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Hora de quebrar tabus

Deixar para trás alguns preconceitos é o primeiro passo para manter a saúde em dia

A cada dois anos, mais de 68 mil novos casos de câncer de próstata são diagnosticados no Brasil

 

Muitos estudos de psicologia, no decorrer da história, se dedicaram à compreensão do que o corpo comunica. Os sentidos e os usos do corpo são só algumas das perspectivas de estudo capazes de nos fazer refletir sobre como nos posicionamos em relação ao mundo que nos rodeia e em relação a nós mesmos. Com o tempo, estamos tomando consciência de como o corpo se relaciona com as principais questões existenciais inerentes ao indivíduo, como os preconceitos, por exemplo, principalmente os ligados ao universo masculino, arraigado de fortes elementos simbólicos que configuram crenças e tradições limitantes. 

Uma das consequências que nos dá o aval de classificar essas crenças e tradições como limitantes é a questão da saúde, que, no universo masculino, padece em inúmeros aspectos, principalmente quando se trata de sexualidade. Em pleno século XXI, em um mundo globalizado, continuamos nos deparando com dados alarmantes, como o divulgado este ano, pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), que estima para cada ano do biênio 2018/2019, 68.220 novos casos de câncer de próstata diagnosticados no Brasil, o que representa que cerca de 1 a cada 9 homens será diagnosticado com o mal durante a vida. 

Esses dados são ligados a um mal conhecido pela sociedade, que constitui um tabu difícil de ser desconstruído, mesmo com tantas campanhas de conscientização promovidas pelo Governo e outras instituições. Mas, o tabu não se restringe ao caso da próstata. Segundo Marcos Antônio Ferreira do Nascimento, psicólogo e doutor em Saúde Coletiva pela UERJ, de modo geral, os homens cuidam pouco da saúde. 

“Isso não é uma característica exclusiva entre homens brasileiros, mas está presente globalmente. Padrões relacionados à forma como homens e mulheres são socializados e educados fazem com que as mulheres sejam as ‘cuidadoras’ da saúde delas, dos filhos, de seu companheiro e da família de modo geral. Existe uma naturalização de pensar que cuidado remete ao feminino e não ao masculino. Por isso fazemos uma associação quase direta entre cuidado e o feminino”, explica o especialista.

Nesse sentido, Marcos conclui que não é de se espantar que homens cuidem pouco da saúde e que sejam resistentes à procura de serviços de saúde. Segundo ele, solicitar ajuda é se reconhecer em alguma medida "vulnerável" e isso não faz parte do "repertório masculino". 

“Homens evitam se mostrar frágeis, vulneráveis e dependentes de ajuda. Por outro lado, nos últimos anos, há um esforço em organizar os serviços de saúde para estimularem a participação dos homens nesse espaço. Na maioria das vezes, os homens não reconhecem os espaços de saúde como um espaço para eles e sim para mulheres e crianças”, esclarece o psicólogo, que diz que, no caso da próstata, a situação se complica um pouco mais. 

Isso se deve ao fato de existir um tabu cultural acerca da penetração anal no caso do exame de toque retal. Para Marcos, isso, no imaginário masculino, faria esse homem menos homem, e macularia sua masculinidade. Com isso, a resistência a esse tipo de exame, considerado invasivo pelos homens, se dá mais por questões culturais do que qualquer outra coisa. 

“Ser penetrado significaria ‘perder suas credenciais masculinas’. Isso se explica por que todas as piadas e brincadeiras entre homens em relação a esse tipo de exame - como o tamanho do dedo do médico, se um sentiu prazer ou não durante o exame, etc. Como se a próstata e o reto fossem deslocados do restante. Ou seja, machismo faz mal à saúde”, analisa.

O câncer de pênis também é motivo de temor e medo

Foto: Divulgação

O psicólogo comenta que, da mesma forma que o toque retal no caso do exame de próstata, o câncer de pênis - que pode ser prevenido através da higiene e da atenção a pequenos sinais que possam aparecer na região - também é motivo de temor e medo, pois remete à possibilidade de impotência sexual.

“Há muita desinformação sobre isso. Na maioria das vezes, os homens nem sabem que existe essa possibilidade - assim como o câncer de mama entre homens, que é raro, mas também acontece. A higiene masculina, saber olhar o seu corpo e detectar ‘sinais estranhos ou diferentes’ é algo, sobretudo para uma certa geração de homens, inusitado. Saber que precisa, no caso de homens não circuncidados, puxar o prepúcio e lavar a glande durante o banho e/ou após a ejaculação, usar preservativo e estar atentos aos sinais que o corpo apresenta é superimportante”, alerta.

O coloproctologista José Antônio Dias observa que, com o passar do tempo, os homens vêm se preocupando mais com a saúde, buscando informações e também alguns cuidados no dia a dia, mas, mesmo sendo um comportamento positivo, a maioria ainda “foge” quando o assunto é cuidar do próprio corpo.

“Antes de mais nada, devemos tirar a ideia desse preconceito. Mostrar ao homem que ele também deve se cuidar. Mostrar que a saúde e o bem-estar dele, além de serem importantes para si próprio, são também para sua família e para a sociedade que convive. Devemos deixar explícito que os exames preventivos e regulares são as melhores práticas para se diagnosticar alguma patologia em sua fase inicial, e, consequentemente, a melhor forma de tratá-la com a menor chance de sequelas”, garante o médico.

Para ele, o papel do médico é o de desmistificar esses tabus e preconceitos que estão sempre relacionados aos cuidados com o corpo, mostrando, através de estudos, informativos, estatísticas e exemplos que a conscientização da saúde masculina é fundamental.

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