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Lente Gastronômica

Igor Maurício Barreto é cozinheiro, restauranteur, consultor, palestrante e viciado em gente! E-mails para esta coluna: igormauriciobarreto@gmail.com

Hoje em dia, todo mundo é especialista

Hoje em dia, todo mundo é especialista. No meu tempo (adoro falar no meu tempo porque me gabarita a ser velho), as pessoas ouviam falar, sabiam por alguém, diziam que fulano disse sobre isso. Hoje não. Leu na internet, é verdade. Como diz minha tia, “Não iam deixar lá se não fosse verdade…”

Mas o que mais me deixa comovido é como as pessoas são especialistas em coisas que não são simples. Bactérias não são simples. Boas práticas na cozinha não são simples. Mas tem o cliente especialista. Esse, pela “verdade” que sabe até muda os procedimentos de gente que foi preparada para aquilo, tipo dar pitaca na montagem de um motor no mecânico.

Num evento de comida de rua, barraquinhas lado a lado. Admiro muito aqueles caras. Se viram nos trinta e fazem pratos e sabores incríveis. Estava observando um cara fazendo um arroz cremoso com alguma coisa que estava com um cheiro incrível. Não deu outra, fila esperando o cara acabar o tal arroz. Uma coisa me chamou atenção, ele fazia assepsia da mão a toda hora. Sempre que mudava de utensílio na mão, ou cortava alguma coisa, ou mexia o arroz, tacava-lhe álcool 70°. Me chamou atenção o fato dele não usar luva, porque eu não gosto de luva. Ela tem uma “maldição”.

Em meio àquela fila, na barraca ao lado, um sanduíche com uma cara fantástica. O cozinheiro estava animadíssimo montando na chapa em frente aos clientes. Daí aconteceu a “maldição” da luva. Ele, de luva, coçou o nariz. Voltou a montar sanduíche. Coçou a orelha, voltou a montar o sanduíche. Coçou o nariz de novo, e taca-lhe de montar os sandubas. Ele devia ter um cacoete qualquer. Mas ele estava “de luva”. 

Dentro da cozinha, precisamos lavar as mãos o tempo todo, e fazer a assepsia. Assim, se evita o grande vilão, o demônio da cozinha, a contaminação cruzada. Estamos em contato com microrganismos o tempo todo. Alguns moram em nosso corpo, mas o cuidado que se deve ter é não deixá-los crescer e se multiplicar ou se mudar pra onde não devem.

Então, na fila do tal arroz, uma moça começou a comentar com a outra “Á lá! Ele ta sem luva!”. OPA! Me liguei que achei uma “especialista”. Nem argumentei. “Eu sabia menina, te falei, li na internet.” Foi lá e desistiu da fila. Foi-se mais uma especialista. 

Ela devia estar com fome, e o que fez? Procurou quem estava com luva! Enquanto eu comia meu arroz maravilhoso, vi ela passando com o sanduba do “coçador”. 

Só torci para que ele não estivesse gripado ou com uma doença comum qualquer. 

Mas meu arroz estava um luxo! 

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