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Com a cara e com a coragem

Isabelle Nogueira em sua viagem a Itália

Foto: Arquivo Pessoal

Pesquisa divulgada recentemente por um site de viagens mostrou que uma em cada quatro mulheres viajou sozinha este ano e tem planos de repetir a experiência de duas a quatro vezes em 2016. As mulheres brasileiras integram um time encabeçado pelas australianas e britânicas, que em sua maioria esmagadora – 81% – planejam viajar sozinhas ainda em 2015. Aqui no Brasil, o principal motivo apontado é a liberdade de escolher o que querem fazer e a falta de tempo e/ou recursos financeiros de amigos e familiares. Em Niterói, algumas mulheres também se arriscam nessa experiência apontada como uma boa maneira de ganhar mais independência, mais confiança e aprender mais sobre outras culturas. 

A empresária Patrícia Brazil tem 26 anos e aos 18 fez sua primeira viagem para fora do Brasil, experimentando esse “gostinho” da liberdade em Sevilla, na Espanha. Hoje, diretora de uma empresa que se propõe a conectar marcas com “influenciadores digitais”, ela é uma mulher do mundo. A trabalho vai sempre para São Paulo, já esteve em Barcelona e Las Vegas. Na maioria das vezes vai sozinha e encontra conhecidos no local.

“Eu viajo muito a trabalho, amo conhecer novos lugares. Já pude ir para Bali fazer um projeto, que foi um lugar que eu amei porque é muito diferente culturalmente e em termos de ‘vibe’. É impressionante: se eu não tenho um amigo no local, algum amigo meu tem um conhecido na região”, conta Patrícia.

A analista da importação Tamy Castro, 36, também teve sua primeira experiência de viagem sem companhia fora do país. Aos 21 anos, botou na cabeça que queria morar nos Estados Unidos, e foi, sem saber falar inglês e sem nada garantido no outro continente. Por lá, acabou dando seu jeito e fez trabalhos como funcionária em uma pizzaria e como babá. 

“Eu fui sem saber nada, nunca tinha andado de avião e não sabia nem o que era check-in. Acabou que consegui emprego na pizzaria e foi dando certo. Lá, aprendi muito porque as pessoas têm o costume de viajar sozinhas. Então eu comecei a fazer algumas viagens pequenas, como pegar o carro e sair para esquiar, dar uma volta em Los Angeles, comecei a perder o medo”, recorda Tamy.

Quando voltou para o Brasil, enquanto fazia faculdade, conseguiu “juntar uma graninha” e decidiu fazer uma viagem pela América do Sul. Os amigos e familiares não quiseram fazer companhia. Mais uma vez, decidiu se aventurar sozinha e ficou um mês “mochilando” pelo Peru, Bolívia e Chile. E foi emendando viagens. Atualmente, o único continente que ainda falta conhecer é a Oceania. 

“Viajar sozinha proporciona um milhão de amigos. Todas essas pessoas que conheci em todos esses lugares já vieram para o Rio me visitar. E estar sozinha te proporciona um autoconhecimento incrível, porque você aprende quem você é, se as pessoas realmente gostam de você em um lugar onde você só tem uma mochila nas costas, com amor e conversa para dar”, diz. 

Tamy Castro é praticamente uma “recordista” neste tipo de viagem. “Viajar sozinha proporciona um milhão de amigos. Todas essas pessoas que conheci em todos esses lugares já vieram para o Rio me visitar”

Foto: Douglas Macedo

A recepcionista bilíngue Isabel Amaral, 25, foi sozinha para Londres, no Reino Unido, fazer um mês de intercâmbio. Ela conta que, depois de ser convidada por uma amiga que estava por lá, passou por toda a fase de preparos em alguns dias e embarcou para a capital britânica. Nesse período, ela lembra que se perdia bastante nas ruas e metrôs e acabava indo parar em outro canto da cidade. A timidez foi outro desafio. 

“Acompanhada, você sempre tem alguém para te tirar da sua zona de conforto. Você acaba aproveitando outras partes da viagem porque tem sempre uma companhia. Sozinha, eu que sou mais tímida, ficava com dificuldade de sair à noite, por exemplo. Não é fácil em uma cidade nova ir a bares sem conhecer ninguém. Acho que a sensação de liberdade foi o meu maior aprendizado. Me senti livre não por ser férias, mas livre para conhecer tudo que me interessava e que descobria de novo”, conta.

As aventuras da estudante de jornalismo Juliana Prado, 26, começaram em uma viagem ao Chile, onde permaneceu por três meses. Juliana se junta a Tamy e a várias outras mulheres no motivo da viagem: não foi uma escolha, mas uma alternativa devido à falta de companhia. A estudante explica que um dos requisitos para viajar é saber falar a língua do país para qual pretende viajar. Além do Chile, ela já esteve na Austrália, onde estudou e ficou por um ano e seis meses. Turquia, Abudabi e Estambul foram outros lugares por onde passou. Segundo Juliana, durante a viagem é fácil encontrar pessoas que fazem o mesmo. 

“Às vezes, a língua se torna uma barreira. Para mim foi fundamental saber o espanhol, porque pude me comunicar e ultrapassar essa barreira. O legal é que na viagem eu descobri que outras pessoas também viajam sozinhas, e é uma galera que faz isso há um bom tempo. Viajar sozinha é descobrir seus limites, saber se virar, reciclar, economizar, carregar o necessário. Aprendi várias lições viajando sozinha”, revela a estudante. 

A hospedagem em albergues ensinou Juliana a procurar melhores preços de diárias. Além dos acontecimentos positivos, a estudante conta também os problemas enfrentados em uma de suas viagens e um deles foi o preconceito sofrido na Turquia, exatamente por estar sozinha lá.  Para Nathália Marques, do Blog M pelo Mundo, o preconceito é algo recorrente.

“Vivemos em um mundo patriarcal que prioriza o homem em detrimento da mulher nas relações sociais. Viajar é algo que desde o início foi mais realizado por homens devido às tarefas de comércio e negócios. A mulher foi excluída dessas questões sendo relegada à tarefa do lar. Apesar dos diversos avanços na questão de gênero, ainda não é algo muito frequente uma mulher viajar sozinha. Mas isso não deve ser motivo para impedir as mulheres de viajarem sem companhia”, defende.

 

Isabel Amaral lembra que no início da estadia em Londres costumava se perder pelas ruas e no metrô, e diz que vencer a timidez foi seu grande desafio nas viagens

Foto: Arquivo pessoal

Isabelle Nogueira, 27, trabalha com marketing e também é uma mulher que viaja sozinha. A primeira viagem foi para o Novo México, e a partir daí não parou mais. Sempre em busca do desconhecido, afirma que evolui e aprende com as pessoas em cada viagem que faz.  

“É um momento muito importante na sua vida. Demonstra que você conseguiu desconstruir amarras sociais como a de que a mulher não pode viajar sem a presença de um homem. De forma geral, viajar sozinha é um momento de autoconhecimento”, explica

Isabelle já viajou com amigos e familiares, mas acabou preferindo não ficar refém das companhias e passou a não contar com elas no seu cronograma. Assim como Juliana, ela prefere viajar no melhor estilo mochilão. “Há mais liberdade para fazer o próprio roteiro. A viagem por pacote fica mais restrita aos pontos turísticos, o que não permite uma pausa no caminho para assimilar a beleza e respirar o ar do lugar como gosto de fazer”, confessa.

Uma lei que Isabelle põe em prática em toda viagem é não aceitar nada de ninguém. Estar alerta a tudo que acontece à sua volta, saber em quais lugares ir e os horários apropriados são ensinamentos que ela segue à risca. Ainda mais depois de ter sido ameaçada de morte por um taxista em uma de suas viagens para o exterior.

“Posso conhecer uma pessoa e me relacionar bem com ela, mas nunca vou colocar em minha mala um presente dessa pessoa. Viajar sozinha para a mulher significa independência e liberdade. É mostrar para ela mesma a capacidade de realizar  suas aventuras sem depender de ninguém”, enfatiza Isabelle, lembrando das suas viagens a Cancún, Buenos Aires e Chile.

(Por: Wladimir Lênin)
 

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