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Erotomania

Transtorno delirante faz com que a pessoa acredite que o ídolo nutre o mesmo sentimento

Famosos como Ana Hickmann, Madonna, Annita, Rihanna e John Lennon foram vítimas de fãs descontrolados. Especialistas afirmam que crescimento das redes sociais contribui para o aumento deste tipo de caso, já que há uma maior divulgação da vida das celebridades

Divulgação

Por Carolina Ribeiro

Criar ídolos, acompanhar como é a vida, o que fazem, o que pensam e o que gostam os famosos é muito comum, principalmente nos últimos anos com as redes sociais fazendo cada vez mais seguidores. Entretanto, em alguns casos, essa “idolatria” pode se tornar doentia e até se transformar em ataques sérios. O que pode causar esse distúrbio é a erotomania, um transtorno delirante que faz com que a pessoa acredite que o ídolo nutre o mesmo sentimento por ela.

E isso é bem mais comum do que se imagina. Recentemente, a apresentadora de TV Ana Hickmann foi vítima de um ato descontrolado de um jovem que se dizia seu fã. Ela e mais duas pessoas ficaram sob a mira de uma arma em um quarto de hotel enquanto o “fã” a acusava de o desprezar. A cantora Anitta teve o condomínio e a casa onde mora invadida por um rapaz, que, aos gritos, se declarou, xingou e disse palavras desconexas para ela. Ao ser expulso pelos seguranças, tentou novamente invadir o local e foi levado para a delegacia. Em 1980, o beatle John Lennon foi assassinado por um homem que, horas antes de matá-lo a tiros, havia pedido ao cantor um autógrafo na capa de um disco. Cantoras como Madonna, Rihanna e Taylor Swift, atrizes como Sandra Bullock e Jennifer Aniston, todas já sofreram com perseguidores em seus e-mails, casas, e até no trabalho.

Segundo o psiquiatra William Dunningham, na maioria das vezes, esses indivíduos que ameaçam ou cometem tentativas de homicídio a famosos sofrem desta síndrome. Isso ocorre uma vez que essas pessoas ficam gradativamente convictas que estão sendo correspondidas através de um amor secreto por seus ídolos.

“Eles creem delirantemente que a pessoa amada se comunica de algum modo com ele, o que alimenta a psicose. Com o passar do tempo, se aproxima do suposto amante e percebe que ele é indiferente. A decepção sofrida faz o doente acreditar que o ídolo agira levianamente com ele e passa a odiá-lo, podendo chegar ao extremo de agredir fisicamente ou tentar assassinar a pessoa que o teria ludibriado”, explica o psiquiatra.

O psicólogo Francisco Syl Farney completa que o avanço da tecnologia e das redes sociais contribuiu para o aumento de casos deste tipo, já que há uma maior ostentação e divulgação da vida dos famosos na rede. Ele diz que é importante lembrar que todo ser humano tem fantasias, mas o que impede de tomar atitudes extremas é o senso de cada um.

“Nas próximas décadas, os distúrbios mentais que mexem com a realidade serão mais frequentes por conta dessa perda de senso, já que em um mundo virtual é mais comum viver uma fantasia”, alerta.

De acordo com Dunningham, não existem ainda pesquisas que expliquem a neurobiologia desta psicose e o porquê de a síndrome ocorrer. O que se sabe, é que a prevalência confirmada é de 0,05%, e que ela atinge pessoas que não têm problemas na vida social, e que apresentam capacidade de liderança, são frequentes líderes de fã-clubes, partidos políticos e torcidas organizadas.

O especialista afirma que um importante sintoma é visto quando uma pessoa afirma que alguém que ele idolatra e que, de fato, não o conhece, nutre sentimentos amorosos por ele e que emite sinais deste amor. A inverossimilhança desta convicção faz os familiares e amigos chegarem à conclusão de que a pessoa está mentalmente doente, assim, recorrem a um tratamento.

“Esse tratamento se dá de forma farmacológica e a eficácia é maior quando o quadro clínico é diagnosticado e tratado precocemente, podendo haver recuperação. Entretanto, quando a síndrome está avançada e consolidada, o doente reluta em admitir que precisa se tratar e isto pode desencadear uma tragédia”, completa o psiquiatra.    

Dunningham, no entanto, enfatiza que é preciso ter cuidado com o diagnóstico feito de maneira precipitada. Normalmente as pessoas percebem os sintomas, mas têm medo de reconhecer que podem ter alguém doente na família. 

“É muito difícil que a pessoa procure ajuda sozinha, que perceba que está doente, mas pode acontecer. É importante que a família esteja atenta, que procure tratamento”, diz Farney, acrescentando que o psiquiatra é responsável pelo diagnóstico e indicação de remédios, enquanto ocorre a terapia com o psicólogo. 

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