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De Niterói para Hollywood

Nascido na Vila Ipiranga, Jorge Brivilati é atualmente diretor de cena e sócio-proprietário de produtora paulistana

Agora com 29 anos, Jorge Brivilati, ex-morador da Vila Ipiranga, comunidade do Fonseca, é diretor de cena e sócio-proprietário de uma produtora paulistana

Foto: Divulgação

Nascido em Niterói e antigo morador da Vila Ipiranga – uma das comunidades mais perigosas da Zona Norte da cidade –, Jorge Brivilati (29) podia ser mais um nas estatísticas da violência urbana, mas, aos 19 anos, aceitou o convite para trabalhar como designer em uma grande empresa de publicidade de São Paulo. Hoje, é diretor de cena e sócio-proprietário da produtora paulistana La Casa de la Madre, especializada em storytelling (capacidade de contar histórias relevantes). Eleito um dos 10 diretores mais influentes do Brasil por veículos especializados, foi finalista do LA Shorts Film Festival com o filme “Reencontro”. Brivilati também é o diretor do filme “Movido a Respeito”, que ganhou um Grand Clio de Entretenimento, o primeiro concedido à América Latina. Recebeu, ainda, o Young Lions e já conquistou leões de ouro no festival de Cannes. Na entrevista, ele fala sobre sua infância, a relação com os pais, carreira, meritocracia, sorte e projetos futuros. 

Você saiu de Niterói em que ano, e por que resolveu tentar a vida em São Paulo?

Saí de Niterói em 2007, quando completei 19 anos. Naquela época, eu havia recebido uma proposta de uma das maiores agências de publicidade da América Latina, a AlmapBBDO, para trabalhar como designer. Não fazia ideia do tamanho e do impacto que isso representaria na minha vida. Pensei em negar o convite, por mero comodismo. Mas fui impelido a refletir sobre a importância desse convite, graças a um amigo, que me incentivou a ficar “pelo menos 6 meses” e depois voltar. Agora, em 2018, completam-se 11 anos.

Você tinha algum suporte na cidade para recomeçar?

Acho que o único suporte que eu tinha era um escorredor de pratos da casinha que aluguei junto com um amigo quando cheguei [risos]. Vim pra São Paulo sem conhecer nada da cidade, nem pessoas. Não tenho nenhum parente aqui, mas isso nunca me deu medo. Pelo contrário: saber que estava sozinho, por mim mesmo, me fazia querer desbravar a cidade, podendo ser quem eu quisesse.

Como era sua vida na Vila Ipiranga? 

Nasci na Vila Ipiranga e ali fiquei por um bom tempo, saí com uns 11 anos, rodei Niterói e São Gonçalo com minha mãe, que já estava separada do meu pai desde meus 3 anos, mas acabei retornando com 17 para morar com meu pai na Vila. Estou tentando achar um meio de resumir minha infância, mas é difícil, muita coisa aconteceu. Nunca passamos necessidade, sempre fui criado sob a ótica religiosa – minha mãe é Testemunha de Jeová, ao que, de certa forma, atribuo minha criação e a blindagem que tive todo esse tempo. Desde pequeno me sentia como um estranho no ninho, uma vez que, enquanto todos jogavam futebol na rua, eu passava pelo meio do “campo” de pasta enquanto todos gritavam “olha o pastorzinho”. Era massacrante, e eu mentia para mim mesmo que não estava morrendo de vergonha [risos]. Morar numa favela tem suas peculiaridades. Uma criança, um adolescente estão repletos de ofertas constantes que ludibriariam até pessoas mais velhas – poder ganhar dinheiro rápido, andar com um tênis caro que ninguém tem, obter “respeito” das pessoas, estar com os caras “mais descolados” que todas as meninas querem ficar por serem o estereótipo de homem desejado por algumas... Ufa! São muitas as tentações. Lembro de acordar tendo um amigo e no outro dia não, porque foi morto ou preso. Lembro de ir à escola desviando de corpos no beco. Tudo isso cria uma casca em você desde cedo, o que te faz perder o senso do absurdo e te faz crescer achando normal o que não é. Quando você se afasta, recobre o sentido de que algo de muito errado está acontecendo. Hoje, sou muito grato pela criação que meus pais me deram, mesmo que separados. 

Que pessoas te incentivaram?

Tive muito apoio dos meus pais. Minha mãe sempre investiu em mim: com menos de 10 anos, me colocou num curso de informática bem simples, ali na Vila Ipiranga. Meu pai, quando eu tinha 7 anos, gastou quase todo o dinheiro e me comprou um computador. Minha mãe, novamente como uma investidora de visão [risos], viu que eu estava apaixonado por Photoshop e bancou um curso pra mim, que, me lembro bem, era bem puxado. Credito muito coisa a todos os meus anteriores empregadores que confiaram no meu trabalho, me deram oportunidades excelentes de crescimento. Mesmo sendo demitido algumas vezes, encarava minhas demissões como uma catapulta.
Fale sobre seus estudos e formação.

Estudei o primeiro e segundo grau no Henrique Lage, onde me formei em Eletrônica. Mas antes mesmo de fazer vestibular, já estava trabalhando como Diretor de Arte na americanas.com no Rio e, logo na sequência, veio o convite para ir pra São Paulo. Com 19 anos, já em São Paulo, não via mais como fazer uma faculdade, pelo tempo corrido e pelo tanto que estava aprendendo. Tudo isso porque, aos 15, eu comecei a estudar design por conta própria e fazer diversos cursos livres de Photoshop, Illustrator, etc. Resultado: depois de 11 meses de curso, eu comecei a dar aula na instituição, o que me fez começar a ganhar meu próprio dinheiro aos 17 anos. Isso já me fazia questionar se eu realmente precisaria entrar em uma faculdade.

Você é diretor e foi responsável por campanhas de grandes marcas como LATAM, Nestlé, Nívea, Samsung... Também se prepara para lançar o primeiro longa da produtora, filmado na Índia. Fale um pouco sobre o longa e sobre seu trabalho publicitário.

Estamos montando o longa. Ele ficou um tempo de molho, amadurecendo, o que eu encaro hoje de forma positiva. Me sinto mais maduro como diretor, para contar o que realmente importa dessa história. Nossos planos são lançar o longa no circuito de festival em 2018 e, se tudo der certo, entrar no circuito de salas. Esse longa foi uma verdadeira faculdade pra mim e pro meu sócio, que foi o roteirista. Agora, enquanto escrevo, percebo o quanto essa aventura tem a ver com minha vida e sobre o que estamos falando aqui. Tudo começou com uma viagem à Índia, que eu faria sozinho. Não poderia deixar de aproveitar o paraíso para qualquer fotógrafo ou cineasta de voltar com excelentes imagens, mas, de maneira informal, pro portfólio. A coisa foi crescendo quando tive a ideia e me voltei para o Castilho: e se fizéssemos um documentário, e se rodássemos um longa, e se misturássemos ficção e documentário? Tínhamos experiência com publicidade, com curtas pequenos, mas, em momento algum, isso nos intimidou. Sempre pensamos grande e esse era o drive que sempre nos motivou: vamos botar as caras e fazer. Não tem por que dar errado – pelo contrário, vai dar muito certo. E lá estávamos nós, com uma equipe de oito pessoas, um roteiro criado em um mês, mas que estava em constante adaptação até a última cena. Juntamos nossa grana e bancamos todo o projeto com o objetivo de vendê-lo depois.

Fale sobre a produtora paulistana La Casa de la Madre. Com que tipo de projetos ela trabalha e para que meios produz?

Ano que vem a Casa completa seis anos. Quando saí da Young&Rubican, uma das gigantes agências de publicidade da america latina, convidei o Castilho para embarcar comigo numa jornada incerta, mas onde teríamos a oportunidade de fazer do nosso jeito, de conduzir segundo nossos valores. E hoje, vejo que estamos conseguindo. Apostamos num formato, na época, ainda muito pouco falado no Brasil, o storytelling. Estudamos, desenvolvemos técnicas e hoje sentimos um reconhecimento muito grande, pois quando se fala de storytelling no Brasil, somos referência de produtora. Criamos em 2017 um selo chamado La Madre Docs um selo de curtas documentais e convidamos documentaristas de todo o território nacional a participar, enviar roteiros, ideias e a participarem de pitches conosco. Estamos desenvolvendo séries de TV, clipes, como esse do Nego do Borel e Luan Santana, que eu acabei de escrever e dirigir (estreia dia 7/01), e curtas, e claro. O carro chefe ainda são comerciais de TV para grandes marcas.

Como você se sente fazendo parte da minoria da minoria que consegue ascender socialmente saindo de um lugar sem privilégios?

Me sinto grato e privilegiado. Mas credito muito também ao meu esforço e demorei para entender que a gente deve ter orgulho de si próprio, pelas nossas jornadas e escolhas. Mas, todo dia, acordo, olho para minha gatinha (a Polaroide), olho para minha casa, para a vida que eu conquistei, para os amigos que tenho e penso: gratidão por tudo isso. 

Fala-se da meritocracia. Você acredita nela? Pergunto, porque foi divulgada recentemente pelo IBGE a pesquisa “Síntese dos Indicadores Sociais”, que diz que brasileiros com origem no topo da pirâmide social têm quase 14 vezes mais chance de continuarem nesse estrato do que pessoas nascidas na base ascenderem para essa posição.

Que tenso esses dados. Mas que bom para quem tem essa oportunidade de já começar a soltar pipa do 14º andar. Eu, como a maioria dos brasileiros, tive que, além de aprender a fazer minha pipa, dar um jeito de comprar linha, esperar o vento chegar e perder a pipa várias vezes para aprender a “torar”. Eu acredito, sim, na meritocracia e prego isso constantemente. Hoje, vejo e ouço muitos jovens e adultos focarem nos objetivos finais, focarem no dinheiro, nas viagens, na vida mansa, mas não vejo muito se falar sobre “como”, sobre o “caminho” ou ainda sobre o que estão fazendo para chegar lá. Qual estratégia você está adotando? O que você está estudando? A estratégia que mais sentia das pessoas na época em que morava na Vila era a estratégia da reclamação e da fé. Ter fé é fundamental, mas uma pessoa solteira que tem fé em um dia encontrar um namorado(a) que bata à sua porta com o convite para serem felizes juntos é utópico. Então a pergunta é: o que você está fazendo por você hoje? 

Você acredita em sorte?

Eu acredito em oportunidade. Acredito em você criar sua sorte ou sua oportunidade. Como disse acima, a fé é imprescindível, mas sem ação, ela é morta.

Você dedica parte de seus projetos a repassar os conhecimentos adquiridos ao longo de sua carreira profissional. Como você faz isso?

Hoje, me sinto muito feliz e isso aconteceu há pouco tempo, quando entrei pela primeira vez na ESPM para dar uma palestra e depois um workshop e depois outra e outra, e vários convites foram aparecendo. Aquilo ali foi um momento muito especial, incluindo lágrimas, onde eu pude agradecer silenciosamente pelo que estava acontecendo: um menino favelado, que não fez faculdade, estava ali falando com outros jovens (a maioria da tal pirâmide). Sinto, hoje, uma necessidade muito grande em falar com pessoas e compartilhar minha experiência e conhecimento. Quando quis estudar cinema, dei de cara com uma barreira muito grande: a do idioma. Pouco se tinha de material bom para estudar sobre cinema, de maneira prática (hoje temos muito material no youtube). Eu tive que aprender inglês, para realmente dar um salto no aprendizado. Então, como muitas pessoas não têm essa oportunidade, como a que eu tive de ir estudar fora, eu to aqui, para ajudá-las. E não surgiu ainda uma oportunidade para ir a Niterói falar de tudo isso ou fazer um workshop sobre cinema – se algum leitor quiser me convidar, aqui estou. Outro passo importante que estamos dando é a criação de cursos onlines na área de storytelling e direção, que entram no ar agora em 2018. Assim, conseguimos abranger todo o território nacional de forma acessível.

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