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Elisa Lucinda

A premiada atriz Elisa Lucinda divide com o leitor dicas, experiências e reflexões de maneira singular estabelecendo o conceito artístico em todas as palavras

Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel

Todo mundo sabe que o natal é uma festa de forte apelo consumista, mas mesmo assim, pra mim, isso não o empobrece. Os críticos e céticos da estação não gostam do que vou dizer mas em verdade nestas horas todo mundo fica bom. Os ladrões de toda classe social, os assassinos, os perversos, os mesquinhos, os amorosos, os generosos, todo mundo fica bom natalinamente, e os que já são bons , geralmente, conseguem ficar melhores. Por quê? Não estudei o que digo agora, mas o que vejo me revela um sentimento acentuado de horda.

Nós somos gregários, pertencentes a nossa tribo. E precisamos deste encontro com os nossos, destas declarações de afeto a nossa família de amor e sangue e ou de amor e mundo. Uma vez um griot me disse que numa região no Zaire, eu acho , quando uma mulher engravida, se recolhe com algumas amigas e parentes no meio da mata e ficam lá por um tempo afim de que o espírito da floresta sopre a música daquela criança. Depois voltam à comunidade e ensinam a outros da família e à comunidade a música daquele novo ser. Depois, quando a criança nasce, aniversaria, adolesce, casa, se forma em alguma profissão e outros ritos, a aldeia se reúne em torno dela para cantar para ela sua canção.

E quando esta criança, já adulta e cidadã atenta contra a harmonia daquela vila, quando esta pessoa se perde de si e dos seus e fere por crime ou outras ofensas o grupo, toda a aldeia canta sua música em torno dela, para que ela se lembre de quem ela é. Embora nossa sociedade ainda encarcere seus filhos infratores sem lhes dar uma única possibilidade de recuperação, sem lhes lembrar sua canção, se é que houve, ainda assim este ritual africano, reservadas as proporções, me lembra nosso natal. É a hora em que família se reúne e conta e reconta suas histórias para si, como se fosse um elenco em torno de seu texto, seu roteiro, seu fundamento, sua estrada. Nestes rituais e em torno deste peru, tilintam e fortalecem as múltiplas culturas dos grupos, dos mamíferos humanos que somos.

Na minha horda, desta vez a família se reuniu aqui em casa no Rio de Janeiro. Mas fosse onde fosse, olhando a sabedoria aguda e lúcida de meu pai, o rei sábio da nossa aldeia, o que se vê, a despeito de ser em território carioca, é uma tribo capixaba. Minha irmã Margarida imita a voz de tia Rosa e todos reconhecem. Todos riem, porque todos sabem, a conhecem, reconhecem, esta tia, é vulto histórico, é piada interna, ou seja, é da cultura particular que toda família tem. Por isso não acho nada hipócrita este encontro, estes vinhos, este amor à parentada, esta solidariedade com data marcada. Acho ruim quando só acontece nestas datas. Mas pior é perder a oportunidade de exercer estes rituais que fortalecem os vínculos daquele grupo. Ainda que seja só uma vez ao ano.

Creio que não precisamos ser tão sós. Isso nos molesta tanto. O fim da solidão é o principal motivo das festas. E seus efeitos colaterais começam antes. Quando preparamos a casa para o outro chegar preparamos nossa casa invisível também, nossa abstrata casa com seu chão e paredes particulares. Olhando para a casa, olhamos para nós mesmos e com olhos de arrumação e funcionalidade que geram uma estética de comportamento, uma forma de beleza nas ações. Falem o que quiserem me tratem como uma cronista piegas, discordem de mim aqui, mas mesmo com todo papainoelismo consumista, mesmo com toda a injustiça que nega presentes à população miserável do mundo, mesmo assim, a humanidade reflete no fim de ano sobre sua história.

Ainda que brigue, que exploda uma verdade desagradável vinda da boca bêbada de um cunhado no meio da ceia, ainda que as debilidades se potencializem em conjunto muitas vezes, somos de turma, somos filhotes, pertencemos à grandes ninhadas, desde sempre, desde Adão, o primeiro negão, o afro- homo sapiens, que por ser o único a saber que um dia vai morrer, criou por isso um projeto de vida dentro da linha do tempo. E assim seguimos. Talvez falte ao mundo mais entendimento entre estas distintas famílias e culturas. Se ampliamos nosso território, nossa ninhada, diminuímos nossos motivos de guerra. A solidariedade se dilui em distribuição natural de renda, uma vez que a quantidade de membros de nossa família aumenta muito se o conceito for o mundo. E como mundanos, terráqueos pertencentes a mesma aldeia global e a um mesmo tempo, também temos nossa piada interna, nossa cultura da qual só nós sabemos, e dela rimos, e com e por ela amamos e sofremos. 

Acho até que, inconscientemente por isso, tanto prezamos a ideia da existência de Deus e dela necessitamos. Em torno de sua imagem a humanidade se dobra, se rende. É referencia paterna, e talvez tenha sido fundada aí, a consciência da humanidade como família. Pois o natal é nossa música. Não importa se Deus criou o homem ou se o homem o imaginou. No ponto em que estamos ninguém retira de Deus a função de pai do mundo, o quê culturalmente, sem precisar comprovar paternidade, nos faz irremediavelmente irmãos. 

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