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Rascunhos Nus

A coluna do publicitário, capricorniano e escritor Hugo Rodrigues fala sobre relacionamento, romance e comportamento. São os dilemas que tornam a vida mais interessante

Finge e foge

Era como se fingir de morto para não morrer. Sei lá. Comecei de maneira depressiva e você já deve estar pensando que será algo triste. Não sobre morrer. Mas sobre fingir. Tem gente que acredita que falsear algo pode ser crime ou falta de caráter. Eu penso mesmo que fingir algo diante dos seus olhos gigantes com cílios levantados pode ser a única saída sadia para eu continuar com vida aqui, neste segundo após você dar as costas, tchau, a gente se vê por aí, essas coisas bestas que a gente se diz porque não sabe como dizer que queremos que um de nós tome o primeiro passo e assuma que o passado já passou e que devemos escrever novas histórias.

Assim do tipo de quem descobre que a vida, realmente, não volta. A vida é uma linha reta em direção ao nada, como um horizonte que liga um lugar bonito a qualquer outra parte do mundo, mas não volta. Nunca. Entende isso? Entenda isso. Não volta. Temos a brincadeira irônica do tempo que nos empurra para frente como paredes assustadoras em filmes de terror, meio Stephen King filmando uma versão de Jogos Mortais.

Dentro das nossas cabeças, acredito, inclusive, que tudo se desenha mais facilmente. Como se a gente tivesse sonhado um com o outro durante toda a madrugada, mas pela manhã acabamos esquecendo de tudo, tendo apenas pequenos flashes de memória como déjà vu soltos que parecem não dizer nada, mas, no fundo, no fundo, nos mostram, enfim, que já vivemos ou queremos viver tudo aquilo. A vida anda pra frente, mas dá brecha para você parar o tempo. 

A gente sabe disso, mas finge. A gente foge. Essas coisas. Fingir de morto, embora a gente esteja mesmo vivos, aqui, muito vivos e energéticos como nasceres do sol em pleno verão carioca, mas tudo bem, nem todo o mundo gosta de verões e dias de sol, mas você combina com eles como qualquer par de dançarinos do Bolshoi e ficamos aqui como palhaços do circo da esquina que aspiram um dia ser do Cirque du Soulei, e quem sabe assim divertimos um ao outro de maneira mais bonita e enfeitada. Talvez fingida também, mas agora sem o teor do medo de morrer; mas o medo de continuar vivendo uma vida morna e besta sem a presença um do outro. Sei lá. Não sei falar sobre fingimentos.

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