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Coragem e fé

Sair de seu país, assumir uma profissão de risco, enfrentar uma deficiência ou praticar esportes radicais, não importa. Vencer o medo é o que nos move na vida

O senegalês Ousmane Mabaye deixou tudo para trás na África e veio tentar a vida no Brasil

Foto: Douglas Macedo

Uma execução, atuação ou desempenho que vem do coração. Essa é a origem da palavra “coragem”, do latim coraticum. O termo é composto por “cor”, que significa “coração”, e o sufixo “aticum”, utilizado para indicar uma ação referente ao radical anterior. Ter coragem é para os fortes, já que ela exige riscos o tempo todo. São poucas as pessoas que saem da sua zona de conforto para aplicar sua energia em algo audacioso, como o senegalês Ousmane Mabaye, de 35 anos, que saiu de seu país para tentar a vida no Brasil há cinco anos completados ontem.

“Minha família e amigos não acreditaram que eu faria isso e, quando cheguei, acharam que eu não aguentaria muito tempo. Sou de família de classe média, lá me formei em Marketing e queria novas oportunidades, ainda mais porque não concordava com o novo presidente eleito na época. Achei que, por conta da miscigenação no Brasil, aqui seria o melhor lugar para um recomeço, pois eu não me sentiria diferente. Às vezes, aparece uma dificuldade, mas eu bato de frente. Na vida, nada é fácil. Tem que ser corajoso, mas também tem que ter planejamento para chegar no lugar onde se quer chegar, além de sempre agradecer a Deus para cada dia ser melhor”, considera Ousmane.

Nesses cinco anos em Niterói, um dos dissabores que o senegalês sorridente e simpático sofreu foi com uma situação de racismo partindo de um dos funcionários de uma empresa onde trabalhou. Mas, até nessa situação, ele foi corajoso ao denunciar o fato na delegacia. Logo que chegou, Ousmane não falava nada em português (a colonização no Senegal foi francesa, embora tenha 13 idiomas, cujo principal é o wolof) e começou a trabalhar como camelô. Em seguida, conseguiu um emprego como servente de pedreiro e, no mesmo lugar, foi promovido a carpinteiro. O próximo passo foi aceitar uma vaga como ajustador mecânico, fazendo manutenção em elevadores. Foi prestando serviços nessa empresa que conheceu Jossana, sua atual esposa, com quem está há três anos. 

“Essa família me ofereceu todo apoio emocional do qual eu precisava. Me sinto acolhido por todos os filhos e os irmãos da Jossana. Participo, inclusive, das decisões que precisam ser tomadas como membro importante da família. Jossana é uma companheira para todas as horas. Decidimos no fim do ano passado abrir uma loja no Centro de Niterói, onde vendemos tecidos, roupas, calçados e itens africanos. Demos à loja o nome da minha mãe, Dior, para homenageá-la, e ela ficou muito feliz”, celebra o microempresário.

Desde que chegou no Brasil, Ousmane ainda não voltou ao Senegal para visitar a família. Com os aplicativos de comunicação on-line ele consegue compartilhar um pouco da vida. Mas, o contato dele não ficou restrito a isso. Ele indicou outros 14 senegaleses para trabalhar na construtora onde havia sido funcionário, além de ter ajudado quando eles chegaram explicando o serviço na língua nativa. 

“Sinto orgulho do meu povo, somos trabalhadores como os brasileiros. Sem dedicação nada adianta. Tem que segurar com as duas mãos a oportunidade e ter disposição para fazer bem qualquer função que se comprometa”, opina. 

O empresário Gustavo Jacobe pratica há seis anos o B.A.S.E. Jump, que lhe exige constantes provas de coragem

Foto: Divulgação

Sonhar com uma profissão de risco iminente já é, por si só, um ato de coragem. Quando se abre mão de uma graduação em Engenharia Ambiental na UFF para se dedicar às provas de concurso para o Corpo de Bombeiros, a coragem se multiplica ainda mais. Há 9 anos, foi isso que fez Diogo (30), o capitão Matias. Nascido em Niterói, em uma família humilde que não tinha sequer um militar, ele decidiu e tentou a prova para oficial da Academia de Bombeiros três vezes, até conseguir com louvor: passou em sexto lugar. O risco da profissão fica nítido até no smartphone do capitão, com a tela toda quebrada.

“Eu ia para a universidade e não me via satisfeito, tamanha era minha vontade de ser bombeiro. Embora a gente lide com risco o tempo todo, trabalhamos para trazer o máximo de condições de segurança possível. Às vezes, gera ansiedade, mas ela é irrelevante para a fluidez do serviço. A gente não deixa de ter medo, todavia, temos consciência de que foi feito o que tinha que ser feito tecnicamente para minimizar os riscos. Embora tenhamos pressa, a gente tem que ser metódico e agir com calma para avaliar e reavaliar a cena. A partir daí, é ter fé em Deus”, acredita Matias. 

Entre tantos e diversos trabalhos, o capitão destaca o salvamento de uma vítima de soterramento em janeiro deste ano, em Icaraí, que, tirando os resgates feitos na tragédia do Morro do Bumba em 2010, foi sua atuação mais marcante. Um imóvel foi demolido para a construção de um prédio na Rua Tavares de Macedo. Para isso, cavaram um buraco de 2 metros de profundidade e 3x3m de diâmetro. Em determinado momento, cedeu do imóvel vizinho um bloco de concreto, pesando cerca de duas toneladas, e caiu sobre Luciano Mendonça Tavares, de 18 anos, enquanto cavava o buraco para o alicerce da edificação. O operário foi afundado na terra e só ficou com um pedaço de uma das mãos para fora (onde foi colocado o soro). Amigos conseguiram tirar a terra do seu rosto no rumo da boca para ele respirar. O fato foi noticiado em O FLUMINENSE. Na ocasião, cerca de 30 agentes do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil Municipal participaram do resgate, que durou cinco horas e meia.

“O tenente Leandro Hipólito foi o comandante nesta data e eu respondia como subcomandante do quartel, tanto operacional como administrativo. Chegamos o mais rápido possível e avaliamos in loco o que era necessário para esse evento de estrutura colapsada (soterramento). O que salvou o Luciano foi o fato de a terra ser fofa, fazendo com que ele não fosse esmagado (não teve fratura alguma), e de o sol estar a pino. Foi difícil para nós trabalharmos com tanto calor, mas, se estivesse chovendo, o solo iria ceder. Ele teve complicações de saúde e foi um milagre ter sobrevivido. Trabalhamos em revezamento de 10 em 10 minutos e cada membro da equipe de resgate teve sua importância, desde quem estava na comunicação até quem usava a britadeira para cortar o concreto. Até me arrepio para falar: tirar uma vida é muito fácil, mas salvar o Luciano daquela condição foi inacreditável”, observa Matias, que confessa ser bombeiro em tempo integral: “A gente acaba sendo referência sobre esses assuntos, de salvamento a corte de árvore (um dos mais perigosos), além de criança engasgada, acidente de trânsito, gás vazando na casa do vizinho e salvamento de animais”.

Capitão Matias e parte da equipe que atuou no resgate do operário soterrado em janeiro deste ano

Foto: Douglas Macedo

Diferente de Ousmane Mabaye e do capitão Matias, a professora aposentada Madelene Sarlos, de 74 anos, não escolheu ser corajosa. Ela agiu de acordo com o que a situação exigia dela. Na verdade, a professora foi além. Madelene era viúva e mãe de três filhos quando, aos 56 anos, enquanto dava aula, ficou cega. Foi obrigada a mudar toda a sua rotina e se readaptar à nova condição, mas fez isso da melhor forma possível.

“Isso aconteceu em 2000, eu tratava de glaucoma há 10 anos, mas a cegueira me pegou de surpresa. O meu oftalmologista disse que não voltaria a enxergar. A partir daí, comecei a viver uma vida completamente diferente, na escuridão. Eu era muito ativa e precisei de um tempo para me adaptar, mas nunca esmoreci. Deus me deu muita força e minha fé fortalece meu lado espiritual. Nunca derramei uma lágrima, nem reclamei de algo por não enxergar. Faço tudo dentro da minha casa: cozinho, lavo roupa e tenho um pensamento altamente positivo”, declara Madelene, que lembra o quanto o apoio da sua família é importante. Para sair na rua, ela conta com a ajuda de uma acompanhante contratada. 

Quando Madelene começou a se sentir sozinha, sentir falta de realizar alguma atividade, a aposentada ficou sabendo dos serviços gratuitos da Associação Fluminense de Amparo aos Cegos (Afac), que fica no Ponto Cem Réis, em Santana, Niterói. Motivada pelos filhos, começou a frequentar o espaço. Lá, é conhecida como “a queridinha do braille”, mas a aluna aplicada também participa de outras aulas: informática e terapia ocupacional.

“Na Afac, encontrei uma família maravilhosa, pessoas com o mesmo problema que eu, inclusive minha professora de braille, Ana Clara, têm a mesma deficiência que a minha e se tornaram grandes amigas. Meu professor de informática, Benedito, perdeu a visão com 21 anos, hoje está com 70. Não pagamos nem o papel que usamos, e lá é tudo tão organizado. Vem gente até de Rezende para fazer as aulas. É um trabalho de dedicação que mudou minha vida. Deu uma elevada na minha autoestima, encontrei pessoas com o mesmo problema que eu. Você chega à conclusão de que o seu problema não é nada diante de tantos outros. Quantas pessoas reclamam da vida e são amarguradas à toa?”, indaga Madelene, lembrando, bem-humorada, que, para pegar o elevador para o andar onde mora ou para o térreo, mede com um palmo da mão: “A gente cria estratégias para resolver as pequenas adversidades”. 

Para o sociólogo e professor da Facha Gilson Caroni, as lutas nunca são solitárias. Existe o componente individual, mas há também o componente social, o entorno, pessoas para ajudar. Ele não acredita em superação sem apoio, sem uma estrutura externa. 

“A coragem existe, claro, porque não adianta ter o entorno e não ter coragem para agir, para se superar. Isso depende de um contexto que permita a pessoa se ressignificar e se reinserir. Às vezes, um estímulo negativo impulsiona. Mas isso nem sempre é regra. Existem pessoas que, com um estímulo negativo, vão lá para baixo. Mas há sempre um contexto integrador por trás. Não há sequer uma história de superação e sucesso onde você possa atribuir única e exclusivamente a um indivíduo. Esse é um discurso meritocrático, e é falso”, analisa. 

Embora todos os entrevistados tenham relatado que coragem e fé andam juntas, o sociólogo e professor acha difícil a fé individual mover alguém. De acordo com Gilson, a própria fé na vida tem que ter um substrato, se não religioso, de uma cultura que não acredita em derrota definitiva.  

Cega abruptamente há 18 anos, a aposentada Madelene Sarlos encontrou na Associação Fluminense de Amparo ao Cego (Afac) uma forma de desenvolver suas capacidades. A professora de braille Ana Clara, também cega, acabou se tornando uma grande amiga

Foto: Evelen Gouvêa

“No caso de uma pessoa extremamente religiosa, o que ajudou não foi a fé pela fé, ela provavelmente participa de algum encontro em alguma instituição religiosa. A origem etimológica da palavra religião é ‘religare’, que vem do latim religio, ou seja, ‘culto’, ‘cerimônia’. Vamos imaginar que a pessoa está deprimida, passou por um momento muito triste de perda ou doença, aí ela entra em uma instituição onde é chamada de irmã ou irmão e todos têm o mesmo pai, dali pode vir o amparo para o enfrentamento da dificuldade. Seja como for, a pessoa se reinventa porque ela possui o entorno”, reafirma Gilson. 

Existe outro exemplo de coragem que tem a ver com a prática de esportes de risco, como é o caso do empresário Gustavo Jacobe (39), biólogo por formação, que pratica B.A.S.E. Jump – em tradução livre, as letras da sigla significam, respectivamente, “prédio”, “antena”, “vão livre” ou “pontes” e “terra” ou “montanha”. Para se tornar um base jump você precisa saltar desses quatro lugares. Gustavo começou a praticar em 2012.

“A sensação é inexplicável, dá um sentido diferente à sua vida e ao que você chama de viver. Acho que a coragem está ligada diretamente à capacidade técnica e emocional de lidar com determinada situação. Isso é o que me dá vontade de fazer e ter coragem para saltar. Já passei por vários momentos arriscados, mas controlar as emoções antes e durante o salto ajuda bastante a decidir corretamente o que fazer numa situação adversa, onde tudo acontece tão rápido, e até mesmo perceber se você está apto a realizar um salto de um determinado local ou não”, observa. 

Para Gustavo, um dos atrativos do esporte é a possibilidade de estar em lugares bem incomuns, como um prédio abandonado, uma antena no meio de uma estrada deserta, montanhas inexploradas ou até mesmo no meio de uma metrópole. 

“Conheci o esporte através de amigos. Ele me ajudou a entender que a vida foi feita para ser vivida e o medo pode ser um grande obstáculo para que isso aconteça. Aqui no Brasil, já saltei de alguns estados como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Espírito Santo. No exterior, estive na Europa, na região dos Alpes (Itália, França e Suíça), entre outros. Cada lugar tem algo de inesquecível”, releva o empresário niteroiense. 

Para a psicóloga Sônia Ignácio Rosa, o que instiga uma pessoa não é o mesmo motivo que mobiliza outra. São situações diferenciadas para cada ser humano, que vai agir de acordo com o momento que está atravessando.

“Nós podemos estar diante de uma situação que tenhamos que enfrentar e, naquele momento, querer ir com tudo e, para outra pessoa, pode ser desnecessário certos esforços e enfrentamentos, por estar numa zona de conforto. Todos nós somos capazes, mas as pessoas não reconhecem suas potencialidades. Só fazemos uso dessa coragem, só nos engajamos motivados por alguma situação. Muitos, quando realizam algo grandioso, dizem: ‘Eu não esperava ser capaz disso’. O que falta às pessoas é motivação. Coragem todos nós temos, uns usam de forma inteligente, outros não”, analisa Sônia. 

Segundo a psicóloga, a gente, quando toma uma decisão, na maioria das vezes, não vai no escuro, já avaliou a situação. O cenário depende da postura de cada um e da sua força emocional para fazer certas escolhas. Sônia ainda é enfática ao dizer que ao redor dessas pessoas corajosas sempre tem alguém as puxando para trás e, se não estiverem firmes no seu propósito, é fácil se deixar levar pela fragilidade, pelo medo ou pelo momento do outro. 

“O fato das pessoas desmerecerem o sonho das outras, frustrar as outras, diz muito sobre elas. Se é o meu sonho, então devo acreditar nele para errar ou para acertar. Temos que analisar os riscos, mas ser autoconfiantes. Temos o direito de avaliar as oportunidades no entorno dos nossos sonhos e decidir sobre nosso futuro. Você pode até não chegar no lugar onde programou, mas vai chegar em algum lugar. É só não perder a esperança, a fé, acreditar e ter coragem para investir e não desistir se tiver um contratempo qualquer. Essa força que a gente já traz conosco, vamos aprimorando e reconhecendo com o tempo”, enfatiza.

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