Assine o fluminense

Entre elas

Mulheres de diferentes universos e idades se reúnem para festejar a amizade, manter laços e fortalecer umas às outras

Thaís Domingos, Natália Borges, Lia Rodrigues e Isabela Almeida formam a Grupa, reunião de mulheres para leitura de textos acadêmicos feministas

Marcelo Feitosa

Um dos segredos da longevidade é ter amigos que acompanham o passar de décadas e as mudanças ao nosso lado. Esse movimento agregador acontece em grupos de mulheres de forma livre e compromissada, ao mesmo tempo. Livre porque cada uma sente que pode ser quem é ao lado daquelas pessoas, sem temer julgamentos, e compromissada porque há periodicidade no encontro, como é o caso do grupo mantido há mais de 50 anos pela aposentada Maria Elisabeth de Aquino (67), que assume um papel de elo entre as sete amigas. 

“Cinco de nós estamos juntas desde o colégio, em 1964, depois fizemos o Curso Normal, nos tornamos professoras e permanecemos lado a lado. Na época, fomos no programa do Chacrinha com os passeios da escola, conhecemos todos os artistas da Jovem Guarda, fizemos parte de um grupo de canto. Mantenho nossos encontros e faço questão de fazer acontecer no meu ateliê nas datas marcadas. Primeiro, eram duas vezes por ano, quando tínhamos acabado de casar ou de ter filhos. Depois dessa época, passamos para três, depois para cada dois meses. São festas temáticas, em que enfeito e decoro o apartamento para esperar por elas”, revela Beth, como é chamada pelas amigas.

Tudo começou como uma simples brincadeira, mas, entre tardes de bingo, origamis e conversas, a amizade foi ficando tão forte, que as amigas não queriam mais se separar. Beth relata que, quando estão juntas, é como se tivessem na escola, como se o tempo tivesse parado e elas voltado a ser aquelas meninas, alegres e parceiras. 

“Você vai envelhecendo, vai ficando sozinha, não consegue acompanhar os filhos. À medida em que eles vão crescendo, a gente vai percebendo que os encontros trazem a sensação de que não perdemos o elo com a juventude. Depois de uma certa idade, a gente não faz mais amizade, é muito difícil. Você não imagina o quanto é bom manter esse laço, a gente se ver, parece que estávamos juntas três dias antes. É isso que me mantém! Temos idade, mas não perdemos a vivacidade quando estamos juntas”, confessa a anfitriã. 

Inspirada pela amiga Beth Grando, a anfitriã Alessandra Miranda recebe cerca de 10 amigas em sua cobertura para aulas de dança com o personal dancer Reinaldo Silva

Douglas Macedo

Para a psicóloga e psicoterapeuta Flávia Dias, esses acordos, esses contratos de amizade vão se refazendo. A vida é impermanente, e perceber o que você é hoje e o que você já foi, mantendo esse laço de amizade, é uma experiência que traz maturidade.

“Quando elas colocam uma periodicidade, quer dizer que gera um compromisso entre elas. Então, cada uma vai com o que tem em si e todas entendem que a presença é importante. É isso que faz acontecer, porque todos têm uma série de atividades que fazem parte da rotina e demandam muito de nós, tanto emocionalmente, quanto objetivamente. Nesse caso, há uma aceitação recíproca. Esses encontros são o que fazem a gente se sentir parte de algo maior”, pondera Flávia, que aproveita para completar que o grande segredo das pessoas mais felizes é a capacidade de manterem laços afetivos com outras que são seu oposto.” A gente aprende a se relacionar de forma respeitosa com opiniões diferentes, a lidar com a frustração, a ouvir o que o outro tem a dizer e não só falar. São experiências muito ricas, cheias de vivência nesse caminhar. Cada uma está podendo também se resignificar”. 

No grupo de senhoras, todas são muito diferentes entre si, se respeitam e se fortalecem. Elas possuem uma prática anual muito interessante e reveladora: no encontro natalino, escrevem em papéis seus desejos para o próximo ano e colocam em uma “cápsula”, que só será aberta no ano seguinte. Após esse ritual, que dura mais de 30 minutos de silêncio e concentração, elas abrem a cápsula do ano anterior e há um reencontro com aquelas mulheres que eram há um ano e o que as perturbava ou as alegrava. É um momento emotivo e de muita catarse para o grupo. 

“Sempre levamos textos introspectivos para debatermos. A Beth junta todas as fotos dos nossos encontros do ano e grava em um DVD para presentear cada uma de nós. Voltamos para nossas casas renovadas. São várias cabeças, cada uma dando uma opinião sobre determinado assunto, consolando e fortalecendo a amizade. Lá, esquecemos dos problemas, é como se fosse uma terapia de grupo, só que sem gastar”, admite a professora aposentada Luzia Naegele de Silva (67), uma das integrantes do grupo. 

De acordo com o antropólogo Pedro Pio, ciclos duradouros de amizade representam um conjunto de pensamentos marcados por uma época, por histórias e experiências de vida. Esta aproximação torna-se tão grande, forte e acolhedora, que tamanha intimidade é transformada em códigos, reconhecidos apenas por quem faz parte deste ciclo. 

“Esses códigos estão no falar, no olhar e até mesmo na própria respiração. Para esses códigos não há intérprete! Representam uma espécie de identidade social que difere em muito das atuais relações sociais marcadas pelas amenidades, imediatismo e fracamente construídas pela falta de tempo e excesso de compromissos da sociedade em que vivemos. Esses ciclos duradouros representam um acolhimento, um ‘porto seguro’ ou até mesmo uma catarse para o enfrentamento dessa fragilidade encontrada recorrentemente nos atuais ciclos de amizades”, explica Pedro. 

Dizem que quem dança seus males espanta, e foi acreditando nessa máxima que 10 amigas começaram a se encontrar na cobertura da empresária Alessandra Miranda (48) para fazer aulas de dança. Elas contrataram o personal dancer Reinaldo Silva há quase um ano para dar aulas de dança de salão em ritmos variados, como bolero, gafieira, forró, sertanejo e soltinho (rock dos anos 60 e 70). Essa foi uma forma que encontraram de se ver semanalmente, se divertir e ainda praticar uma atividade física. 

Cacau Dias e o grupo da cachaça, que se reúne periodicamente para experimentar sabores da bebida

Lucas Benevides

“Uma de nós, a Beth, faz apresentações de dança quando aniversaria. Vendo ela, a gente se animou. Ninguém queria ir para uma academia. A gente já se encontrava uma vez por semana de qualquer jeito e se encontrar para dançar se tornou muito motivador. Na academia de dança, cada um já tem seu par. A gente queria brincar, dançar, estar mais à vontade. Nenhum marido nosso dança e encontramos essa saída. Sabemos que podemos contar umas com as outras. Esses relacionamentos não deixam a gente envelhecer. A maioria de nós é do interior do Estado, acho que isso tem muito a ver, temos o hábito do encontro”, destaca Alessandra, que lembra que uma das características do grupo é ter mulheres de todas as idades, entre 30 e 70 anos. 

Os encontros são sempre às quintas-feiras e, com o horário de verão, elas ainda são agraciadas com um lindo pôr do Sol, com vista para a Praia de Icaraí. Foi unânime o fato de as aulas surtirem como um trabalho para aumentar a autoestima e segurança, principalmente na hora de dançar em público. Como o ambiente é extremamente familiar, marido nenhum fica com ciúmes.

“Nas festas e nos bailes, ficávamos babando de vontade de dançar e agora não, a gente se joga. Em muitas ocasiões, contratamos um dançarino para acompanhar nosso grupo e, assim, todas dançam e se divertem”, conta Beth, que começou a dançar há três anos e acabou incentivando as amigas. 

Seguindo a linha da diversão entre amigas, a cerimonialista Cacau Dias (53) realiza eventos há alguns anos como forma de reunir pessoas queridas e compartilhar momentos de prazer e informação. Coisa de mulher e coisa de homem? Aqui não! A ideia sempre foi quebrar tabus com temas que são ligados ao universo masculino e levá-los, naturalmente, ao mundo das mulheres, por que não? Cacau já fez o encontro do charuto e o clube da moda e, agora, realiza o clube da cachaça, cuja segunda reunião aconteceu no último dia 31, em São Francisco. Além de experimentarem diversos sabores da bebida destilada, elas ainda participam de palestras com especialistas no assunto. 

“Tenho uma ligação emocional com as cachaças de Paraty, ia sempre com minha família para lá nas férias e, com os anos, tornou-se tradição eu e meus irmãos – dois homens e cinco mulheres – sentarmos à mesa com nosso pai e bebermos um shot com fruta. Com o evento quis, ainda, valorizar a cultura brasileira através da bebida mais autêntica que produzimos”, afirma. 

No último encontro, houve a presença de um cachacier – nome dado a um especialista em cachaça –, responsável por explicar as peculiaridades da produção da bebida para as mulheres do grupo. 

"É muito interessante a produção e a história da cachaça de Paraty. Queria que todas soubessem de onde vinha e como era feita. É para ser um momento prazeroso, em que a gente possa falar sobre nossas vidas, sobre assuntos que nos interessam, mas também ter acesso a novos conhecimentos. Falar que somos cachaceiras é um barato, porque somos mesmo, mas com moderação e do bem”, diverte-se Cacau. 

Mulheres unidas, por si só, já é a quebra de um paradigma. Historicamente, elas foram criadas para serem inimigas, para não confiar em outras mulheres. E é também buscando o fim desse comportamento social machista que o grupo, ou melhor, a Grupa, se encontra mensalmente para ler textos acadêmicos escritos por feministas. 

“A Grupa nasceu em novembro do ano passado, depois do evento de visibilidade lésbica do qual participamos. A gente já estudava individualmente, mas achamos importante o estudo do feminismo em conjunto para criar uma unidade. Precisávamos definir isso pessoalmente: o que a gente quer ser teoricamente para ser na prática. Decidimos começar estudando sobre o que era mais sensível a nós, um grupo de mulheres lésbicas e bissexuais, por isso escolhemos ‘Heterosexualidade compulsória e o contínuo lésbico’, de Adrienne Rich”, explica a professora de geografia Thaís Domingos (26). 

Outras autoras lidas são Catharine A. Mackinnon, Audre Lorde, Andrea Dworkin e Bell Hooks, esta última será debatida no próximo encontro, com o texto “Intelectuais Negras”. Inclusive, entre os desafios que as amigas enfrentam, está a falta de tradução de vários textos ou erros em traduções feitas por homens, onde trechos inteiros são omitidos. 

“São textos que mudam nossas vidas, e estudá-los com mulheres feministas é ainda mais forte, sentimos na carne o que lemos. Mexe com os afetos também porque, quando você começa a olhar para outras mulheres como parte da mesma classe, você começa a vê-las não como inimigas, mas como tão oprimidas quanto você por outra classe, a dominante – a dos homens. Você passa a vê-las como pessoas quando, na verdade, somos criadas não para ver as mulheres como gente, mas como objeto, escravas, que estão ali para servir, para ser dóceis e não como alguém com personalidade e desejos. A proposta é que todas nós devemos assumir um papel protagonista e nos fortalecermos juntas”, declara a pesquisadora Natália Borges (30).

Segundo Pedro Pio, se até meados do século XX o espaço público não era bem visto para mulheres sem a presença masculina, a tendência certamente é positiva.

“Quando o grupo é constituído por uma causa, marcadamente representado por uma questão de gênero, de luta, visibilidade, reconhecimento e reivindicação de direitos, a manutenção dessas relações se dá na união de vivências, na sororidade e pela luta de um bem comum. Em toda luta há o enfrentamento, mas o acolhimento também é fundamental”, salienta o antropólogo.

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Veja também

Scroll To Top