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Rascunhos Nus

A coluna do publicitário, capricorniano e escritor Hugo Rodrigues fala sobre relacionamento, romance e comportamento. São os dilemas que tornam a vida mais interessante

Ela é tipo teatro

Ela é tipo teatro. Daqueles experimentais, confusos e alternativos. Pouca plateia, é claro, mas o que estão por aí – quatro ou cinco, às vezes oito – estão completamente apaixonados por ela. Por ela e suas poses. Por ela e seus cantos. Por ela e suas manifestações de qualquer coisa.

Ela é tipo teatro. Daqueles no Centro. Quase nunca em bairro caro. Nunca em shoppings. Sempre nas regiões vadias da cidade. Ruas escuras, cervejas barulhentas, tumultos e amores em cada esquina. Ela gosta. Ela ri. Ela acha que nasceu pra viver ali. Deita no chão. Olha a lua como quem olha para sua mãe e agradece – sei lá o motivo. “Precisa de motivo pra agradecer?”, ela pergunta já entrando em outro assunto deixando claro que aquilo não era uma pergunta.

Ela é tipo teatro. Faz de tudo. Comédia. Drama. Suspense. Terror. Policial. Musical. 

Bem, musicais não tão bons, não tão renomados, mas com rimas únicas e espontâneas sobre “a catuaba”, “a rabanada” e “emaconhada” (que temos dúvida sobre a existência desta última palavra, mas ela, bem, ela fala o que quiser mesmo). Na maioria das vezes, é comédia. Daquelas inteligentes – e até sem graça. Do jeito de começar a chamar o “garçom” e emendar num “você sabia que ‘garçom’ é ‘menino’ em francês?” e ri sozinha chamando “menino, menino, menino, uma cerva!”. Quase ninguém acha isso engraçado quando está sóbrio.

Quando ela chora, a peça vira ópera italiana ruim porque todos os seus choros são sempre acompanhados de gritarias. Poucas lágrimas e muito grito. Garganta mais vermelha do que as bochechas. Acho que ela mais grita do que chora. Acho. 

Ela é tipo teatro. Sequências de silêncios acompanham frases bonitas, pensadas e, talvez, até de outros autores, mas ela não diz. O roteiro é dela, claro. “Você acha mesmo que eu vou ficar dublando a vida de outra pessoa?”, ela pergunta e, você sabe, nem se importa pra minha resposta. 

Ela é tipo teatro. Luzes bonitas – da lua, do sol e do poste da esquina – envolvem o seu corpo quase sempre emcenas importantes onde geralmente a gente se esquece depois a tal importância daquilo, mas sabe que era de grande valia pelo que a gente sentiu ali e prosseguiu por mais algumas temporadas em cartaz.
Ela é tipo teatro. Merda. 

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