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Lente Gastronômica

Igor Maurício Barreto é cozinheiro, restauranteur, consultor, palestrante e viciado em gente! E-mails para esta coluna: igormauriciobarreto@gmail.com

Qual será o futuro dos restaurantes do Rio?

Qual será o futuro dos restaurantes do Rio?

Ele não sabia bem o que pensar sobre o que estava acontecendo. Mesmo tendo saído da universidade de gastronomia há tanto tempo, apesar de jovem, era um estudioso. Não havia técnica ou método que não conhecesse, mesmo que não tivesse tentado, ele sabia minimamente sobre o que se tratava. Mas ninguém havia lhe falado sobre essa bagunça.

Seu sonho eram estrelas. Michelin se possível. Ter sua própria cozinha para fazer o que lhe conviesse, com sua equipe, escolhida a dedo, para executar à perfeição seu cardápio impecável. Não havia pensado em nada mesmo, já que ainda teria muito tempo. Afinal, mesmo em sua sapiência, os seus estágios em grandes restaurantes lhe renderam sabedoria, mas nada em Reais com R maiúsculo. 

Ele não tinha parado pra pensar nisso até conseguir seu primeiro emprego em um restaurante considerado mediano no Rio de Janeiro, com um chef que já foi famoso. Cardápio ousado, cheio de explicações técnicas e jargão culinário contemporâneo, mas que nunca estava com fila de espera nem era aclamado pela Luciana Fróes. Seu salário era um pouco abaixo do valor integral de sua mensalidade na faculdade. 

Mas ele sabia que era o início da batalha! 

Então, progrediu, até o restaurante fechar, entre as frustrações do ex-famoso chef expostas em suas criações pseudomodernas flertando com a mediocridade, e problemas de fluxo de caixa “inesperados”. Ainda ficou sem seu último salário, que finalmente era maior que a mensalidade, mas ele precisava vestir a camisa afinal. 

Com espaço no mercado com seu currículo cheio de estágios e crescimento anterior, conseguira uma posição interessante no restaurante de outro chef internacional, esse mais comedido, mas muito assertivo nos seus cardápios que apostavam nos clássicos. 

Para que não sabe, na Europa é comum rompantes dos chefs, grosserias e palavrões. Ele foi alvo de uma das explosões do chef que queria “puni-lo” lavando a louça. Isso ele não admitiria. “Já tenho uma história”, pensava, como se lavar louça fosse punição. Não se submeteu, e foi à procura. Lembrou da Vanessa, colega de turma da facul. Pediu um help para ela. 

Ela estava num dos mais tradicionais restaurantes do Rio. Comida europeia com chef uruguaio, esse, conhecido por ser um cavalheiro. O estabelecimento era unanimidade nos pratos e no trato com o público. Emprego dos sonhos, e Vanessa indicou. “Vê se não faz besteira”, disse poeticamente com o dedo em riste em sua face. 

Tudo indo muito bem. Adaptação perfeita, chef cheio de paciência pra ensinar, duro e exigente, mas sem xingar nem jogar nada em ninguém. Mesmo ganhando menos do que ele considerava que merecia, estava feliz. Dois anos de alegrias depois, o país eclodiu em Lava Jatos e brigas e disputas políticas, muitos deles frequentadores do tal restaurante. 

Pois que não é que o movimento começou a declinar? Menos vinhos caríssimos sendo vendidos, menos grandes barões indo até a cozinha elogiar, menos garçons, menos funcionários. 

Daí aconteceu. 

Souberam notícias de um concorrente fechado. Depois outro tradicional. O tal chef que lhe havia ofendido, demitido depois de tantos anos à frente daquela outra cozinha. Não deu nem tempo de sentir um gostinho doce de vingança na boca; as coisas foram ficando esquisitas, até mesmo a Vanessa tinha ido tentar a vida no Canadá. “Eles precisam de mão de obra como a minha!”, bradava ela.  

Veio a notícia como a bomba. “Vamos encerrar as atividades para voltarmos mais fortes em breve!”, disse o sócio investidor. 

Agora, estava ele sem entender, sem emprego e sem perspectiva, já que outros como aquele, até os mais tradicionais estavam fechando. Mas que diabos estava acontecendo?

Alguns amigos diziam que era uma fase de mudança. Outros, que era uma nova era, e outros que era apenas uma realidade e que a gastronomia morreu. Novas redes com preços mais competitivos e salários mais módicos surgiam. Seria o futuro?

Mas para ele era o presente. Nessa hora só queria arrumar um trabalho bacana, que pelo menos recebesse sua mensalidade de volta! 

Afinal o Rio não é mais o mesmo. E agora José?

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