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Como veio ao mundo

O naturismo vem ganhando cada vez mais adeptos no Brasil

Elisangela Santiago, presidente da Associação Naturista da Praia do Abricó, no Rio de Janeiro, explica que todos podem ser naturistas, desde que respeitem o próximo

Foto: Arquivo Pessoal

Diz a lenda que, em um passado bem recente, embarcações que atravessavam a Baía de Guanabara com destino à Ilha de Paquetá enfrentavam como obstáculo os apelos sedutores de uma sereia que habitava uma pequena ilhota, em São Gonçalo, bem no meio do trajeto. Atraídos pela beldade que desfilava completamente nua pelas areias, os tripulantes se amontoavam de um lado só dos barcos, fazendo com que ele virasse. Todos acabavam morrendo seduzidos pela beleza e liberdade de um corpo nu.

Como dizem por aí: todo boato tem um fundo de verdade, e a origem dessa história pode encontrar fundamento quando, em 1950, uma mulher muito à frente de seu tempo começou a colocar em prática ideias de vegetarianismo e nudismo que, hoje, fazem parte da corrente do naturismo. Através de uma concessão da Marinha, ela obteve licença para viver na ilha Tapuama de Dentro, que foi por ela rebatizada de “Ilha do Sol”, local onde fundou o primeiro clube naturista do Brasil. O local, mesmo não sendo turístico, recebeu até estrelas do cinema como Lana Turner, Ava Gardner, Tyrone Powel e Brigitte Bardot. 

Pioneira da prática do naturismo no Brasil, Dora Vivacqua nasceu em 1917 no Espírito Santo. Durante uma temporada em uma fazenda do irmão, começou a fazer aparições vestida apenas com folhas de parreira e cobras enroladas no corpo. Aos 30 anos, tornou-se atração de circo e mudou o nome para Luz del Fuego. Mais tarde, em um pequeno teatro em Copacabana, encenou o espetáculo de sucesso “Mulher de Todo Mundo”. O dia do seu nascimento, 21 de fevereiro, é considerado o Dia do Naturismo no Brasil. Em um momento em que a sensação térmica ultrapassa os 60 graus, tirar a roupa parece fazer mais sentido do que nunca. Para quem considera a ideia, vale lembrar que todo o mundo pode ser naturista, como explica Elisangela Santiago, presidente da Associação Naturista da Praia do Abricó, única que permite o naturismo no Rio de Janeiro.

“Todos são bem-vindos, desde que respeitem o próximo”, ressalta Elisangela, lembrando que só não dá para prever a reação dos outros quando se assume a prática. “A maioria acha uma atitude corajosa e até mesmo engraçada”, explica.

A palavra naturismo vem do francês naturisme, uma doutrina filosófica que se baseia na harmonia com a natureza juntamente à prática do nudismo em grupo, que tem a intenção de promover o autorrespeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o meio ambiente. Atraído pela filosofia naturista, o professor Pedro Ribeiro, de 58 anos, viajou para outros países como forma de conhecer e ter contato com a prática. 

“Caíram em minhas mãos algumas revistas naturistas inglesas, que eram vendidas nas bancas do Rio como pornografia na década de 70. A visão das fotos e algumas coisas que entendi dos textos me deixaram fascinado. Comecei a juntar dinheiro para ir a algum lugar da Europa. Realizei este sonho em 1986, quando fui à Holanda e descobri a praia de Zandvoort. Voltei encantado e querendo muito que houvesse uma praia assim por aqui, onde homens e mulheres, crianças e velhos convivessem nus e em perfeita harmonia”, lembra Ribeiro.

À frente do grupo que lutou pela implementação do naturismo na Praia do Abricó, que aconteceu em 1994, Pedro lembra que o processo teve uma série de problemas com a justiça que só foi resolvida em 2014, com uma lei municipal que ratificou a prática do naturismo na área.

“A razão principal pela procura da prática é sempre querer conhecer a sensação de liberdade e de aceitação. Particularmente, já tive e ainda tenho que aturar algumas piadinhas, sendo até chamado de professor peladão. Por outro lado, também sempre recebi muito apoio”, revela o professor militante.

Difundido a partir do período de entreguerras, em vários países já foram oficializadas algumas praias para a prática do naturismo, além de parques, piscinas e outros locais de acesso condicionados à nudez social. Com 500 mil praticantes contabilizados, a prática no Brasil acontece nas praias de Tambaba, no município do Conde (PB); Massarandupió, em Entre Rios (BA); Barra Seca, em Linhares (ES); Abricó (RJ); Pinho, no Balneário Camboriú (SC, a primeira do Brasil); Galheta, em Florianópolis (SC); Pedras Altas, em Palhoça (SC); e Olho de Boi, em Búzios (RJ).

“Desde os 28 anos, tinha interesse pelo nudismo inspirado pela leitura de ‘História do pudor’, de J. Bologne, quando percebi o caráter mutável das noções de vergonha. A reflexão e a informação me forneceram conhecimento de causa do que, na verdade, já era uma convicção minha: o despropósito de classificar o falo, a vagina e as mamas como indecentes”, ressalta o professor de Direito Arthur Virmond de Lacerda Neto, de 50 anos.

Na definição da Federação Internacional de Naturismo, o nudismo é “uma forma de vida, com nudez social, para promover o respeito pelo próprio indivíduo, pela natureza e pelos outros”. Assim, para Lacerda, é inteiramente falso associar naturismo com erotismo.

“A nudez social não se destina a excitar a libido. O naturismo evita o sentimento de vergonha do corpo, uma vez que nos sentimos à vontade e, por isso, também é um comportamento muito saudável psicologicamente. Hoje, moro com três pessoas dividindo meu apartamento, que, desde a admissão, já foram informadas sobre meu nudismo. Tudo acontece de forma muito tranquila”, conclui Virmond. 

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