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Longe de casa

Estudantes do Brasil e do mundo vêm a Niterói atrás de conhecimento

Zaguehi Michelle Stéfhanie Lago veio da Costa do Marfim, na África, para estudar na UFF

Foto: Marcelo Feitosa

O sonho de morar em outros lugares, conhecer pessoas, culturas e adquirir novas experiências é o objetivo de vários jovens que possuem a oportunidade de sair de casa para desbravar o mundo e descobrir a vida longe de sua zona de conforto. Dentre os inúmeros caminhos, Niterói é uma dessas cidades que abriga estudantes todos os anos, que chegam em inícios de semestres em busca desses sonhos e expectativas, com a coragem e, ao mesmo tempo, a insegurança de um passarinho que acaba de aprender a voar.

Belém do Pará fica a mais de 3 mil km de distância de Niterói, quase dois dias de viagem de ônibus e aproximadamente 4 horas de avião. Na aventura de sair de casa, Lucas Pipolos, 21 anos, veio do Norte do País e ancorou na Cidade Maravilhosa, em 2015. Veio estudar Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense (UFF), que fica em Niterói, mas como não conhecia ninguém, ficou morando os primeiros dois meses com uma amiga, que também tinha vindo de Belém, em Copacabana. “Vim para a UFF muito por acaso. Minha mãe estava se mudando para São Paulo e queria que eu fosse para alguma faculdade no Sul ou no Sudeste. Na época, eu pensava em fazer Ciências Políticas, Cinema ou Arquitetura, mas, quando vi o fluxograma de Ciências Sociais e descobri que o curso tinha disciplinas de Ciências Políticas, me inscrevi e passei. Hoje, estou no quarto período e pretendo, através do meu curso, unir todas as áreas que eu gosto”, explica Lucas. 

A adaptação em um lugar desconhecido é sempre mais difícil no início, ainda mais quando a ida para a terra natal é tão remota e inviável. Morando a vida toda em Belém, Lucas sentiu muita falta dos amigos e a proximidade que existia entre eles, um lugar em que todos conheciam as famílias, frequentavam suas casas e viviam sempre juntos. Em compensação, para ele, o clima e as pessoas de Belém são bem parecidos com os daqui de Niterói, inclusive por causa das praias e do calor. “A energia das pessoas não é tão diferente e, aqui, tem um clima tropical, que se aproxima muito da realidade da minha terra. Cada lugar tem as suas particularidades, por exemplo, em Belém, chove todo dia às 14h, a tradicional chuva da tarde. Essa transição é bem diferente e muito difícil no início, porque você fica na inércia esperando coisas que tinham lá e não espera coisas que só esse lugar pode te proporcionar”, reflete Lucas, que, depois de ficar um tempo em Copacabana, morou em uma casa no Morro do Palácio, onde sentiu de perto um choque entre as diferentes realidades que existem na cidade.

Para matar a saudade de casa, o estudante encontra seus conterrâneos e se diverte ouvindo tecnobrega, comendo coisas típicas da região e falando as gírias que só um bom paraense consegue entender. Além disso, no Rio, existem algumas festas com temática do Norte. “Dá uma sensação de que Belém pode ser transportado um pouquinho aqui pro Rio, através dessas pessoas. O modo de falar, a maneira de se comportar, o chopp de cupuaçu, o banho de cheiro, as músicas...”, admite Lucas.

Se estar longe de casa há mais de uma semana serviu de inspiração para que os músicos Evandro Mesquita e Ricardo Barreto compusessem uma das músicas de maior sucesso da banda Blitz, três anos longe de sua terra faz Zaguehi Michelle Stéfhanie Lago experimentar intensamente um dos sentimentos mais difíceis que quem decide se jogar no mundo acaba lidando: a saudade. Michelle saiu da Costa do Marfim, na África, em 2014, para terminar seus estudos em outro país e, desde então, não voltou mais. Escolheu o Jornalismo como curso e o Brasil como sua nova morada. Primeiro morou no Rio, onde aprendeu a falar português na UFRJ. Depois, se mudou para Niterói, para ficar mais próximo da UFF, onde faz Jornalismo.  “Fui na embaixada do Brasil para saber se conseguia ter uma bolsa de estudo. Como é um grande país, que todo mundo gosta, não tem como não querer descobri-lo. Aprender a língua foi umas das coisas difíceis, pois cheguei aqui falando só francês e um pouco de inglês. Com o tempo, comecei a me adaptar à cultura e à comida, mas ainda não consigo conviver com a violência”, desabafa. 

Durante o tempo em que está em Niterói, Michelle deu aulas particulares de francês e, atualmente, está à procura de estágio. No fim do ano, pretende visitar a sua família e ir no casamento de sua irmã mais velha. Aos 26, o que não falta para seu futuro são planos e sonhos, aos quais se agarra para enfrentar, dia após dia, longe de casa. “No início não era fácil, pensei em voltar várias vezes. Foi a primeira vez que morei longe dos meus pais e sinto muita saudade da minha família. Com o tempo, me acostumei, comecei a gostar e, de vez em quando, me dá vontade de ficar mais tempo aqui. Mas ainda pretendo morar em outros países, como Estados Unidos e Canadá, por exemplo, ou, se achar uma oportunidade boa na minha terra, fico por lá”, conclui Michelle. 

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