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Hora de realizar

Microempreendedores contam suas histórias de sucesso e de apostas em um mercado mais diversificado, da arte à culinária

Com cerca de 200 obras digitais, 15 mil camisetas, 500 canecas e 15 telas vendidas, Diego Moura se consolida como empreendedor perspicaz

Foto: Lucas Benevides

Muito se fala sobre o microempreendedorismo que surge pela crise, pela reinvenção a partir do desemprego, mas, nesta reportagem, não há sequer um caso nesse sentido. São pessoas que fazem o que amam, acreditam em uma ideia e faturam alto, seja financeiramente, em experiência ou em fruição. Diego abraçou a arte e, de desenhos no bloco de notas do celular, passou a pintar quadros e reproduzir em objetos; Luiza acreditou no seu bom gosto e aposta na ourivesaria para a criação de joias; Silvia partiu de uma descoberta pessoal para começar a produzir alimentos sem glúten e lactose; e Rafaella abriu seu primeiro negócio, uma tabacaria, em um lugar promissor da cidade. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o número de Microempreendedores Individuais (MEI) superou os 7 milhões em 2017. 

Uma exposição e uma pintura podem ser um divisor de águas na vida de um artista plástico e transformá-lo em um grande empreendedor. Foi o que aconteceu com o gonçalense Diego Moura (28), também designer gráfico e morador de Niterói. A exposição foi “A Magia de Miró”, com as obras abstratas do pintor catalão Joan Miró, que ele visitou no Espírito Santo em 2014. Já a pintura foi a que ele fez da cantora Lady Gaga, da qual é fã. 

“Saí da exposição com várias ideias na cabeça e precisei colocá-las para fora. Sempre tive o hábito de desenhar, mas nunca imaginei que pudesse trabalhar como artista. Hoje, minhas obras são 50% da minha renda. É algo que nasce dentro de mim e pessoas se identificam, acham legal, bonito. A arte comunica com os outros de um jeito que eu não posso influenciar, e assume significados diferentes. Quis desenhar a Gaga porque ela é uma fonte de inspiração para mim, e logo pensei na capa do álbum ‘Joanne’. Não imaginava que a imagem da obra fosse chegar até ela, e que eu me tornaria tão conhecido a partir disso”, comenta Diego. 

O artista faz os desenhos primeiro no celular, no Iphone, e alguns ele passa para a tela. De novembro de 2016 a janeiro de 2017, ele realizou sua primeira exposição, em São Gonçalo. Além das 20 obras expostas, ainda criou para vender no local camisetas, canecas e ecobags, todas estampando suas artes. Foi um sucesso: reuniu mais de 10 mil assinaturas no livro de presença. 

“Expor pela primeira vez foi o momento em que tive contato com o público e pude perceber o que estavam achando do que eu produzia. Aproveitei para conversar com os visitantes, explicar o conceito da minha arte, que chamo de Digitalismo”, afirma o designer, que é dono da página no Facebook e da conta no Instagram “Um dedo de arte”, onde compartilha seus trabalhos com os fãs, 6,5 mil e 15,4 mil respectivamente. Diego contabiliza 15 quadros vendidos – o primeiro saiu por R$ 400 (“Preta Poder”) e o mais caro, o da Amy Whinehouse, por R$ 6 mil, que foi para a Índia. Já as obras em formato digital foram cerca de 200, enviadas pelo Brasil e para países como Espanha, México, Estados Unidos, Venezuela e Colômbia. Vendeu ainda cerca de 500 canecas e 15 mil camisetas (só durante a exposição em São Gonçalo foram 500). Agora, ele está querendo alugar um espaço para ser seu ateliê. 

A designer e microempreendedora Luiza Cavaliere usa sua criatividade na confecção de joias

Foto: Lucas Benevides

Em 2016, foi criada a Meta Mobilizadora de Políticas de Desenvolvimento Implantadas pelo Sebrae. A meta está pautada na implantação da lei geral da micro e pequena empresa, focada em quatro eixos principais: desburocratização do processo de legalização de empresas; incentivo à participação das micro e pequenas empresas nas licitações municipais; fortalecimento da atuação do Agente de Desenvolvimento Local; e o estímulo à formalização do Microempreendedor Individual. De acordo com Flávia Guedes, analista de políticas públicas do Sebrae/RJ e gestora estadual do Programa Cidades Empreendedoras, Niterói foi a primeira cidade do estado em 2017 a implementar as metas. 

“Hoje, temos 12 municípios no estado com o mesmo status e com a mesma pontuação no sistema de monitoramento que é avaliado pelo Sebrae nacional. O Rio de Janeiro desenvolveu o game Cidades Empreendedoras, que se encerrará em março, no qual Niterói também está participando. O game é maior do que os quatro eixos da meta mobilizadora e fala de ambiente de negócios, capacitações, etc. Esta iniciativa se dá por entendermos que o desenvolvimento econômico local passa pelo desenvolvimento e fortalecimento dos pequenos negócios locais. Manter os recursos dentro do próprio território ajuda a aumentar as receitas próprias do município, melhorando a arrecadação”, avalia Flávia.

As mudanças que o Sebrae tem percebido no ambiente empresarial nos últimos anos são a diminuição do tempo de abertura de empresas, a desburocratização das licenças empresariais, o aumento do poder de compra dos municípios e de pequenas empresas locais, além da capacitação do corpo técnico das cidades.

“Estamos sempre de olho nas transformações verificadas após nossas ações. Hoje, cerca de 98% dos estabelecimentos são de micro e pequenas empresas, portanto, ter uma política pública que favoreça a permanência e o desenvolvimento de novas empresas ajuda no desenvolvimento de todo o município”, argumenta Flávia. 

De acordo com o Portal do Empreendedor, do Governo Federal, o número de microempreendedores individuais no País deu um salto de 81% nos últimos três anos, passou de 3,65 milhões de inscritos, em 2013, para 6,64 milhões em 2016. A lei que criou a figura do microempreendedor individual entrou em vigor em julho de 2009. De lá para cá, o número de microempreendedores passou de 44.188 naquele ano para 6,64 milhões em 2016, com uma adesão média anual de 1 milhão de pessoas. A designer de moda e joias Luiza Cavaliere (35) está entre os inscritos. Segundo ela, atualmente, abrir uma microempresa no Brasil é muito fácil, basta acessar o site e preencher com os seus dados para ser MEI. 

A partir das descobertas alimentares vividas na pele, Silvia Guinim criou a Panifique, de produtos artesanais sem glúten e sem lactose

Foto: Lucas Benevides

“As dificuldades estão em fazer todos os investimentos necessários de equipamentos, encontrar bons fornecedores de matéria-prima, abrir canais de vendas, divulgação, enfim, fazer o negócio girar, já que você está por conta própria. Como amo joalheria, escolhi aprender esse ofício por amor e o faço com prazer. Na maioria das vezes, vou para o ateliê com uma ideia e, enquanto estou realizando, já penso em outras joias, que surgem da mesma referência. É algo que flui com facilidade e acabo me afeiçoando às minhas joias”, considera. 

A marca criada por Luiza é a Cavaliere Design, de joias feitas primordialmente em prata, ouro, couro e pedras preciosas. No momento, ela está fazendo mais joias em prata com valor entre R$ 140 a R$ 380 e vende cerca de 35 peças – brincos, gargantilhas, anéis, alianças, pulseiras e braceletes – ao mês. 

“A Cavaliere tem alma, valoriza o natural e harmonia da forma. As peças são feitas à mão, carregadas de amor, força e beleza, são a expressão do poder criador feminino. Procuro estar o máximo de tempo no ateliê. Me divirto criando, cortando, lixando. É um trabalho braçal, machuca a mão, acaba com as unhas, mas, para mim, é muito prazeroso. Ser minha própria chefe significa liberdade de escolha, mas também tenho responsabilidade sobre todos os custos e investimentos”, pondera. 

Quem acaba de entrar para o mundo dos negócios é a jovem Rafaella Lobianco (19), também como MEI, em um negócio inusitado: a Make Smoke, loja com foco em artigos de tabacaria. Entre os itens à venda estão tipos de cigarros, charutos, essências, pipe, bong, narguilé, smoke mask, isqueiros, trituradores temáticos e tabacos, dos fortes aos mais suaves.

“Proporcionamos a experiência de poder experimentar na própria loja. Oferecemos também aluguéis de narguilé, tornando o local não apenas uma loja, mas um lugar onde as pessoas vão para socializar. Toda semana, recebemos produtos diferentes. A originalidade é uma característica da marca”, ressalta Rafaella, também estagiária de Direito. 

O negócio nasceu primeiro com uma conta no Instagram, mas, devido ao sucesso e ao interesse dos clientes em ver os itens pessoalmente antes da compra, Rafaella sentiu a necessidade de abrir uma loja física, que acaba de ser inaugurada na Babel 08, em Icaraí. O mais inusitado de tudo é que a estudante e microempreendedora não é fumante. 

“Decidi investir nessa área pelo que observo no dia a dia: o que mais me chama a atenção nas festas e na rua é o hábito que as pessoas têm de fumar e o interesse por esses produtos, além de não se tratar apenas de algo voltado para fumantes. Muitas pessoas nos visitam para ver os diferentes tipos de cinzeiros e narguilés, por exemplo, que acabam se tornando objetos decorativos”, observa.

A estagiária de Direito Rafaella Lobianco, de 19 anos e não fumante, acaba de abrir em Icaraí a Make Smoke, loja com foco em artigos de tabacaria

Foto: Lucas Benevides

Nunca é demais lembrar que o microempreendedor – criado em 2009 para que trabalhadores informais se legalizem – é isento de tributos federais, como imposto de renda, PIS e Cofins. O INSS é menor também, 5% do salário mínimo, e passa a ter direitos aos benefícios previdenciários, como auxílio-maternidade, auxílio-doença e aposentadoria. Para ser MEI é necessário ter faturamento anual de até R$ 60 mil. Outra vantagem é o baixo custo do programa: a taxa mensal paga pelos contribuintes varia de R$ 45 a R$ 50, dependendo da atividade exercida.

Em 2015, Silvia Guinim (40) criou a Panifique depois de uma experiência pessoal: uma visita à nutricionista. A partir das descobertas alimentares vividas na pele, com relação a mudanças alimentares – retirada de glúten e do leite – se viu motivada a incentivar pessoas aos mesmos hábitos. 

“A nutricionista me explicou o quanto faria bem para mim essa mudança, falou sobre a contaminação do glúten no Brasil e sobre o processo inflamatório que o leite causa na gente. O resultado foi tão satisfatório para mim em relação à saúde (aos resultados do hemograma), que decidi expandir para outras pessoas. Eu, que não tenho restrição, mas estava com queda de cabelo – alopecia –, achava uma dificuldade encontrar esses produtos, imagine para quem realmente não pode ingeri-los. Eu nunca havia trabalhado com gastronomia e decidi entrar no ramo”, lembra. 

A empresária poderia estacionar na sua zona de conforto e trabalhar apenas o seu público-alvo, mas, ao invés disso, ela quer fazer chegar no público em geral a opção de uma alimentação ligada ao estilo de vida. De acordo com Silvia, como é nova no mercado, só quem compra seus produtos é quem já conhece e sabe do diferencial. São pessoas preocupadas com o corpo, o bem-estar, a longevidade. Existe uma resistência em experimentar, em abrir mercado para novos públicos, e é exatamente esse o seu desafio.

“Há um preconceito de que tudo que é sem glúten e sem leite é ruim, sem sabor, seco. Aí eu me disponho a oferecer uma cortesia para a pessoa experimentar e peço um feedback. Acho que alguém só pode emitir uma opinião quando prova, sente o sabor. Alguns olham o preço do produto e acham caro, mas quem trabalha com isso sabe que não é. Por exemplo, eu só posso usar chocolate belga porque é o único que não tem traço de leite, e eu tenho essa certificação técnica. Mas não é um produto caríssimo. Não uso nada refinado, o açúcar é demerara ou mascavo. Os clientes sabem como a marca é conduzida”, destaca. 

A produção artesanal funciona em um espaço da cozinha industrial do bufê Marias e Amélias, da mãe de Silvia, Maria Amélia Pereira Guinim, e a microempreendedora participa de toda a cadeia de produção, além de cuidar da parte administrativa e financeira da Panifique. 

“No início, quando minha mãe experimentou meu primeiro bolo e disse o quão delicioso era, descobri que estava no caminho certo porque ela é supercrítica. Busquei pessoas que não são intolerantes para experimentar, porque agradá-las é mais difícil. Para eu convencer um intolerante é fácil: é só ter um pouco mais de sabor e tempero, porque os concorrentes são muito fracos, são indústrias, não são produtores artesanais como eu. Aqui em Niterói é mais difícil a oferta desses produtos e estou confiante com o crescimento da marca. Trabalho com muito amor e dedicação”, admite. 

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