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Entre idades e identidades

Claudia Barcellos Rezende acredita que estamos na era do capitalismo flexível, que criou uma outra forma de se relacionar com o trabalho, buscando diversificar e acumular experiências

Foto: Lucas Benevides

Hoje, podemos nos deparar com uma sociedade diferente do que era há 10, 20 anos. Novos quadros psicológicos e comportamentais; reconfigurações nas relações e interações sociais; transformações nos meios de produção e no mercado de trabalho. Claudia Barcellos Rezende, doutora em Antropologia pela London School of Economics and Political Sciences e professora titular da Uerj, fala sobre essas mudanças e o quadro que se desenha diante de nós.

No senso comum, costuma-se figurar as gerações como tipos humanos que surgem com o decorrer do tempo. À luz das Ciências Sociais, o que seria uma geração?
Geração é um conceito que se refere a um grupo que não apenas nasce em uma mesma época e, por conta disso, compartilha ideias, valores e formas de comportamento.

As três gerações mais recentemente exploradas pelos campos de conhecimento – X, Y e Z – apresentaram e têm apresentado variações de visão de mundo e comportamento bem distintos. Tudo isso em um curto espaço de tempo entre uma transição e outra. A que, na sua opinião, se deve a rapidez dessas mudanças? Até que ponto elas são distintas ou apenas manifestações diferentes de uma mesma coisa?
Sempre houve mudança de uma geração para a outra, mas o que caracteriza a modernidade tardia ocidental, termo do sociólogo inglês Anthony Giddens, são mudanças nas relações entre as pessoas, que agora dependem de sistemas e instituições espalhados pelo globo, gerando, ao mesmo tempo, a necessidade de confiar nestes sistemas, produzindo também uma insegurança. Além disso, as formas de conhecimento estão sendo revisadas em uma velocidade ainda maior, acelerando também estas mudanças. A internet, enquanto forma de comunicação e compartilhamento de informação, contribui nos dois fatores. Acredito que a diferença maior está entre as gerações mais velhas, que passaram a conviver com as mudanças trazidas pela internet mais tarde e entre os mais jovens, que nascem na década de 90 e crescem com ela.

Quando pesquisamos no Google sobre gerações, o resultado das buscas sempre traz artigos, reportagens, pesquisas científicas, entre outros tipos de publicações relacionadas a como os perfis das gerações atuais impactam e, em alguns casos, reconfiguram o mercado de trabalho. Por que a intensa atenção para esse fenômeno?
O sociólogo Richard Sennett, no livro “A Corrosão do Caráter”, fala que vivemos agora na era do capitalismo flexível. É uma outra forma de se relacionar com o trabalho, buscando diversificar e acumular experiências, o que pode levar uma pessoa a mudar de emprego a cada dois anos. É um contraste com as experiências mais tradicionais de construir uma carreira e uma identidade dentro de uma mesma empresa/instituição. Isto muda também a forma de se relacionar com colegas, na medida em que são relações mais transitórias.

Agora, voltando os olhos para outras esferas da sociedade, como o advento de uma nova geração pode repercutir nas relações que se estabelecem entre as demais?
Em todas as sociedades, há esta dinâmica: a cada geração são transmitidos os significados e práticas de uma cultura, que não os recebe de forma passiva. Ao contrário, modifica o que recebe e cria novos sentidos e práticas. Temos que pensar também que cada vez mais as sociedades estão articuladas, de forma que o que acontece em outros lugares pode nos afetar diretamente – em termos de economia, política, correntes imigratórias, produções culturais (cinema, música, TV).

Hoje, ouvimos muito falar sobre a geração Z (nascidos entre 1995 e 2010). Poderia nos falar um pouco sobre o contexto em que os indivíduos desta geração estão inseridos e como os mesmos tendem a percebê-lo?
Como antropóloga, não consigo pensar em um só contexto. O Brasil é diferente de outros países e, internamente, somos muito diferenciados por gênero, classe, raça, religião. O que vejo nos jovens no Rio de Janeiro, na universidade, é uma fluidez na forma de pensarem suas identidades (são mais “inclinações” em termos sexuais, de gênero e políticos) e a habilidade do “multitasking”, exemplificadas pela onipresença do celular. Há também as redes sociais, que multiplicam as formas de contato e sociabilidade entre eles.

Outro assunto recorrente ligado à geração Z é a presença das psicopatologias nos indivíduos, o que parece ter sido previsto há anos por vários autores críticos da modernidade. Como podemos entender o quadro emocional e a dinâmica dos afetos dessa geração?
Acho que as transformações acima modificam como eles se relacionam com os outros, aos olhos dos mais velhos. Não conheço o tema, mas acredito que os chamados transtornos de atenção, por exemplo, podem estar relacionados à presença destas tecnologias (plataformas digitais, canais de streaming, smartphones, etc.), que oferecem ao mesmo tempo uma multiplicidade de interesses. 

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