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De braços abertos

A cidade sorriso é vista por pessoas que nasceram em diversos lugares como ideal para construir a vida

Niterói é conhecida por receber pessoas de países e estados diferentes, que aqui criam raízes para viver e tocar seus projetos de vida

Foto: Divulgação

Mesmo ocupando uma área de 131.80 quilômetros quadrados, a cidade de Niterói ainda é considerada aconchegante e acolhedora. Com pontos turísticos incríveis e paisagem de encher os olhos, o município, graficamente dividido em 52 bairros, recebe novos moradores a cada ano, não somente niteroienses ou pessoas nascidas por diversos cantos do Estado do Rio de Janeiro, como também de outros estados e até outros países. 

Henriqueta Henriques veio de Portugal para a cidade e hoje é dona de um famoso restaurante

Foto: Lucas Benevides

Mesmo guardando no coração o seu local de origem e cultura, os recém-chegados e os já adaptados na cidade relatam a facilidade que é se misturar aos niteroienses, que estão sempre dispostos a ajudar e com braços abertos para conhecer novas histórias e sotaques.

Há quem tenha vindo pra cá por opção e planejamento, mas também quem “caiu de paraquedas” no município e aqui viveu e venceu. É o caso de dona Henriqueta Henriques, de 79 anos, que veio para Niterói após uma decepção amorosa em Portugal e aqui se estabeleceu há quase 50 anos. Atualmente, ela é proprietária do restaurante português Gruta de Santo Antônio, na Ponta da Areia, onde prepara, junto de seus dois filhos, deliciosos quitutes, entre eles, o mais famoso: o delicioso bolinho de bacalhau, praticamente um patrimônio gastronômico da cidade. 

“Eu não conhecia Niterói, mas aqui viviam meus irmãos. Meu namoro acabou, fiquei decepcionada e aqui tive um refúgio maravilhoso. Nesta terra, sinto que sou amada e tenho muitos amigos. Peço sempre a Deus para que me dê mais e mais anos de vida para curtir essa cidade”, deseja a portuguesa de origem e niteroiense de coração.

Apesar de estar à frente de um restaurante, Henriqueta nem sempre pertenceu ao mundo da gastronomia. Estudou, desde muito nova, para ser estilista. Porém, seu marido brasileiro, Agostinho, com quem viveu uma nova paixão por oito anos, era cozinheiro e possuía um restaurante. Ele abriu em 1977 a Gruta, mas, infelizmente, veio a falecer. Foi quando Henriqueta teve que escolher como seguiria o seu futuro.

“Quando meus filhos Alexandre e Marcelo eram pequenos, viviam no restaurante e eu ia sempre para ajudar e vigiá-los. Agostinho faleceu dois anos após a casa abrir e eu tinha duas opções: continuar costurando para fora ou começar a cozinhar. Conversei com meus irmãos e amigos mais íntimos e eles me deram forças para continuar com o restaurante. Assim, mergulhei nesse mundo e não me arrependo”, destaca.

Entre seus programas favoritos na cidade estão caminhar pela orla da Praia de Icaraí, que é próxima à rua onde mora, e apreciar a vista na altura da Pedra de Itapuca.

“Sento ali, ouço aquele barulhinho do mar, olho para o Rio de Janeiro. De lá consigo ver a linda Fortaleza de Santa Cruz e até o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Me orgulho muito de poder morar nessa cidade”, conclui.

Apesar de amar Niterói, Henriqueta não deixa de visitar seu país e resgatar a saudade que fica. Segundo ela, vai a Portugal todos os anos e, lá, fica por um mês de férias, curtindo a terra, os familiares e amigos, a culinária e também uma propriedade deixada em herança pelos seus pais, que ela faz questão de manter enquanto viver. 

Nos anos 90, Niterói também abrigou um carismático casal vindo de Cuba: a professora universitária Concepción Pedrosa e o arquiteto Roberto Segre, que tinha origem italiana e faleceu após um lamentável acidente no ano de 2013.  Eles se conheceram na Universidade de Havana – Roberto era professor e ela aluna – porém, naquele momento, desenvolveram apenas uma amizade. Anos depois, após formada, os dois estreitaram a relação e assim se tornaram um casal.  

“Em 1993, a vida em Cuba estava muito difícil, muitas mudanças ocorreram e estávamos desesperados com o nosso futuro. Buscávamos um contrato de trabalho que durasse mais de três anos para nos mudarmos e levarmos nossos filhos e aqui foi o único país que nos abriu as portas no ano seguinte. Sempre quis morar no Brasil e era fã das músicas daqui desde menina”, admite Conchita, como prefere ser chamada.

Concepción Pedrosa veio com o marido de Cuba à procura de trabalho, e por aqui fixou-se definitivamente

Foto: Lucas Benevides

A professora ainda relata que a ideia, assim que fizeram as malas, era morar em Santa Tereza, por ser próximo ao Cristo Redentor, mas João Sampaio, prefeito de Niterói na época e amigo de Roberto, insistiu para que ficassem por aqui.

“Foi o melhor a ser feito, nos apaixonamos por Niterói, pelo estilo de vida e pela paisagem. Moramos por dois anos em Charitas e, depois, em Icaraí, onde tivemos um apartamento por cerca de 20 anos. Após o falecimento do Roberto, me desfiz do imóvel, pelas lembranças que me trazia, e, atualmente, moro no Centro, onde tenho ótimos amigos e vizinhança. Penso em ficar aqui, onde me estabeleci e me adaptei”, pontua.

Entre a programação favorita do casal estava visitar e fotografar o Museu de Arte Contemporânea (MAC), na Boa Viagem, que ainda estava em construção quando eles chegaram de mudança para cá. Conchita destaca que atividades relacionadas com arte estavam sempre presentes em suas vidas.

“Em Cuba, trabalhava com diversos projetos culturais e aqui também fiz o mesmo. Estive em projetos no Campo de São Bento, no Museu do Ingá, e fui curadora de arte do Centro Cultural Paschoal Carlos Magno. Perdi as contas de quantas vezes fomos ao MAC, as diversas fotografias guardadas retratam nosso amor por aquele local”, emociona-se.

Quando o assunto é comida, o casal sempre marcava presença no Caneco Gelado do Mário, um dos lugares favoritos para confraternizações.

“Sempre levávamos os amigos que vinham visitar Niterói pra lá. Além disso, também desenvolvemos um amor especial por toda a orla de São Francisco e praias da Região Oceânica”, conta.

Entre as saudades da sua terra, Concepción revela que sente falta do ritmo da salsa, muito ouvida em Cuba. Entre as comidas, ela aponta o prato Tamal, parecido com uma pamonha salgada.  

“A área de Cuba e região teve uma imigração africana, por isso possui uma alimentação similar à brasileira. A feijoada existe em Cuba, por exemplo, apesar de lá não contar com a farofa como no Brasil, onde ela é praticamente obrigatória. Também comemos abacate com sal e salada com alho e limão. Os brasileiros costumam ‘torcer o nariz’”, brinca Conchita, ressaltando que não voltou mais a Cuba, mas Roberto sim. 

Jackeline Oliveira deixou para trás a pequena Irituia, no Pará, em busca do sonho de fazer faculdade na UFF

Foto: Arquivo pessoal

“Não voltaria para Cuba, mesmo depois do ocorrido com o meu marido. Já estou há muito tempo aqui, amo meus amigos brasileiros. Além disso, Javier, meu filho, ama esse país, veio pra cá quando tinha 8 anos e se acostumou, se criou aqui. Meus pais já faleceram e minha irmã mora nos Estados Unidos, então nem tenho o porquê”, conclui.

Roberto Segre era arquiteto, historiador de arquitetura e crítico, além de professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Teve mais de 35 livros publicados. Em algumas de suas obras, é possível ver sua dedicatória à esposa: “A Conchita, alma jovem da minha vida”. 

Niterói também acolheu a estudante Jackeline Oliveira, de 23 anos, que veio da pequena cidade de Irituia, no Pará, para o Rio com o objetivo de cursar Jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF). Após ser aprovada no vestibular, no ano de 2014, sua vida e rotina mudaram completamente. 

“Sempre quis estudar na UFF, mas cheguei a pensar que esse sonho não seria possível. Para ter melhores oportunidades de estudos, fui morar em Belém. Lá, trabalhei como babá e estudava à noite. Fiz o Enem e não fui aprovada no primeiro semestre, nesse período acabei me inscrevendo em uma faculdade particular e comecei o curso. No segundo semestre de 2014, veio a tão sonhada aprovação. Foi tudo muito rápido”, conta a estudante, que descobriu a aprovação em um domingo e, já na segunda-feira, estava em Niterói para fazer a matrícula. “Como minha família ainda morava no interior e eu estava na capital, só consegui me despedir da minha mãe. Tive que deixar tudo para trás por conta do meu sonho e não me arrependo”, revela Jackeline.

A jovem, que, na época tinha 19 anos, teve dificuldades em se adaptar. Segundo ela, um dos maiores problemas na mudança foi a dificuldade que tinha em pegar ônibus. 

“Pegar os coletivos era cruel, pois em Belém, os ônibus não são por números e, sim, por trajetos. Quando me deparei com números, pensei que nunca conseguiria decorar todos que precisava pegar. Mas, com o tempo, fui acostumando e, como a maioria dos meus amigos da UFF também veio de outros estados e convivia com os mesmos problemas e saudades que eu, acabamos nos tornando uma grande família, assim um ajudava o outro”, destaca.

Jackeline tem seu refúgio no momento em que a saudade da família aperta: a orla do Gragoatá. Segundo ela, sentar debaixo de uma das árvores e lembrar das pessoas que ama traz para o seu coração uma sensação de paz.

“Parece que o vento leva minhas tristezas para longe e traz a paz de volta. Aquele lugar é mágico, um dos meus lugares favoritos no mundo. Para diversão, uma das coisas que mais gosto em Niterói é ir na Cantareira e comer um delicioso pastel de 35 centímetros. É tão bom que todas as pessoas que frequentam a cidade deveriam conhecer”, revela. 

A diferença da culinária do Nordeste para o Sudeste, aliás, é um ponto que Jackeline destaca. Ela conta que os temperos, hortaliças e até as frutas são diferentes. 

Karen Regina veio da pacata Itatiba, em SP, e demorou para se adaptar ao ritmo de “cidade grande”

Foto: Lucas Benevides

“Lá, nós temos o hábito de comer feijão preto apenas na feijoada, e aqui as pessoas comem todos os dias. Foi difícil me acostumar. Esse choque cultural serviu para que eu percebesse o quanto vivemos em um país gigantesco, formado por diversas culturas. Nenhuma é melhor ou superior que a outra”, filosofa a estudante, que esteve de volta ao Pará em fevereiro deste ano, após dois anos e meio sem ver a família. “Foi muito bom poder voltar às raízes, tomar banho de rio, beber o açaí paraense e rever os amigos. Mas, apesar disso tudo, eu não via a hora de voltar, pois não consigo mais me acostumar em um lugar tão pacato quando Irituia é. Um lugar que gosto de ir para repor as energias, mas não para morar”, brinca.

A mudança de estado também mudou completamente a vida da estudante de Pedagogia Karen Regina, de 27 anos. Ela morava na cidade de Itatiba, no interior de São Paulo, e, durante um carnaval em Minas Gerais, conheceu seu atual marido, que morava em Niterói. Durante um ano, eles passavam temporadas um na casa do outro, até que o pedido de casamento mudou essa rotina. 

“A hora de decidir onde moraríamos foi bem consensual. Eu já gostava daqui e também não tinha uma vida formada lá, fazia faculdade, mas ainda não trabalhava na minha área. Ao contrário do meu marido, que já tinha sua vida estabilizada e seria mais difícil para abandonar. Me mudei para Niterói em novembro e estou gostando bastante da cidade”, admite. 

Karen conta que a sua cidade era bem pequena e sentiu muita diferença no começo, principalmente na movimentação das ruas.

“Como vim de uma cidade do interior, considero Niterói uma cidade grande. O ritmo daqui é outro, bem diferente de Itatiba, que é totalmente pacata. Lá, tinha familiares por perto, todo o mundo se conhecia, conversava, aqui não, acho os niteroienses mais reservados”, observa.

Grávida de quatro meses, a estudante conta os lugares da cidade que mais costuma frequentar com seu marido e novos amigos. Entre os preferidos estão o Museu de Arte Contemporânea (MAC), um dos primeiros espaços que conheceu no município, a Praia de Camboinhas e os shoppings.

“Fui no MAC diversas vezes, é linda a vista, e também amo as praias. Na minha cidade natal não tem shopping, eu conheci aqui e acostumamos a ir sempre. Agora transferi a minha faculdade pra cá e está dando tudo certo, ano que vem eu me formo e vou seguir minha vida profissional”, anima-se.

Apesar de estar se adaptando perfeitamente ao ritmo de Niterói, a jovem revela que, toda vez que visita a sua cidade, volta com mais saudade, tanto da família quanto do lugar. 
“Falo sempre que posso com meus familiares e amigos, por telefone ou internet, pra tentar amenizar essa saudade que fica”, conclui.

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