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Lar sustentável

Cresce o número de pessoas atentas, que consideram o planeta como uma extensão da casa

A casa de Luiz Otávio Cocito, em Piratininga, segue os preceitos da arquitetura bioclimática, além de utilizar a energia solar para gerar energia elétrica

Foto: Evelen Gouvêa

Ao longo da história, o homem foi utilizando os recursos naturais acreditando que eles eram infinitos, até descobrir que eram limitados. Ao entender isso, por volta da segunda metade do século XX, criou-se o conceito de sustentabilidade, uma nova postura e novas práticas com o objetivo de preservar a natureza para as futuras gerações. Mais recentemente, chegamos à conclusão de que preservar não é algo que deve apenas ser delegado e exigido de gestores públicos e privados, mas também, uma atitude ao alcance de todos. Ter hábitos sustentáveis faz bem para o meio ambiente e também para a economia doméstica. Qualquer simples atitude que inclua reaproveitar algo, por exemplo, já diminui o consumo e, por isso, compromete menos os recursos naturais, além de economizar dinheiro, explica a empreendedora Maria Cristina Bernardo, de 36 anos.

“Me dei conta do desperdício na rotina de uma casa quando meu marido começou a trabalhar em uma empresa ligada a questões do meio ambiente. Sofri essa influência. Fiz até uma pós-graduação em educação ambiental buscando aprofundar meus conhecimentos sobre o assunto”, revela Maria Cristina, que, consciente da necessidade de uma vida mais sustentável em casa, também se tornou uma multiplicadora, transmitindo seus novos valores para outras pessoas. “Acredito na importância de pais transmitirem essas informações para os filhos. Ensinar de onde vem as coisas e o impacto que geram. Eu e meu marido cuidamos da nossa horta, reformamos móveis, reaproveitamos alimentos, abrimos mão do carro e consumimos tudo de um jeito mais consciente, evitando excessos. Isso acaba refletindo na educação de nossos filhos, que têm uma relação bem mais leve com o consumo, sem excessos. Eles cuidam bem dos próprios brinquedos e também adoram fazer arte com sucata”, revela, orgulhosa, a empreendedora. 

A sustentabilidade em casa é uma questão cada vez mais presente para quem trabalha nas diversas etapas da concepção de uma moradia. Da construção à decoração, diminuir o impacto sem perder o estilo tem se tornado um desafio.

“Hoje, as pessoas estão cada vez mais buscando incorporar em suas vidas alguma forma de sustentabilidade. Porém, sem fazer da estética do ambiente algo com cara de alternativo, a não ser que seja realmente um desejo explícito do morador. Não existe mais um estereótipo quando se busca sustentabilidade, o que existe é o público consciente do seu papel na sociedade de consumo e com desejo de fazer sua parte”, explica a paisagista Wanessa Monteiro.

Uma residência preparada com a preocupação de acolher bem seus moradores, mas que também produz o menor impacto possível sobre o espaço que ocupa, é sempre resultado de uma profunda reflexão, afirma o arquiteto Guilherme Corrêa.

“Hoje, esse é um trabalho que demanda do estilo de vida do morador, se ele tem ou não essa preocupação. Só a partir disso podemos criar ambientes sustentáveis. Mas um desejo cada vez mais presente entre os profissionais dessa área é ser sustentável sempre, em todo e qualquer projeto. A utilização de materiais reaproveitáveis, como uma mesa de demolição que já utilizei em um projeto, é um ótimo exemplo da boa experiência que tenho na união da sofisticação com a sustentabilidade”, destaca o arquiteto.

Um passo importante para iniciar uma atitude sustentável dentro de casa é lembrar que tudo que compramos ou usamos sem consciência será prejudicial ao meio ambiente, como explica Aline Novaes, pós-doutoranda em Comunicação e Sustentabilidade.

A paisagista Wanessa Monteiro e o arquiteto Guilherme Corrêa trabalham com a criação de móveis e peças de decoração sustentáveis

Foto: Lucas Benevides

“Precisamos entender que o descartado, o lixo, não sai do planeta. Ele fica aqui. Assim, antes de comprar qualquer produto, vale fazer a reflexão sobre se realmente precisamos dele. Se sim, optar por empresas comprometidas com o meio ambiente. Também precisamos entender a importância da coleta seletiva, que estimula e facilita a reciclagem. Ao invés de sair jogando fora, que tal reaproveitar, pintar ou colocar em outro cômodo?”, pondera.

Em Piratininga, em uma rua cheia de casas charmosas, uma em especial se destaca, pois vai além da aparência. Uma construção planejada para proporcionar conforto aos moradores sem que, para isso, precise consumir toda a natureza existente à sua volta, como explica o proprietário, o professor Luiz Otávio Cocito, de 43 anos.

“Para ter autossuficiência energética, tudo começa com um projeto arquitetônico que vai tirar proveito da luz natural e uma ventilação que traz conforto térmico simplesmente abrindo janelas. É o que chamamos de arquitetura bioclimática, capaz de gerar uma casa na região litorânea do Rio, onde, no verão, a temperatura chega facilmente aos 40 graus, mas que, ainda assim, consegue ter um clima agradável, sem nenhum aparelho ligado”, explica o professor, lembrando que até a decoração de sua casa conta com madeira de reaproveitamento.

Junto à iluminação e climatização, Luiz Otávio lembra que ainda existe um terceiro fator que demanda consumo de energia em residências: o aquecimento de água, que, em sua casa, provém do uso da energia solar. Segundo ele, no local, ainda existe a possibilidade de utilizar a parte elétrica, mas, desde a instalação do chamado sistema fotovoltaico – equipamentos capazes de gerar energia elétrica por meio da radiação solar – a energia produzida é sempre maior do que a utilizada. 

“Em um ano de geração de energia, já conseguimos zerar o gasto com esse consumo e até ter uma pequena sobra. Seria até possível transferir esse excedente para abater na conta de outra residência, mas preferi guardar para épocas em que eu possa ter um consumo maior, como Natal e Reveillon. Sustentabilidade só tem sentido se o retorno financeiro vier junto”, conclui Cocito.

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