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Eles querem romance

Casais atualizam o romantismo à sua maneira e não abrem mão de uma pitada de sonho na relação

Ademir e Bianca são o exemplo de um casal que transborda romantismo. Os dois fazem questão de demonstrar o afeto sempre

Foto: Lucas Benevides

Era uma vez duas pessoas que, em determinado momento da vida, se encontraram e se apaixonaram perdidamente. Esse romance foi capaz de ir contra tudo e todos na busca de manter sempre acesa a chama do amor. Como quase toda história de romance, apesar das tragédias e conflitos presentes em suas vidas, eles ficaram juntos, se casaram e viveram felizes para sempre. 

Histórias assim, românticas e com finais felizes, são familiares em nossa sociedade, retratadas em contos de fadas, novelas, músicas, livros e filmes. O romantismo sempre gerou suspiros para quem o vê, ouve, lê ou vive; e atos de gentileza, como entregar flores, poemas, cartas, e até mesmo serenatas, são heranças dos enamorados de décadas passadas que reafirmavam seu amor através desses gestos carinhosos. Hoje em dia, muito se comenta que essas demonstrações de afeto estão praticamente extintas e que não há mais espaço para o romance no século 21. Mas, será que isso é realmente verdade? Com o Dia dos Namorados chegando, vamos provar que o amor continua sendo um dos sentimentos mais nobres e que muitos casais ainda cultivam o romantismo diário um pelo outro, que, definitivamente, não acabou: apenas se reconfigurou.

A idealização do “par perfeito” ou do “amor da vida”, embora tenha sido construída, é um desejo das pessoas de modo geral: encontrar alguém com quem se tenha afinidade. Segundo Danielle Brasiliense, professora de Comunicação da UFF, o problema de hoje em dia é justamente o medo desses encontros: de amar e sofrer depois com a perda desse amor.

“Essa ideia da relação como se fossem duas metades não tem nada de romântico, pelo contrário: tem um quê de dependência. O que o sociólogo alemão George Simmel diz em sua obra “Filosofia do Amor” é que as relações devem ser construídas da parte inteira à parte inteira e não em duas metades. O que significa que seus planos podem ser em conjunto, sem que haja dependência ou ciúmes por posse da outra parte”, explica.

Depois de estudarem na mesma escola durante anos e nunca terem se aproximado, o designer Theo Moraes, 29, e a publicitária Iara Araújo, 27, foram se reencontrar em uma festa que os dois haviam entrado de penetras. Por ironia do destino, aquela antiga boate em São Francisco foi marcada por ser o local em que os dois engatariam um romance que está prestes a completar 7 anos.

“O romantismo esteve sempre presente em nosso relacionamento. Nós dois adoramos abraços, beijos, apelidos... Para mim, os programas românticos são momentos em que podemos curtir um ao outro, conversar, rir juntos, falar da vida e fazer planos. A meu ver, desde um jantar mais elaborado a sós, em casa, até uma trilha podem ser românticos. Tomar vinho, sorvete em São Francisco e caminhar pela orla, viajar e fazer trilhas são algumas das coisas que fazemos com certa frequência. Gostamos desse contato com a natureza desde o início do namoro. O nosso relacionamento é baseado no companheirismo, e isso é o que eu mais gosto”, conta Iara.

Quando o assunto é romantismo à moda antiga, segundo Iara, seu parceiro se destaca. Inclusive, o pedido de noivado foi uma dessas surpresas, feito em um restaurante tailandês na cidade de Ibitipoca, em Minas Gerais, um cenário ideal para o casal aventureiro.

“Eu sou mais ligado nessa coisa de lembranças, fazer surpresas, agradar com coisas mais fofinhas ao invés de coisas triviais. Nosso relacionamento é muito gostoso. Procuramos agradar um ao outro, dar espaço quando é preciso e ser companheiro sempre! Brigas? Qualquer casal passa por isso, mas sempre superamos e buscamos melhorar para não falhar. Nosso amor é muito lindo, forte e feliz. Acho que esse é um dos motivos de nos amarmos tanto”, declara Théo.

Theo Morais e Iara Araújo apostam na rotina romântica, que inclui passeios e trilhas a dois. Na foto, o casal faz a trilha de Salkantay, no Peru

Foto: Arquivo pessoal

Dentre as coisas lindas que o amor é capaz de realizar, uma delas é a mágica da multiplicação. Há 4 meses, a publicitária Tessa Restier, 29, e o estudante Thadeu Restier, 33, descobriram que a união de 11 anos gerou fruto, já a caminho. O namoro, que começou na faculdade e virou casamento, tem como base, além do amor, a parceria mútua entre eles.

“Como começamos a namorar muito novos, passamos muitas coisas e amadurecemos juntos. O romantismo é essencial para o relacionamento porque a vida já é pesada demais com tantas responsabilidades e coisas pra lidar. Ter alguém ao lado que faz com que as coisas pareçam mais fáceis e mais leves é fundamental, afinal de contas, casamento é pra agregar. Muitas pessoas se preocupam com o fato de entrar na rotina, mas achamos que esse não é o maior problema. A grande questão é qual rotina o casal vai adotar, se está satisfatória para os dois. Com a gravidez, uma nova fase está chegando, com muitas descobertas. Cabe a nós saber nos adaptar e recriar a nossa rotina, considerando a vidinha de uma terceira pessoa que fará parte de tudo”, conta Tessa.

Simples gestos no dia a dia também são formas de expressar o amor cotidiano pelo parceiro. 

“Não entendo romantismo somente como entregar flores aos domingos e preparar jantares-surpresa. Acho que a maior forma de ser romântico é de sempre tentar fazer a vida do outro melhor, no dia a dia mesmo. O casamento não deixa de ser um contrato, em que duas partes se dispõem a compartilhar algo – a vida, no caso – por espontânea vontade. A partir dessa premissa, acreditamos que estamos dividindo a vida porque assim escolhemos, portanto, se os dois querem, vamos fazer dar certo. A parceria é o romantismo que mais praticamos”, conta Thadeu.

O romance nos dias atuais toma contornos bastante diferentes de como era entendido em séculos passados, onde predominavam relações patriarcais, machistas e heteronormativas, que colocavam a mulher como submissa de seu parceiro. Segundo o psicanalista, psicólogo e sexólogo Marcelo Bernstein, vivemos uma era de incentivo ao individualismo exacerbado, em que as relações se tornam líquidas, como aponta o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seus livros “Amor Líquido”, “Identidade Líquida”, entre outros.

“A prática do romantismo implica em paciência e a capacidade de olhar o outro não como um estranho ou um adversário, mas como alguém de quem precisamos para o estabelecimento de relações e que traz elementos de nós mesmos. Dentro da minha prática clínica, pode-se dizer que ainda existem casais que tentam, apesar de várias dificuldades e da pressão desta sociedade altamente individualista, exercitar o romantismo, com cuidado e gentileza para com o outro, que tentam surpreender e não deixar estagnar os relacionamentos. Talvez uma das queixas mais frequentes nos atendimentos de terapia de casal seja exatamente essa, de que o parceiro deixa simplesmente de olhar, de perceber o outro e as relações começam a ficar automáticas, mornas, os pequenos gestos e a atenção começam a ficar mais raros e ambos entram em um processo de afastamento”, relata Marcelo.

Ana Carolina Fonseca e Pedro Barbosa concorreram ao casamento no Rock in Rio

Foto: Lucas Benevides

Um relacionamento é composto por diversos elementos que o permitem ser tão único e especial. Mesmo com presentes ou simples mensagens carinhosas de bom dia, o que verdadeiramente importa é o amor e zelo. A produtora de moda Bianca Marques, 20, e o jornalista Ademir Vasconcellos, 22, são o exemplo de casal que transborda paixão e demonstra esse carinho de diversas formas. Eles, que estão juntos há dois anos e nove meses, inspiram-se algumas vezes no romantismo à moda antiga, como escrever cartas um para outro.

“A maior prova de amor que a Bianca fez é algo que, para muitos, pode até parecer pouca coisa, mas, para mim, não. Sempre fui louco para receber uma carta escrita por ela e, certo dia, fui presenteado com uma, que guardo comigo até hoje junto com inúmeras outras coisas especiais do nosso relacionamento”, conta Ademir, que também é surpreendido pelas festas que Bianca prepara como forma de comemorar os meses de namoro.

Por outro lado, Ademir também faz questão de preparar surpresas românticas para a noiva. Segundo Bianca, ele a conquistou quando entregou uma cartinha escrita à mão, se declarando, junto do seu chocolate preferido.

“O Ademir não é de fazer muitas surpresas, mas, dentre as três que ele já fez para mim, a mais especial foi quando enfeitou todo o quarto com pétalas de rosa no chão, fez um vídeo maravilhoso com as nossas fotos tocando “Thousand Years”, que é uma das minhas músicas preferidas. Tivemos bolo e uma linda troca de alianças. Ele me surpreende sempre de uma forma bem positiva com suas atitudes em determinadas situações”, relembra Bianca.

“Consideramos justa toda a forma de amor”. O refrão de uma das mais famosas músicas de Lulu Santos, que, recentemente, foi usada como tema de uma campanha publicitária dedicada ao Dia dos Namorados, celebra todas as mais variadas maneiras de amar. Há 10 anos, o gerente João Wanderley Júnior, 31, e o paisagista Leonardo Couto, 30, nutrem um relacionamento baseado no amor, no respeito e no companheirismo diário de ambas as partes. 

“Cuidar da pessoa que se ama é fundamental em um relacionamento. Além de fazer bem para quem está ao seu lado, tem o mesmo efeito em você. Seguindo essa linha, ao lado do companheirismo e respeito, o romantismo vem fácil. Não o romantismo batido, mas aquele que nos agrada. Estar junto, pensar no que o outro gosta ou quer fazer. Gostamos de conversar um com o outro, de rir juntos das mesmas bobeiras. O que o outro não gosta, fazemos quando estamos sozinhos, principalmente em relação a gostos musicais”, conta John.

Tantos anos juntos proporcionaram um grande ciclo de amizades para o casal, que sempre está fazendo programas juntos. Segundo Leonardo, ambos possuem personalidades bem parecidas, e aquele ditado de que os opostos se atraem não se enquadra no relacionamento deles.

“Costumamos fazer muitas coisas juntos, então todos os nossos programas acabam tendo essa aura de curtição mútua, de estar se curtindo e vivendo o máximo a companhia. Além da amizade, acredito que o fato de sermos cúmplices faz total diferença. Acho extremamente importante ter aquele frio na barriga na hora de contar para o John uma novidade, um acontecimento, uma fofoca, afinal, é isso que amigos fazem, uma necessidade de compartilhar, de dividir. Esse é meu jeito de mostrar romantismo, de cuidar, de zelar. Sigo muito à risca o ditado que diz que ‘quem ama, cuida’”, conta Leonardo.

Beatriz Monteiro e Yuri Hildebrand perceberam a sintonia mútua no primeiro momento em que se viram

Foto: Lucas Benevides

O terapeuta de casais e mestre em Psicologia pelo Programa de Estudos de Subjetividade da UFF Wagner da Costa Sousa garante que vivemos em um momento emblemático para as relações amorosas. Ao mesmo tempo em que as pessoas estão mais conectadas e com possibilidades de um romance a cada combinação de aplicativo, chegam cada vez mais aos consultórios se queixando de solidão. 

“Muitos casais vivem relações doentias quando não aprendem a cuidar do elo amoroso entre eles. Esse cuidar inclui resiliência, ou seja, flexibilidade para se adaptar aos momentos da vida. Um casal romântico nos dias de hoje é um casal que aprendeu com as imaturidades da juventude, com o vigor da idade adulta e com a serenidade e as limitações que começam a aparecer na terceira idade, reinterpretando estes momentos como fases da relação e não necessariamente como falência dela. Neste momento a criatividade rola solta, e é isso na verdade que eu acho que é romantismo no século XXI: a capacidade de se reinventar e surpreender o outro, deixá-lo sem ar por instantes”, explica o terapeuta. 

A faculdade é um dos cenários usados para retratar histórias românticas em filmes, principalmente aqueles de romance adolescente. E a ficção, às vezes, se repete na vida real. Quando estavam fazendo a inscrição de matérias, os estudantes Beatriz Monteiro, 24, e Yuri Hildebrand, 22, que ainda não conheciam ninguém na universidade, puxaram conversa um com outro. Nesse instante, perceberam uma sintonia surgindo entre eles. Demorou um pouco para os dois ficarem juntos, mas foi durante férias em Marataízes, no Espírito Santo, que o casal oficializou o namoro. 

“Desde que começamos o namoro, não nos desgrudamos mais. Estamos sempre juntos e vivemos mimando um ao outro, sempre com muito carinho envolvido. Eu não sei se a palavra é romantismo, mas temos o nosso jeitinho de viver essa relação. Temos, inclusive, uma “bíblia” com nossa história desde o início, e que está em eterna construção. Estamos sempre escrevendo nela, sobre nosso dia a dia e as coisas que acontecem em nosso relacionamento”, conta Beatriz. 

Dentre as inúmeras surpresas presentes na vida do casal, segundo Yuri, que também é baixista de uma banda, a que mais marcou o relacionamento dos dois foi quando, depois de uma DR, Beatriz apareceu de surpresa em um show que ele estava fazendo. 

“O meu show era em Botafogo e a Beatriz estava em Duque de Caxias, por isso, nem imaginava que ela iria mais. No momento em que desci do palco, ela estava lá escondida me esperando. Tinha conseguido ouvir as três últimas músicas. A briga daquele dia, nem lembrei mais depois disso. Nosso namoro foi a coisa mais linda que podia acontecer e continua sendo. Aquela lua de Marataízes abençoa até hoje. Sinceramente? Parece que nos apaixonamos de novo e de novo todos os dias”, relembra Yuri. 

Também tendo a música como pano de fundo do relacionamento, o casal formado pela professora Ana Carolina Fonseca, 25, e o técnico em segurança de trabalho Pedro Barbosa, 24, depois de idas e vindas, está noivo e prestes a completar oficialmente três anos de namoro. Inclusive, esse ano eles estavam concorrendo ao concurso de casar no Rock In Rio e chegaram até os últimos 50 selecionados. Porém, acabaram perdendo na fase da votação on-line, por conta da falta de tempo para divulgação. 

“Nos conhecemos na festa de aniversário do irmão de uma amiga, que era baixista da banda que Pedro tocava. Depois de ficar seis anos longe um do outro, em 2014 nos reencontramos e estamos juntos até hoje. Quando Pedro me pediu em casamento, no Natal de 2015, uma aluna me incentivou a tentar casar no Rock In Rio, que tinha tudo a ver com nossa história de amor. Tivemos muito apoio durante as votações e estávamos em terceiro lugar”, conta Ana Carolina. 

 Canções e poemas de amor são as formas que Pedro encontra de se declarar diariamente para a sua amada, além de estar sempre presente em sua vida. Segundo Carol, foi esse romantismo que a fez se apaixonar ainda mais por ele. “Adoro cantar e escrever músicas para ela. Pra nós, o romantismo está nas pequenas coisas e isso vai além das flores e dos presentes. O nosso romance vem do olhar acolhedor, do abraço sincero e do entregar-se um para o outro.”, conclui Pedro. 

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