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Detox digital

Aproveite o recesso de fim de ano e proponha se desconectar dos excessos tecnológicos

Evelyn Bonorino aconselha ficar pelo menos três dias por ano completamente desconectada. Os resultados podem ser compensadores

Foto: Lucas Benevides

Desintoxicar é livrar o organismo de substâncias nocivas ingeridas. Um termo que também tem sido usado em relação ao nosso estilo de vida virtual, uma vez que, como consequência de um mundo cada vez mais conectado, para muita gente tem sido preciso adotar o “detox digital” como forma de se livrar dos efeitos nocivos, como estresse e ansiedade, causados pelos excessos decorrentes da tecnologia em tempo integral que vivemos hoje. 

Do tipo que vive online, a consultora de moda Evelyn Bonorino recorda que nunca desligava o celular até que, em um fim de semana, em um passeio com os amigos, viveu uma experiência quase forçada de ficar à parte da vida on-line, mas que acabou se revelando desintoxicante.

“Não desligo o celular. No máximo, tiro o volume. Tenho uma relação intensa, e tensa, com a tecnologia por conta do meu trabalho. Meu penúltimo detox digital, digamos assim, foi em agosto de 2011, quando passei uma semana em um evento de rock nos Estados Unidos, e o último foi em julho desse ano. Fui para Rio Bonito de Lumiar com amigos. Lá não tinha nenhum sinal de qualquer operadora. Foi estranho, fiquei agoniada.

Nos dois primeiros dias, pegava no celular toda hora”, confessa a consultora, que admite que, ao fim da experiência, sentia mais alívio que angústia. “Aos poucos, as conversas foram se intensificando e, às vezes, determinado assunto começava no café da manhã e só terminava no jantar, sem que a gente percebesse que o dia já estava acabando. Voltei desintoxicada. Se você estiver com amigos, as conversas ficam literalmente mais emocionais, e isso é maravilhoso. Aconselho que todos que se sentirem intoxicados façam por pelo menos três dias por ano”, aconselha Evelyn.

A modernidade conectada pode trazer consigo doenças relacionadas ao excesso do uso dessas tecnologias, como explica a mestre em psicologia Andrea Ladislau.

“Podemos citar o transtorno de dependência da internet, quando a pessoa não para de acessar sem nenhuma necessidade lógica e pode estar associado a uma depressão. Ansiedade, transtorno do déficit de atenção e o transtorno obsessivo compulsivo caracterizado principalmente pelo isolamento e abandono das atividades. E ainda, nomofobia, que é a angustia de ficar sem acesso ao celular e a síndrome do toque fantasma, quando a pessoa ouve os toques do celular ou sente ele vibrar, sem que isso tenha efetivamente acontecido”, destaca Ladislau.

Autor de “Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável”, Pedro Burgos defende o autocontrole

Fotos: Divulgação

Períodos desconectados, segundo Ladislau, podem ajudar a reconquistar o equilíbrio, uma vez que a pessoa retorna a atenção para si mesmo, para os que estão ao lado e para todo ambiente ao seu redor.

“Dessa forma, ela reencontra a estabilidade perdida no excesso de informação que provocou tanta ansiedade e cobrança a si mesmo. Uma das coisas que mais aconselho é que retirem o recebimento de e-mails dos celulares, porque isso faz com que a pessoa não tenha mais hora para começar e nem terminar o trabalho. Vale lembrar que não é só com tecnologia que isso ocorre, mas com qualquer coisa em excesso. O equilíbrio e a moderação são importantes para tudo”, ressalta a psicanalista.

Pela nossa própria natureza, é quase impossível se concentrar apenas no que é “relevante” quando estamos online, e talvez isso seja até não-desejável, afirma o jornalista Pedro Burgos, autor do livro “Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável”.  

É importante que a ideia de um “consumo mais consciente de internet” não seja confundida com uma patrulha. Mas, segundo o escritor, o principal erro dos que vivem sufocados pelo mundo digital é justamente não prestar atenção no “custo” de prestar atenção em todas as coisas gratuitas que temos à disposição. Esquecendo que nosso tempo e atenção são finitos e precisamos dar mais valor a isso.

“Na maior parte do nosso tempo conectado, estamos no modo piloto automático — pulando de aba em aba no navegador, de grupo em grupo no Whatsapp. Para fugir disso, é preciso um esforço consciente de parar e refletir sobre a intenção e as consequências das nossas ações online. Isso leva a ações concretas”, ensina Pedro.

O uso compulsivo das tecnologias conectadas não é privilégio de qualquer grupo. De acordo com o jornalista, há jovens, idosos, gente que comprou o primeiro smartphone este ano ou que programa há décadas que tem problemas na relação com as telas. Ou seja, tem mais a ver com como as pessoas controlam a ansiedade.

“Ainda vamos usar essas tecnologias de maneira ‘errada’ por muitos anos – tanto individualmente, gastando tempo demais em bobagens, como em sociedade, dando espaço para notícias falsas, por exemplo. Mas sou otimista no longo prazo. Estamos passando por mudanças importantes em como as pessoas trabalham, se relacionam ou se organizam politicamente. Dominar as tecnologias no centro dessas revoluções é uma questão de sobrevivência”, conclui Burgos. 

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