Assine o fluminense

Grande dama

Em 'Tête-à-Tête' deste mês, o repórter Daniel Malafaia conversou com a atriz Nathalia Timberg

Nathalia Timberg vive nos palcos Iris Apfel, uma senhora que se tornou um fenômeno da moda e do estilo

Foto: Divulgação/Rodrigo Lopes
 

Uma vida dedicada à atuação. Essa é a trajetória de Nathalia Timberg que, aos 89 anos, interpreta Iris Apfel, ícone nova-iorquina do design e da moda, no espetáculo “Através da Iris”, até o dia 16 de dezembro no Teatro Maison de France, no Centro do Rio. A atriz carioca entrou para a história da TV brasileira por vários trabalhos, como sua participação na primeira versão brasileira de “O Direito de Nascer”, exibida pela TV Tupi São Paulo em 1964. Ela conversou conosco acerca de seu olhar sobre sua carreira e sobre os significados de dramaturgia para sua vida.

Como surgiu a oportunidade de interpretar a Iris Apfel um ano antes de completar 90 anos?
Na verdade, foi uma grande coincidência. Eu estou trabalhando direto e, para mim, isso não é sensível. Estou fazendo a Iris graças à relação de trabalho e conhecimento que tenho com o autor Cacau Hygino há mais de 20 anos. Ele me colocou a peça em mãos e achei interessantíssima, principalmente com a direção de Maria Maya, que tem um valor próprio e muito dom. Botei as mãos à obra.

Depois de mergulhar na vida e obra de Iris, você consegue identificar pontos em comum entre você e ela?
Eu tenho a impressão que nós, de certa maneira, vivemos um mesmo período de geração. Então, temos pontos em comum, sim, na maneira de olhar o mundo, se bem que com temperamentos bem diferentes. Em certas coisas temos situações quase que opostas. Ela é uma pessoa extremamente exuberante na maneira de ser e se apresentar, principalmente no trabalho que faz, e eu sou exatamente o oposto, sou mais low profile.

Depois de tantos anos de carreira, você considera fazer teatro um desafio?
Eu não vejo a perspectiva de não estar fazendo teatro. Nunca deixei de fazer. Eu não paro nem para pensar, me sinto exatamente a mesma. Claro que, depois de alguns acidentes de percurso fisicamente, às vezes eles me exigem um pouco mais de atenção, mas lhes dou a atenção necessária para fazer meu trabalho.

O espetáculo 'Através da Iris' está em cartaz no Teatro Maison de France

Foto: Divulgação/Rodrigo Lopes

Você acompanhou os primeiros passos da TV, fez história e, hoje, integra o extenso corpo de talentos da indústria televisiva. Como é sua relação com a dramaturgia na TV, dado o fato de você também fazer teatro, que possui uma linguagem diferente?
Realmente, são coisas diferentes. São formas diferentes de usar meu trabalho de intérprete. Evidentemente que, da mesma maneira que um ator de teatro faz cinema, ele pode fazer televisão, porque não deixa de ser um trabalho de comunicação com imagem, através de câmeras, apesar de terem diferenças pela forma como são realizados. Mas, em todo o caso, é uma forma distinta de me usar, com um aprofundamento diferente. Todos são de responsabilidade enorme. As pessoas, às vezes, avaliam equivocadamente a responsabilidade da comunicação pela televisão, pelo fato de ser muito eclética e variada. Eu acho que é o contrário. A grande força de comunicação que esse veículo tem devia ser encarado com muito mais seriedade do que normalmente é.

A arte, de modo geral, faz parte de um processo tão intrínseco ao indivíduo que, no decorrer do tempo, ressignifica seu olhar a respeito do mundo e, consequentemente, ressignifica a si própria. Dito isto, o que é dramaturgia para você e o que ela representa em sua vida?
Ela quase que representa minha maneira de estar no mundo, porque eu estou voltada para o teatro, para minha vida de intérprete, desde a infância. Então, ela só desenvolveu em mim, ao passo que eu fui crescendo como ser humano, uma responsabilidade maior, na medida que é uma arte eminentemente de comunicação e imediata, principalmente no teatro, que pode ser considerada a mais imediata de todas as formas de realizar o trabalho dramatúrgico. O espetáculo teatral é quase uma morte diária, porque é um evento único. Os componentes de um espetáculo teatral são o palco e a plateia, é o casamento dos dois que resulta no fenômeno do teatro.

Seu quilate no meio dramatúrgico pode ser observado através dos prêmios que acumulou no decorrer da carreira. Você acha que eles realmente representam seu valor?
Nem sempre. O prêmio maior que um artista tem é sentir que tocou as pessoas com as quais ele se comunica. Todas as coisas, desde o aplauso – que já é um prêmio – até qualquer estatueta ou a medalha, têm valor na medida em que você atingiu o objetivo de tocar. Na época em que eu me questionava como atriz e como ser social, tive um grande amigo e diretor que me disse: “Para com isso, no momento em que você está atuando sobre a sensibilidade e inteligência de um povo, você faz mais que qualquer concerto”. Esse tem sido meu maior prêmio, quando eu sinto que consegui esse objetivo.

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Veja também

Scroll To Top