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Expressão do sentir

Manifestação biológica e emocional, o choro é um mecanismo que o organismo possui para extravasar sentimentos, bons e ruins, e colocar para fora angústias e medos aprisionados dentro de nós

O ator André Valim acredita que o choro é uma emoção difícil de ser simulada no exercício da profissão

Foto: Lucas Benevides

Era uma vez uma jovem grávida de seu primogênito. Ao chegar ao hospital, chorava sem parar, pois estava prestes a dar à luz o aguardado filho, que vinha depois de diversas tentativas frustradas. Momentos depois, já na sala do parto, após ocorrer um breve instante de silêncio, ouviu-se um grave som, como gritos de vitória. Era o bebê que chorava bem alto para receber o oxigênio pela primeira vez. 

“‘Está vivo!’, disse o médico após dar umas palmadinhas em meu filho. ‘É um menino saudável, veja como ele chora forte, sinal que será um grande homem’”, lembra Patricia Lima, 35 anos, mãe de Jordan Lima, de apenas duas semanas de vida.

Bem próximo dali vivia uma outra jovem que tinha um estranho dom. Todas as vezes, quando algo ruim estava prestes a acontecer com alguém próximo, ela começava a chorar, um verdadeiro banho de lágrimas. 

“Na primeira vez em que virei uma noite chorando sem saber o porquê, faleceu meu pai. Na segunda, aconteceu um grave acidente com meu primo seguido do falecimento de minha avó. É como um ritual, após chorar em prantos sem nenhuma explicação, algo acontece. Para amenizar a angústia que isso me causa, transformei meu choro em momentos de oração e, assim, o que era dor passou a ser o meu processo de cura interior. O meu pranto é o meu presságio e a minha forma de encontrar paz em momentos que antecedem o sofrimento”, admite a estudante Bruna Silva, de 28 anos.

Jorge Wilson Júnior tem dificuldades para chorar ligadas, segundo ele, à educação severa

Foto: Lucas Benevides

Essas são diferentes histórias que possuem algo em comum: o choro, manifestação biológica que vem desde os primórdios da humanidade também como um meio de expressão corporal, estando presente em vários momentos da vida de uma pessoa e, em alguns casos, até no leito da morte, como explica o psiquiatra clínico Gilberto Luna.

“As lágrimas estão presentes já no primeiro contato que um indivíduo tem com a vida. O primeiro suspiro que o recém-nascido emite é o choro. Com o passar dos anos, percebemos que as dores e alegrias são acompanhadas por esse mecanismo primitivo, o que prova que sempre estaremos ligados ao nosso lado animal”, argumenta o psiquiatra, que acredita que a explicação do choro está na psiquiatria.

“Ele ocorre em várias fases da vida, em momentos de tristeza, mas também em momentos de alegria. Na psiquiatria, esse choro pode ser visto como expressão de sofrimento ou redenção. Os pacientes chegam angustiados e não é raro que consigam extravasar suas mágoas a partir do choro”, revela o psiquiatra. 

O choro com origem sentimental é exclusivo dos seres humanos, é uma tentativa de fala instintiva causada por uma emoção intensa que não cabe no organismo. Uma comunicação sem palavras que expõe os sentimentos. As lágrimas funcionam como palavras que podem ser sinceras, estratégicas, copiosas ou escassas, como revela a psicanalista e psiquiatra infantil e adolescente Lorena Aparicio.

“É interessante analisarmos sempre o contexto no qual o choro ocorre. Ele pode ser produzido, por exemplo, num momento de angústia, quando a pessoa não consegue por algum motivo se expressar verbalmente, servindo como uma ferramenta para expressão de algum afeto. O choro angustiado também é positivo, pois é uma maneira de pôr para fora o afeto que está impedido de vir à tona”, diz a psicóloga, que afirma que as lágrimas também podem persuadir. “Chorar também pode se tornar uma poderosa arma de manipulação. Por exemplo: o choro das crianças em sua relação com os seus pais ou cuidadores pode ser uma artimanha. Tem ainda o bebê que chora para chamar a atenção dos pais e mostrar a eles suas necessidades físicas, estando o choro sempre presente na vida humana”, completa Lorena

Jennifer Bomfim se emociona com facilidade diante daquilo que vê, como quando assiste a um filme ou a um espetáculo que toca nos seus sentimentos

Foto: Lucas Benevides

Na história da Bruna Silva, as lágrimas apresentam essa ligação entre o emocional, o fisiológico e há quem acredite que também com o sobrenatural, como fala o missionário Márcio Mendes.

“Quantas vezes você chorou sem saber por que estava chorando? As lágrimas são uma espécie de oração, porque fazem uma comunicação com o seu interior. Quando existe o dom das lágrimas, há uma virtude que amolece a dureza do coração, passando por um processo de cura interior”, conta.

O chorar é um ato que demonstra humanidade, uma reação natural das pessoas em momentos reais, define o professor e teólogo Hélvio Costa.
“Do ponto de vista teológico, o choro é uma reação normal diante dos estímulos de cada situação vivida. Não deve ser visto apenas no aspecto pejorativo, como meio de demonstrar tristeza, pois também pode ser de alegria ou paz. Quando vemos alguém chorando, claro que vamos consolar e ajudá-la a sair do sofrimento. Mas o choro também é bom, ele ajuda a desabafar e superar, ele lava a alma”, aponta.

De acordo com o professor e umbandista Renan Ramos da Silva, as lágrimas também possuem um significado especial nas religiões africanas e no espiritismo.

“Elas possuem uma dualidade como quase tudo na vida. O primeiro ponto que pode ser observado como negativo é quando há o excesso de lágrimas, seja por uma perda de uma pessoa ou alguma decepção. Esse choro de tristeza, quando permanece por um grande tempo, pode se tornar um desespero e até virar uma depressão. Porém, o mesmo choro referente à dor tem seu lado positivo, quando colocado para fora almejando o equilíbrio. Nesse sentido, a lágrima possui um significado de limpeza interna do corpo e do espírito. Nos momentos felizes, o choro expressa a externação da alegria, o ponto máximo da felicidade”, pondera.

Do ponto de vista fisiológico, as lágrimas são gotículas produzidas pela glândula lacrimal compostas de água, sais minerais, proteínas e gorduras, como explica o oftalmologista Bernardo Pinto

Foto: Marcelo Feitosa

Chorar não apenas limpa a alma como também faz bem aos olhos. Do ponto de vista fisiológico, as lágrimas são gotículas produzidas pela glândula lacrimal compostas de água, sais minerais, proteínas e gorduras. Elas são produzidas no sistema límbico cerebral, responsável pelos sentimentos, e ocorrem quando há a emoção. Nesse momento, são liberados hormônios que causam a contração da glândula lacrimal e liberam as lágrimas, que escoam pelo duto secretor e são espalhadas por toda a córnea pela pálpebra. A lágrima é formada por diversos elementos, como afirma o oftalmologista Bernado Pinto. 
“Ela tem três componentes: aquoso, mucoso e lipídico. Cada componente é secretado por uma glândula diferente e cada um tem uma função específica, sendo o choro importante para a saúde dos olhos”, explica.

As lágrimas desempenham várias funções, como lubrificar a superfície dos olhos para a formação de uma imagem nítida; ajudar na nutrição da córnea; fornecer oxigênio e nutrientes para o olho; proteger contra a ação de micro-organismos; retirar os detritos que se acumulam na superfície do olho; limpar os olhos e ainda promover a cicatrização de lesões na superfície ocular. 

“A lágrima é importante para o funcionamento normal do olho. Ela impede abrasões corneanas e ressecamentos, sendo fundamental para o funcionamento da córnea em si. Seja por uma razão boa ou ruim, chorar ajuda os olhos a manter o seu funcionamento normal”, resume o médico.

Há pessoas que têm dificuldades ou reprimem o próprio choro, caso vivido pelo DJ Jorge Wilson Júnior, 35, que tem dificuldades para chorar ligadas, segundo ele, à sua educação severa, de acordo com a qual aprendeu que homem não chora, sendo encarado como sinônimo de fraqueza.

“Acho que só chorei uma vez na vida e foi quando perdi minha mãe, porque, tirando isso, sempre fui muito forte. Meu pai me ensinou a não chorar e ser firme. E assim sigo a vida. Não chorei nem quando sofri um acidente onde tive que amputar meu braço, todos pensavam como eu superaria aquele fato, aquele trauma, e eu coloquei toda minha força naquela situação, toda minha coragem e superei, sem lágrimas. Não sei, posso estar triste, mas as lágrimas não descem, posso até tentar, mas não acontece. Não sei se é bom ou ruim, apenas não choro”, admite.

O músico Zé Arent acredita na troca de emoções com sua plateia que chora

Foto: Marcelo Feitosa

Ao contrário de Jorge Wilson, existem pessoas que choram com facilidade, são as chamadas “manteigas derretidas”, como a estudante Nayara Santos, de 23 anos.

“Acho mais fácil falar sobre o que não me faz chorar. A maioria das coisas me despertam o choro, seja a cena de um filme, ouvir a história de alguém, ver alguém realizando um sonho, alcançar algo que eu sempre quis. Mas o que ultimamente mais tem me feito chorar é receber elogios sinceros. Às vezes, consigo segurar, em outras, quando vejo, já estou me debulhando em lágrimas. Já tive muita vergonha dessa minha ‘facilidade’, porque o choro ainda é visto como uma fraqueza pelas pessoas. Hoje, já me acostumei com essa minha característica. Aceitei que talvez eu seja um pouco mais sensível que as outras”, diz.

Já a estudante Jennifer Bomfim, de 18 anos, se emociona com facilidade diante daquilo que vê.

“Me emociono consumindo arte, acho uma forma de você se envolver com a cultura e gerar uma ligação especial criando memória. Me emociono e choro fácil ao ver um bom filme, receber mensagens, entre outras demonstrações de sentimento”, confessa.

Desde os primórdios do teatro, dramaturgos usam as lágrimas cênicas para emocionar a plateia. Existem certas técnicas usadas já na elaboração de roteiros que ajudam a emocionar os espectadores, no entanto, o choro é uma emoção difícil de ser simulada, como explica o ator André Valim, de 35 anos.

O ator Mauricio Damas acredita que o choro deve vir do envolvimento do ator com o personagem, mas também da emoção e, no caso do artista, é possível chorar através de técnicas

Foto: Marcelo Feitosa

“Não uso técnicas em cena, me envolvo e choro. É difícil você ter que estar preparado para em algum momento ter que chorar. Normalmente, não choro com facilidade, fui criado com a ideia de que homem não chora, que o choro é uma demonstração de fraqueza. Hoje em dia, tento me permitir um pouco mais, acessar este tipo de emoção e sentimento porque acho que a gente fica mais sadio emocionalmente vivendo todas as emoções e reações do corpo”, justifica o ator.

O músico Zé Arent, 34 anos, fala do seu envolvimento com o público que se emociona e tem nas lágrimas um meio de troca de sensações.

“Procuro sempre sentir as pessoas e o ambiente onde me apresento e, quando começo a tocar, compreendo como devo levar a música àquelas pessoas. Presto muito atenção no público, porque gosto de estar envolvido na situação”, argumenta o músico.

O ator Mauricio Damas garante que, mesmo que seja uma emoção difícil de se simular, é possível chorar através de algumas técnicas. Ele acredita que o choro deve vir do envolvimento do ator com o personagem, mas também da emoção e, no caso do artista, é possível chorar através de técnicas.  
“Passo a visualizar como o personagem reage à vida e deixo completamente de lado o medo de agir, como se eu fosse o personagem: essa é minha metodologia. É verdade que existem técnicas que ajudam o ator no momento em que precisa chorar, como o uso de cristal japonês (uma substância feita de mentol), a utilização de colírio, trazer à memória algo triste e a mais utilizada e também mais simples, que é manter os olhos o máximo de tempo possível sem piscar”, mostra Mauricio, que lembra a importância do choro sincero.

“Chorar é uma das formas mais genuínas do corpo demonstrar sentimentos de alegria ou tristeza. Quando uma pessoa chora, ela abre seu coração e externaliza o seu lado interior. Por essa razão, o choro natural é uma dádiva que deve ser explorada por todos. Afinal, o choro é a expressão dos sentimentos”, finaliza.

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