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Dinheiro virtual

Descubra o que são as criptomoedas e porque estão fazendo a cabeça de investidores por todo o mundo

Quando a criptomoeda ainda estava “engatinhando”, Eduardo Madeira se deparou com uma proposta e resolveu não arriscar. Hoje, se arrepende diante da hipervalorização do bitcoin

Foto: Evelen Gouvêa

Para os curiosos, uma novidade; para os investidores, uma oportunidade; para os estudiosos, uma incógnita. Em meio às crises econômicas consecutivas, há quem duvide da credibilidade do modelo econômico tradicional e acredite que as criptomoedas são o prenúncio de um mercado mais “seguro” e descentralizado. Apesar de serem virtuais, apresentam um potencial tão concreto que suas movimentações tem alimentado os portais de notícias diariamente. Casos como o do clube inglês de futebol Arsenal e o brasileiro Bragantino, que fecharam patrocínio com empresas de criptomoedas, e o do time turco Harunustaspor, que se tornou o primeiro clube do mundo a usar as moedas digitais na contratação de um jogador, têm mostrado que a modalidade, discretamente, vem conquistando seu espaço nos mais variados nichos. 

Mas, afinal de contas, o que são as criptomoedas? O que agrega no seu elevado valor de mercado? O professor de Empreendedorismo e Inovação da PUC-Rio, Luis Felipe Carvalho, explica que, como o nome já prevê, as criptomoedas são moedas baseadas em criptografia. Mas esta simples definição é apenas uma introdução para seu complexo mecanismo.

“As técnicas de criptografia permitem que você assine uma unidade de moeda e evite que ela seja copiada e repassada mais de uma vez. Imagine um arquivo de música no formato mp3. Você recebe esse arquivo e pode passar para várias pessoas o número de vezes que quiser. Com as criptomoedas é diferente graças à criptografia, que cria uma espécie de assinatura digital em cada unidade daquela moeda, de forma que você fica impossibilitado de duplicar ou gastar duas vezes”, esclarece o professor.

Além da criptografia, outro ponto positivo que está por trás das moedas digitais é o Blockchain, tecnologia responsável pelo registro em tempo real de todos os tipos de transações. Para ilustrar, o professor compara o Blockchain aos livros de registro usados nos cartórios, mas com algumas diferenças.

“Ao contrário dos cartórios, onde os livros de registro são controlados por um tabelião em que as pessoas confiam, com o Blockchain você tem uma rede de computadores do mundo inteiro com cópias dos registros. Através dessas cópias, você pode verificar o que é ou não verdadeiro. Isso é muito importante, porque, quando se tem uma pessoa centralizando informações, aparecem muitos riscos associados, como corrupção, censura e o maior de todos: ataques. Com a distribuição dos registros, esses riscos diminuem”, comenta.

Todos esses atributos conferem às criptomoedas uma aparente autossuficiência com relação à regulação e fiscalização, o que dificulta a sua regulamentação perante os órgãos oficiais. Em janeiro deste ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) proibiu a aquisição direta das moedas virtuais por fundos de investimento regulados e registrados no Brasil. 

Vinicius Maximiliano, advogado corporativo e especialista em Direito Eletrônico, esclarece que, quando a CVM, que é a reguladora do mercado de capitais, diz que uma determinada operação com ativos, especialmente digitais, não é permitida para fundos de investimentos regulamentados, o recado dela para o mercado é que existe um risco muito alto, sem quaisquer garantias, e com grandes chances de perdas financeiras.

“Quando ela proíbe fundos estruturados em moedas digitais, restringe a abertura do mercado e dificulta aberturas de capital e captação de investidores para esse tipo de investimento de risco. Contudo, é bom lembrar que essa proibição, em tese, não afeta pessoas físicas que investem em criptomoedas”, explica o especialista, que comenta que essa decisão impacta diretamente o mercado financeiro brasileiro, pois diversos fundos estavam questionando a CVM sobre a possibilidade de captar valores no mercado em moedas digitais. Com a proibição, isso se torna improvável.  

“Além do mais, as moedas tornam-se menos ‘interessantes’ para investidores qualificados, que ajudariam a dar mais credibilidade ao sistema. Da forma como está, continua sendo um jogo arriscado de investimento em ativos totalmente não regulamentados e sem qualquer respaldo oficial”, conclui. 

Arriscado ou não, atualmente o mercado de criptomoedas está valorizado e cada vez mais movimentado. Teve seu início logo após a crise econômica internacional de 2008, com a bitcoin, cuja identidade do criador é cercada por inúmeras especulações. O nome que circula na internet é o do japonês Satoshi Nakamoto, mas, como até hoje não foi divulgada nenhuma pista sobre sua verdadeira identidade, não se sabe se é uma pessoa, um grupo ou apenas um pseudônimo.

Seu “boom” aconteceu em 2017, quando a moeda valorizou mais de 900%, atingindo sua maior marca. O fato gerou arrependimento em quem teve a oportunidade e não investiu, como no caso de Eduardo Madeira, de 41 anos, que, anos antes - quando a criptomoeda ainda estava “engatinhando” -, se deparou com uma proposta e resolveu não arriscar.

“Trabalho em um portal de notícias com foco no turismo que presta serviços para empresas do mundo todo. Quando fechamos um publieditorial em 2010 por R$ 300, que seria pago via Paypal, a empresa espanhola fez o pagamento de R$ 200 e, depois de alguns dias, me ofereceu 80 bitcoins para liquidar o que faltava. Eu não levei muita fé e optei por receber os R$ 100 que faltavam. No meio do ano passado, eu estava limpando alguns e-mails da minha caixa de mensagens e, quando vi a conversa e fui ver a cotação da moeda virtual, bateu uma dor no coração - um arrependimento profundo. Mas vida que segue”, relata o empreendedor.

Junto com o bitcoin surgiram muitas outras criptomoedas, que, mesmo não tendo alcançado o alto valor acumulado pela pioneira, têm sido a aposta de muitos investidores. Ethereum, Ripple, Cardano, Litecoin são só algumas das mais visadas entre as mais de mil existentes no ciberespaço. Mesmo com tantas “concorrentes”, o bitcoin se mantém no topo da lista. Hoje, em um período de queda, um bitcoin chega a custar aproximadamente 8 mil dólares - o equivalente a R$ 25.500.

O CEO do BankRio, Samyr Castro, chama atenção para os dois principais riscos da criptomoeda: a oscilação e a segurança.

Foto: Divulgação

Para quem está interessado em investir nesse mercado e não sabe por onde começar, o fundador e CEO do grupo de planejamento financeiro BankRio, Samyr Castro, lista como um dos pontos mais importantes o conhecimento dos dois principais riscos da moeda e do ambiente em que ela circula: a oscilação e a segurança.

Como já citado, de janeiro a novembro de 2017, o bitcoin valorizou 900%, mas, logo em seguida, teve sua pior semana, despencando 30%. É a essa volatilidade que Samyr se refere. Como prevenção, o especialista sugere para investimento inicial um pequeno valor a fim de reconhecimento do mercado, pois, em caso de oscilação, representaria um dano irrisório. Mas é um risco que todos os envolvidos correm, principalmente por se tratar de uma novidade.

“Com relação à segurança, temos que, pelo menos, tomar o cuidado de escolher plataformas mais robustas e confiáveis, pois essas Exchanges (nome dado a empresas onde compramos os bitcoins ou outras moedas virtuais) são atacadas diariamente por invasores mal-intencionados. Hoje, as principais exchanges, no Brasil, são FoxBit, Mercado Bitcoin e Negocie Bitcoin”, aponta o CEO. 

Outro assunto inerente às criptomoedas e recorrente nas discussões é a mineração, que, nada mais é, do que o processo de gerar novas criptomoedas através de softwares específicos instalados em supercomputadores, que ficam ligados 24 horas, 7 dias na semana. Rocelo Lopes, CEO da CoinBR, esclarece o funcionamento.

“Após conectados à internet, esses supercomputadores se conectam a uma rede de outros supercomputadores, onde trabalham em conjunto para manter a segurança e validar as transações. Essa rede possibilita que o bitcoin não dependa de uma estrutura centralizada para a realização das transações”, explica. 

Esses mesmos supercomputadores que realizam a mineração são recompensados com criptomoedas, o que atrai os olhares de algumas pessoas. Entretanto, segundo Rocelo, a mineração em casa ou em um escritório comercial se tornou impraticável devido à constante evolução dos equipamentos e à necessidade de uma infraestrutura de “ponta”. 

Como um “choque” de realidade, Rocelo explica que, para minerar hoje em dia, é preciso: energia elétrica com preço inferior a R$ 0.25 kW/hora; baixas taxas de importação de produtos da China – para se minerar em larga escala (mais de 20 máquinas)–; internet estável e com baixa latência para servidores do mundo todo; firewall de segurança contra hackers; sistema de resfriamento das máquinas, entre outras exigências. 

Apesar de assustar, isso não significa que minerar não seja mais uma opção para o investidor que deseja entrar nesse negócio e gerar a sua própria moeda ao invés de comprar. Algumas empresas, como a própria CoinBr, criaram uma espécie de terceirização da mineração, em que o usuário compra uma máquina que fica em um datacenter da empresa e paga apenas pelo serviço de configuração, aluguel de espaço e energia elétrica consumida.

Vantagem para alguns, perigo para outros. Quando o assunto é criptomoedas, o que não faltam são opiniões. E o fato de ter se tornado alvo de constantes discussões na esfera pública é um sinal de que é um fenômeno que, de alguma forma, influencia direta ou indiretamente na sociedade. Para a professora Tamara Campos, doutora em Memória Social pela Unirio, o advento das criptomoedas é fruto do capitalismo globalizado que começamos a experimentar após a massificação da internet, nos anos 90 e início dos anos 2000.

“O mundo todo passa a se conectar por uma lógica de rede e há um crescimento do e-commerce, que ajuda a preparar um cenário mais propício para o uso das criptomoedas. Sempre estamos buscando novas formas de fazer as coisas e, obviamente, maneiras de economizar. Isso implica em novos modos de estar no mundo e no aperfeiçoamento constante das tecnologias. As criptomoedas representam essa vontade de fazer de uma maneira diferente, cortando intermediários das transações financeiras, operando a partir de uma moeda descentralizada, sem a presença de instituições financeiras e os encargos típicos”, pondera Tamara, que também comenta que a apropriação tecnológica dos usuários da geração atual tende a ser cada vez mais instintiva, pois toda a socialização dos indivíduos é permeada pelo contato com dispositivos tecnológicos, desde o berço, seja a partir de brinquedos e entretenimento nas mais distintas telas. 

“Os nativos digitais, que são os nascidos em um mundo no qual já existia internet, após meados da década de 90, por serem relativamente jovens e não terem experiências com transações financeiras, ainda não tiveram a possibilidade de compreender essa forma de pagamento na prática, embora tenham mais facilidade para entender a lógica das operações, já que, ao longo de suas vidas, sempre tiveram experiências sociais mediadas pelo computador”, conclui. 

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