito bem ao beber os vinhos da Casa de Mouraz que gosto de ter em casa. No jantar de Pendotiba revirei os olhos com a combinação do tortelline das irmãs Giulia e Eliza Fragni com o vinho branco da uva Encruzado da Casa de Mouraz, a massa era recheada com abóbora e amaretti (biscoito de amêndoas), pincelada com manteiga e assada no forno com um toque de parmesão, uma festa dos sentidos: crocante, cremosa, salgada, doce e o que mais? Mais nada, você pensa, até que o Encruzado da Casa de Mouraz, uma uva que gosta do tempo em garrafa, entra na brincadeira, com sutileza amendoada, estrutura e a mineralidade que os cientistas dizem não existir no vinho, mas minha boca teima em sentir. Há muita discussão em torno das práticas biodinâmicas, falem, defendam, ataquem, enquanto isso eu vejo a vida mais feliz toda vez que tenho um vinho desses na taça e lembro que moro perto da Casa Fragni!

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