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Fênix do samba

Aos 30 anos, Marcelo Calil conseguiu levar a agremiação ao segundo lugar no carnaval desse ano

Foto: Fotos: Lucas Benevides

O brilho no olhar voltou! Há três carnavais como presidente da Unidos do Viradouro, Marcelo Calil Petrus Filho, com apenas 30 anos, virou o jogo e trouxe de volta o orgulho de ser Niterói no samba ao conquistar, junto com uma diretoria superprofissional, o vice-campeonato da Série A de 2017, o título da série A em 2018 e o vice-campeonato do grupo especial agora em 2019. Como está escrito no samba-enredo desse ano: “Das cinzas voltar, nas cinzas vencer!”

Você assumiu a presidência da Viradouro após uma renúncia em 2016. Já se sentia preparado para assumir o cargo? Qual foi a primeira providência que tomou?

Eu sempre gostei de carnaval. Frequento a escola há muitos anos, desde a década de 90, na ala das crianças. A Viradouro é uma escola gigante que estava passando por momentos turbulentos e oscilando muito nos carnavais. Estar preparado é uma coisa muito relativa. Sou formado em gestão e meu pai é um advogado e empresário bem-sucedido. Como amamos a escola, juntamos o útil ao agradável e isso, sim, nos deixou preparados. No fim de 2016, fomos procurados para assumir a escola e o primeiro pensamento foi salvá-la. Pensamos primeiramente em arrumar a casa e colocar a escola nos trilhos. Faltavam 68 dias para o carnaval e, sendo bem honesto, a intenção era não cair e desfilar na Intendente Magalhães.

A que você atribui essa guinada em dois anos? Teve algum momento que foi o ponto-chave para ter em mente que a Viradouro ia vencer a Série A e brigar por título, no ano seguinte, no grupo especial?

Nesses 68 dias que trabalhamos muito para o carnaval de 2017, os profissionais que estavam com a gente se dedicaram muito. Aí começamos a ter noção de que poderíamos nos sair bem. Veio o ensaio técnico e a esperança foi aumentando. Desfilamos bem e ficamos em segundo lugar. Para o carnaval de 2018, pudemos fazer tudo “do zero”, do nosso jeito e mais calmos. Fizemos um verdadeiro projeto. Contratamos profissionais, não que os antigos não fossem supercompetentes. Aí que a nossa ambição realmente se tornou ganhar a Série A. O fruto desse projeto ficou bem claro também no carnaval desse ano, pois conseguimos trazer mais profissionais de ponta, sempre querendo mostrar que a Viradouro é gigante.

 

Foto: Lucas Benevides

gosta muito de samba e estava carente de uma escola no grupo especial. Como foi o trabalho para fazer com que essa comunidade comprasse a ideia?

Isso foi feito com um choque positivo. Aquele “Pessoal, voltamos! Somos capazes!”. Mais uma vez, quero exaltar os profissionais, como os diretores de carnaval Alex e Dudu, e o diretor de harmonia, o Mauro. Nos transformamos numa família e as pessoas sentem isso. Sentem o ambiente agregador e que, na liderança da escola, existe um carinho e amor que contamina positivamente cada um que ama a Viradouro. Essa volta por cima faz muito bem para a cidade de Niterói e também para a comunidade de São Gonçalo, que torce para a escola.

No samba-enredo de 2018, teve o trecho “Orgulho de ser comunidade” e, nesse ano, “O brilho no olhar voltou”. Como você se sente ao ser o “grande líder” dessas pessoas que, muitas vezes, saem correndo do trabalho para o ensaio apenas por amor à escola? Você se cobra muito?

Me cobro sim. Quando assumi a presidência, pensei: “Se eu não me sentisse em condições pra fazer algo diferente, era até melhor não entrar”. Fico feliz em ver o resultado atual. Em casa, sempre assisto os desfiles e ensaios para achar alguma coisa errada, que dê para melhorar. Quando assumi, tinham muitas dificuldades, dívidas e a barreira era imensa, mas há um amor grande por tudo que envolve a escola e tem, em todos, uma grande vontade de fazer acontecer. Ficar nas primeiras posições era um desejo muito forte. Então sempre me cobro em conseguir transformar toda essa mudança que tenho em mente, em algo que as pessoas possam entender: que a Viradouro voltou a se tornar uma escola competitiva. 

Qual a diferença em gerar o seu trabalho do cotidiano e uma escola de samba? Dá pra trazer um pouco de um trabalho para o outro?

Sempre penso em focar na parte “instituição”, ou seja, o que é uma escola de samba? De onde ela veio? Qual é a sua essência? A sua função social, cultural e humanitária? Paralelo a isso tem a competição. Acho que é necessário impor uma gestão mais empresarial na escola de samba, pois, para fazer um carnaval, é preciso todo um processo de logística nos barracões e com as pessoas. Esses dois caminhos têm que andar lado a lado, bem equilibrados, isso que faz uma escola grande. Estamos conseguindo na medida do possível, do nosso jeito, trabalhar bem essas duas partes. Movimentar a escola, dar orgulho da pessoa dizer que é Viradouro e, juntamente, fazê-la competitivamente forte. O samba tem as suas particularidades. Se mexe com paixão, então não adianta ficar sentado atrás de uma mesa de escritório e não ir para a quadra conversar e interagir com as pessoas.

A Viradouro, assim como a Vila Isabel, tem em comum uma diretoria jovem (você como o presidente e a Vila com um vice bem jovem). Como você vê essa renovação no mundo do samba? Os mais antigos te receberam bem?

Eu acho que renovação feita com responsabilidade, carinho e paciência, sempre será sadia. A troca de experiências entre as gerações faz bem, principalmente no mundo do samba. No caso da Vila Isabel, por exemplo, é uma escola com quem tenho uma relação maravilhosa. Tem gente também que não é nova de idade, mas é nova de ideia. Ultimamente, tem surgido novas cabeças que, com as cabeças antigas, têm tudo para ser benéfico. Ainda mais comigo, porque tenho um perfil mais calmo e gosto de conversar.

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