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Fora do óbvio

Desbravar lugares de culturas diversas é uma forma de ampliar o conhecimento e acumular experiências

Para Adriana Lage, o mundo foi feito para ser explorado. São 25 anos de viagens, mais 300 cidades de 40 países, como Myanmar, na Ásia

Foto: Arquivo pessoal

Viajar por si só demanda um certo desprendimento, seja do conforto do lar, seja das pessoas à sua volta, que nem sempre podem ser companhia na viagem. Alguns viajantes preferem optar por destinos não convencionais, “diferentões”, que passam longe dos pontos turísticos mais visitados mundo afora e no Brasil. Imagine, então, viajar para cidades e países “desconhecidos” da Ásia por nove meses. É o que está fazendo Adriana Lage, de 44 anos, formada em Letras, professora de inglês por 20 anos e diretora-proprietária de uma escola de idiomas para aviação por sete anos. O inglês está sendo imprescindível para a comunicação, ainda mais porque ela viaja sozinha e sem roteiro fechado.

Atualmente, Adriana produz conteúdo sobre viagens para o público do Brasil e do exterior e tornou-se referência no turismo de experiência. São 25 anos de viagens, mais de 40 países e 300 cidades bem explorados. Para esta matéria, ela conversou diretamente do Vietnã, mas, antes disso, já havia passado por outros sete países: Sri Lanka, Tailândia, Cingapura, Camboja, Mianmar, Malásia e Indonésia.

“Poderia ter conhecido uns 20, mas meu estilo de viagem é de imersão. Gosto de explorar um país mais a fundo, experimentar a vida como os locais, visitar cidades e atrações menos conhecidas. Viajo desde os 20 anos. Sempre fui fascinada pela diversidade de belezas, culturas e povos do mundo e dediquei meus rendimentos e tempo para isso. Quando encerrei minha carreira como empresária, decidi me dedicar às viagens e ao site exclusivamente (acamminare.com). Pesquiso destinos bonitos ou interessantes fora do roteiro batido para incorporar ao meu planejamento. Sempre olho a lista dos Patrimônios da Humanidade da Unesco”, destaca. 

A viagem mais longa de Adriana tinha sido em 2005, quando passou 50 dias fora de casa, 25 no Egito e, em seguida, 25 na Austrália. No Egito, conheceu lugares menos visitados como Abu Simbel, onde estão os dois templos construídos no complexo a mando do faraó Ramsés II, no século XIII a.C. Ambos símbolos de um dos maiores impérios do mundo, um dedicado ao faraó e o outro à sua esposa favorita, Nefertari. O complexo Abu Simbel foi considerado parte do Patrimônio Mundial em 1979.

“O Egito foi a realização de um sonho de infância. Crianças querem ser bombeiros, astronautas, modelos. Meu desejo era ser arqueóloga. Estudei sobre a história egípcia durante um ano. Sempre desejei fazer uma viagem longa, mas as raízes no Brasil me impediam: trabalho, relacionamento, contas a pagar, falta de recursos. Até que comecei a planejar essa que estou fazendo. Entreguei meu apartamento e não tinha o que fazer com os móveis. Guardar num depósito geraria mais custo e não teria tempo de vender. Resolvi doar quase tudo”, afirma.  

Adriana fez o passeio no famoso Expresso do Oriente, conheceu o Templo de Prat Chiang Mai e a cidade de Bangkok, ambos na Tailândia

Foto: Divulgação / Nat Geo China

De acordo com a viajante, não foi fácil tomar essa decisão, mas foi libertador. Já sobre as recordações de viagem, ela explica que, com o tempo, percebeu que não faz diferença ter mais um souvenir de determinado lugar: as melhores lembranças são as experiências vividas. 

“O lado emocional é o ponto chave de fazer uma longa viagem. Acima de tudo, você tem que estar bem consigo mesmo. No meio do caminho, você encontra pessoas, faz amizades e se relaciona mais ou menos intensamente, dependendo do quão aberto está. As necessidades, buscas e desejos humanos são universais. Se tenho saudades da família? WhatsApp resolve!”, brinca Adriana, contando, ainda, que se encantou pela paz e segurança dos países budistas (Tailândia, Sri Lanka, Camboja e Mianmar), onde passou os quatro primeiros meses da viagem.

O desejo inicial de Adriana era passar um ano fora, mas o medo do desconhecido a fez ser prudente e comprar a passagem de volta para quatro meses, para o caso de não se adaptar. Entretanto, algo a dizia que isso não aconteceria. 

“Foi mais um conforto psicológico do que planejamento. Neste momento, não tenho muitos planos. Estou aprendendo a viver um dia de cada vez e este pensamento traz uma tranquilidade muito grande. A única certeza do momento é continuar viajando”, ressalta.

Longe de casa, o arquiteto Paulo Roberto Freitas, 55, está em Estocolmo neste exato momento, mas respondeu a entrevista direto da Islândia. Paulo é daquelas pessoas superpráticas que fazem a mala momentos antes de viajar e leva somente a bagagem de mão. As únicas coisas com as quais se preocupa são passaporte, cartão de crédito e todas as reservas de passagem, hotéis e plano de saúde internacional.

João Borges Barreto descobriu na pequena Patu, no Rio Grande do Norte, a paz interior

Foto: Arquivo pessoal

“Por já ter feito várias viagens ao exterior e no Brasil, já não crio nenhuma expectativa. Viajar, para mim, é uma grande terapia. Destinos não convencionais são, há algum tempo, uma prioridade. Já tenho programado e comprado para o ano que vem as cidades de Vilnius, Riga e Minsk, capitais das antigas repúblicas soviéticas Lituânia, Letônia e Bielorrússia”, adianta Paulo, que, esse ano, resolveu viajar para países onde a natureza fosse o principal atrativo. Foi, em abril, à Nova Zelândia, depois foi para a Austrália. A Islândia é um sonho realizado. 

“Fico nove dias e, depois, vou para Estocolmo por três. Essa será uma viagem de aventuras, aluguei um carro 4x4 para não ter problema. Com certeza não será a única viagem para cá, já tenho planos de voltar em um inverno para poder assistir à aurora boreal”, antecipa. 

Referente aos destinos chamados “exóticos” pela CVC, a empresa registrou, em 2016, um aumento de vendas/receita de pacotes  de 27% e no número de passageiros embarcados de 51% na comparação com 2015. Isso se deve a alguns fatores: barateamento dos pacotes, mais ofertas de voos saindo do Brasil e aumento da experiência de viagem dos brasileiros das classes A e B, uma parcela significativa de consumidores que, independente da crise, têm renda e tempo para realizar uma viagem especial pelo menos uma vez ao ano. Na lista dos destinos com maiores crescimentos em receita e passageiros entram países como os Emirados Árabes, com destaque para Dubai (131%), Tailândia (111%), África do Sul (109%), Egito (89%), Japão (63%) e Israel (32%).

“A CVC tem investido muito no programa Circuitos para Brasileiros. Identificamos que nosso passageiro viaja não só pela confiança na marca, mas também por saber que, na viagem, vai encontrar brasileiros, um guia falando português, o translado de chegada e saída e diária de hospedagem em hotéis pré-selecionados. É um roteiro programado que a CVC faz com antecedência para que o viajante saiba exatamente o que vai fazer e que lugares vai visitar. O número de dias começa a partir de sete e não é engessado. A gente faz com que ele consiga colocar a viagem no seu orçamento doméstico”, revela Bruna Castro, gerente de trade marketing internacional da CVC do Rio de Janeiro.

Quando o ato de existir exige da pessoa se doar ao próximo, tem gente que também viaja. A professora de línguas Alícia Madrid, 26, esteve na Hungria e na Bulgária em 2014, e permaneceu por seis semanas em cada um dos países fazendo trabalho voluntário. 

“Tive a chance de realizar dois projetos ligados à educação de crianças e adolescentes. Quando parti, estava muito animada para conhecer lugares tão diferentes e, ao mesmo tempo, ter uma experiência como voluntária. Já havia lido e pesquisado a respeito das culturas do Leste Europeu, mas ver tudo com meus próprios olhos foi imensamente mais emocionante. Essa é uma parte do mundo que possui um passado histórico muito rico, então há influências de vários povos e costumes”, observa Alícia.

Na viagem, Alícia sentiu algumas diferenças em relação ao Brasil no que diz respeito a costumes e hábitos: tirar os sapatos antes de entrar na casa de alguém, é relativamente comum pegar carona na estrada e as celebrações são feitas de outras formas. Ela passou a Páscoa na Hungria, e lá se pinta ovos de galinha para decorar as casas, mas não há ovos de chocolate. 

“Descobri que algumas culturas têm uma forma muito direta de se comunicar – o que pode parecer meio grosseiro até para nós, brasileiros – e que o alfabeto cirílico é tão difícil de entender quanto o árabe”, ressalta.

Alícia Madrid fez trabalho voluntário na Bulgária e na Hungria

Foto: Arquivo pessoal

Há, ainda, quem busque locais inusitados pelo mundo para descobrir sua própria história, através da história de seus descendentes. É o caso da advogada Mariana Tomita, 29, que foi com seu pai para Hiroshima e para a Ilha de Miyajima, no Japão, em 2011. O objetivo era encontrar parte da família e conhecer a história de seus avós, que vieram para o Brasil fugindo da Segunda Guerra Mundial.

“Em Hiroshima, fomos ao Museu do Memorial da Paz, local que representa a imensa tragédia vivida pela população, causada pela primeira bomba atômica. Um dos lugares mais tristes e impactantes que já fui. No Parque Memorial da Paz, além do museu, há uma chama da paz que queima em frente ao monumento até que todas as armas nucleares sejam abolidas. Foi muito marcante porque meus avós foram vítimas da guerra, só que eles conseguiram sair de lá e vieram para o Brasil para trabalhar em uma plantação de algodão. Meu pai, caçula dos oito irmãos, foi o único que nasceu no Brasil, em São Paulo, depois veio para o Rio estudar Medicina e aqui estamos, em Niterói”, conta. 

A 40 minutos de Hiroshima, usando trem e barco, chega-se à Ilha de Miyajima, na Baía de Hiroshima, no Mar de Seto. Segundo Mariana, o principal ponto turístico da ilha é o Santuário de Itsukushima e seu torii flutuante, mas a ilha também é conhecida pelo Monte Misen e pelos outros inúmeros templos, santuários e monumentos históricos. 

“A ilha é considerada sagrada pelos japoneses. Seu nome original Itsuko-shima significa ‘onde Deus reside’. Os edifícios do santuário estão ligados por corredores que se estendem sobre a água. Por isso, na maré alta, a estrutura inteira parece flutuar sobre o mar e não é possível aproximar-se do portal. No local também ficam muitos cervos, soltos entre os turistas”, lembra. 

No Brasil, também há cantinhos dos mais charmosos, carregados de história e cultura popular. O artista gráfico e estilista João Borges Barreto, 36, costuma ir para Patu, região do semiárido potiguar, no Rio Grande do Norte, para recarregar as energias na terra natal da sua mãe, onde a avó morou até sua morte, alguns anos atrás, e onde seu avô foi coronel de fazendas.

“Depois que minha mãe faleceu, comecei a ir sozinho. Há dois anos e meio, retornei a Patu, depois de um intervalo de 10 anos, e me apaixonei mais ainda. De lá pra cá, já fui cinco vezes, sempre para longas temporadas de, pelo menos, um mês e meio. É o lugar onde me sinto em casa, onde me sinto em paz”, assume. 

Pouco conhecido, o Sertão do Rio Grande do Norte, por si só, é muito belo e, de acordo com João, o clima árido e as secas fazem a paisagem se comportar de forma peculiar: em questão de dias, os tons terrosos e amarelados dão lugar a tonalidades de verde, contrastando com as rochas e serras. 

“Patu é especialmente bela por ser no pé da Serra do Lima, colosso de pedra que se ergue no meio de uma planície. Lembra um pouco o Costão de Itacoatiara. Lá existe um santuário bem exótico que lembra a ponta de um foguete, construído por padres alemães em cima de uma igrejinha original. Outra curiosidade pouco divulgada é que Patu é um dos melhores picos de voo livre da América do Sul, principalmente nos meses de agosto e setembro, quando acontecem térmicas perfeitas”, explica.

Thiago Jesus viveu a mais rica experiência de sua vida, quando foi a trabalho ao Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, onde conviveu diretamente com os índios Kuikuro

Fotos: Thiago Jesus (People’s Palace Projects/AIKAX)

Sorte daquele que pode encontrar no trabalho a oportunidade de conhecer lugares especiais e únicos no Brasil. É assim que se sente o niteroiense Thiago Jesus, 32, gerente de projetos culturais da People’s Palace Projects, organização artística do Reino Unido, um privilegiado que foi a trabalho para o Parque Indígena do Xingu, na região nordeste do Estado do Mato Grosso, na porção sul da Amazônia brasileira. A viagem foi em maio, mas, neste momento, ele está lá novamente, onde ficará por 20 dias. 

“A comunidade Kuikuro, no alto Xingu, dentro do Parque Indígena, possui uma população de mais ou menos 500 pessoas, entre elas um membro cineasta reconhecido e premiado, Takumã Kuikuro, diretor de ‘As Hiper Mulheres’. Ele começou o trabalho no projeto chamado ‘Vídeo nas Aldeias’, que ensinava técnicas de cinema na década de 90 para vários indígenas para que eles pudessem documentar as tradições, as histórias orais. A memória indígena é muito frágil”, conta.

Segundo Thiago, a ONG convidou Takumã para fazer um curta-metragem no Xingu e acabou fazendo uma parceria com a Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu. A ideia era levar artistas brasileiros e estrangeiros para fazerem residência artística na comunidade.

“O projeto nos orgulha muito. Tudo me marcou no Xingu. É uma experiência indescritível poder ver aquela natureza deslumbrante, os igarapés, os animais e, principalmente, chegar na comunidade e ser recebido pelas pessoas, além de dormir em uma oca, compartilhar comida... Tudo isso são experiências que não vou esquecer nunca. Foi a maior e mais transformadora viagem da minha vida”, comemora.

A viagem para o Parque Indígena do Xingu começa em um avião para Brasília, de lá 15 horas de ônibus para a cidade de Canarana, no interior do Mato Grosso, e, de lá, mais 2 horas de carro. Ainda pegaram um barquinho a motor, que comporta seis pessoas, e nele viajaram por 7 horas pelo Rio Xingu até chegar na Aldeia Ipatse, onde vivem os Kuikuro. Pura aventura.

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