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Cozinha terapia

Se desligar dos problemas e focar no presente é uma das conquistas de quem cozinha para relaxar

À esquerda, a chef Zela Brum, para quem preparar banquetes sofisticados para clientes com alto grau de exigência está longe de ser um motivo de estresse, muito pelo contrário. À direita, Mônica Souza, idealizadora do site “Cozinha Consciente”

Foto: Lucas Benevides

Cada um tempera a própria vida da forma que mais lhe agrada. Aos poucos, descobrimos os sabores e ingredientes que dão sentido à nossa existência, assim como o ponto certo para o que desejamos a nós mesmos. Independente de preferências, uma coisa é certa: agradar ao paladar é algo que parece fazer bem para todo mundo. E se uma boa garfada melhora o humor, para algumas pessoas, estar na cozinha é uma verdadeira terapia, que interfere profundamente em seu estilo de vida. Uma prática vital na manutenção do equilíbrio necessário para o dia a dia. 

Quando cozinhamos, nos concentramos no que estamos fazendo e focamos no agora. Os pensamentos voltados para nossa ação nos ajuda a desligar dos problemas, relaxar, afirma a gastrônoma e idealizadora do site “Cozinha Consciente”, Mônica Souza.

“Fala-se muito de mindfulness, que é a atenção plena no presente. A capacidade de concentrar na ação e perceber todas as nuances do que estamos fazendo. O que é similar ao ato de cozinhar, cheio de informações sensoriais e ações minuciosas e que, por isso, pode ser uma atividade terapêutica. Envolve prestar atenção nas cores, texturas, cheiros, sabores, sons, enfim, desligar do mundo exterior”, explica Souza.
Além de uma espécie de meditação, Mônica vai além, lembrando que as dinâmicas das ações na cozinha também podem interferir em nossa postura diante da vida. Segundo ela, cozinhar é libertador, porque as decisões do que vai entrar são totalmente de quem cozinha, dando ao protagonista da ação controle de todas as etapas do processo, desde a escolha dos ingredientes até o tempo de cozimento.

“A pessoa também precisa de organização. Planejar o que vai cozinhar, pensar no que já tem em casa, criar um cardápio e ver o que falta. Pedir ajuda de quem já sabe. Cozinhar, na minha concepção, é um ato de autocuidado, assim como o ato de se exercitar, escovar os dentes e tomar banho. As crianças deveriam ser incentivadas desde cedo a aprenderem a cuidar da própria comida e a serem independentes no preparo, dentro da possibilidade de cada idade. Assim, evitaríamos a dependência da indústria alimentícia e seus produtos”, defende.

Preparar banquetes sofisticados para clientes com alto grau de exigência poderia ser motivo de sobra para causar estresse em muita gente. Mas não para a chef Zela Brum, de 53 anos. Para ela, a cozinha é um templo, capaz de transformar até os dias mais difíceis em puro prazer de viver.

“Cozinhar para mim é terapia, mesmo. Trabalho com uma coisa que me dá prazer, me acalma, me equilibra. Para entrar na cozinha, tenho que estar inspirada, calma, sentindo amor. Se eu não estiver assim, não consigo. Por isso, para mim, é melhor do que qualquer remédio ou qualquer bebida, é o que me dá leveza. Muitas vezes, preparo uma receita a partir de uma lembrança ou aroma, ou seja, também é uma atividade que mexe com meu lado criativo”, confessa Zela.

Formada em Nutrição e com passagem por grandes empresas, Brum lembra que, desde que trabalhou em um restaurante, se sentiu atraída pela cozinha, mais propriamente pelo fogão. A paixão foi tanta que, aos 40, largou tudo e foi para a Itália recomeçar, aprender um novo ofício do zero, “lavando panela”, como ela mesma gosta de enfatizar.
“Depois de muita bronca e algumas frustrações, um chefe me disse que um cliente queria um jantar particular e foi quando nasceu o meu modelo de negócio. Uma cozinha autoral e artesanal. Foi a ‘chutada de balde’ mais louca da minha vida, mas foi quando me encontrei. Hoje, consigo viver do que amo. É uma atividade que começa por dentro da gente. É terapia, teatro, dança, improviso e criação”, afirma.

Cozinhar pode ser uma prática terapêutica para qualquer pessoa, inclusive para aquelas que possuem algum comprometimento intelectual, sensorial ou motor, como explica a terapeuta ocupacional Neila Nunes, da Associação Fluminense de Amparo aos Cegos (Afac).

“Algumas pessoas podem atuar com autonomia, outras em parte do processo, seja lavando, descascando ou picando, todo mundo pode exercer suas potencialidades cozinhando. É possível até mesmo desenvolver um trabalho em equipe ou uma linha de produção, fazendo com que a pessoa desenvolva responsabilidade. Eu mesma já coordenei uma atividade dessas”, lembra a terapeuta. 

Autoestima e amor próprio são os evocados toda vez que a coordenadora de marketing Tainá Martins, 35, entra na cozinha para preparar uma receita. Como mora sozinha, muitas vezes prepara jantares especiais para si mesma, mas sempre na companhia de um bom filme ou série para a degustação.

“A razão principal para eu pôr a mão na massa é porque gosto muito de comer. Há muitos anos, desde que fui morar sozinha pela primeira vez, comecei a praticar mais a culinária, mas foi um programa de televisão com enfoque na praticidade que realmente me ensinou a cozinhar bem. Entretanto, nunca faço minhas refeições de qualquer jeito. Sempre coloco uma música tranquila, abro um vinho verde, branco ou uma cerveja artesanal e dedico muito amor ao preparo”, revela Tainá.

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