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'Meu filho não come!’

Má alimentação pode acarretar sérios problemas de saúde nas crianças

Sophia, de 6 anos, tem grande dificuldade para comer certos alimentos

Foto: Lucas Benevides

Na sala do apartamento em Santa Rosa, alguns brinquedos espalhados pelo chão. Carrinhos, arminhas de brinquedo e, também, dardos de borracha. Era meio-dia: o cheiro de feijão temperado junto ao chiado da panela de pressão deixavam claro que estava perto da hora do almoço. Antonio, de sete anos, já estava pronto para a escola, assistia à televisão enquanto estava sentado no sofá. Às voltas, Vanessa Avila, sua mãe, tentava fazer com que ele desistisse do prato de macarrão instantâneo com nuggets de frango que comia, incentivando para que comesse arroz com feijão - que, em minutos, estaria pronto. “Não quero”, insistiu o menino.

Contudo, essa situação não acontece apenas na casa do Antonio e da Vanessa. Segundo o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), as crianças estão consumindo cada vez mais alimentos altamente calóricos e também pobres em vitaminas e minerais. A pediatra Jéssica Pinha conta que, hoje, a obesidade infantil é a epidemia mais preocupante para a saúde. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 41 milhões de crianças até cinco anos estão obesas ou com sobrepeso.

“Tudo isso é fruto de uma má alimentação e péssimos hábitos alimentares. Por isso, sempre friso a todos os pais que, desde o nascimento da criança, é necessário oferecer uma alimentação saudável. Se, desde sempre, os hábitos forem corretos, a criança crescerá e se desenvolverá satisfatoriamente”, explica a especialista.

Mas é preciso lembrar, também, que, além da obesidade, a hipertensão, a anemia e o colesterol alto são outros malefícios que podem acometer crianças com má alimentação. A hábitos alimentares ruins somam-se, também, quadros de subalimentação.

Evandro Filho, de 10 anos, enfrenta, hoje, os reflexos da falta de ferro em sua formação neurológica, causando, inclusive, dificuldade de memorização e de aprendizado. Sua mãe, a empresária Maria Neumira, conta que, desde que introduziu alimentos à nutrição do menino, tem dificuldades com Evandro.

“O sonho de toda mãe é, na verdade, que o filho coma um bom arroz com feijão. Mas, infelizmente, sempre tentei e nunca consegui fazer com que ele comesse. Hoje, se ele tenta comer esse tipo de comida, ele vomita na hora. Sua criação foi praticamente à base de vitaminas de banana com leite em pó e complemento alimentar, tentando substituir as ‘refeições pesadas’. Ele precisou fazer tratamento pela falta de ferro: teve anemia”, conta a empresária, acrescentando que a dificuldade de aprendizado do filho causou até mesmo problemas no andamento escolar de Evandro.

“Fomos a todos os médicos possíveis e nenhum conseguiu definir, exatamente, uma anomalia que causa essa repulsa à alimentação. Foi concluído, então, que é algo psicológico. De certa forma, a mente do Evandro recusa a alimentação. Assim, ele ‘coloca tudo para fora’. A única saída para nutri-lo, então, foi deixar que ele procurasse pelos alimentos quando estivesse com fome. Infelizmente, o que procura são biscoitos, batata, leites fermentados, achocolatados e sucos industrializados. Devido ao tratamento com vitamina C, hoje, consegue ter uma melhor qualidade de vida”, conclui Maria Neumira.

Evandro Filho, de 10 anos, enfrenta hoje os reflexos da falta de ferro em sua formação neurológica, causando, inclusive, dificuldade de memorização e de aprendizado

Foto: Marcelo Feitosa

O peso e, até mesmo, a altura correspondente à idade da criança podem ser seriamente afetados com a falta de nutrientes. Em casos de correção de carência de nutrientes, os pequenos podem até ganhar peso, porém, ainda carregarão o baixo crescimento. Isso corresponde à desnutrição pregressa, ou seja, sempre haverá consequências.

“O corpo em desenvolvimento necessita de nutrientes e energia aumentados. Na falta dos mesmos, pode ocorrer danos que a criança levará para toda a vida”, explica a nutricionista Patrícia Bertoni, frisando que, por mais que fique difícil, é possível, sim, tentar reverter esses casos. “É preciso paciência, persistência e, muitas vezes, ajuda profissional para que ocorram mudanças. Forçar a criança ou ameaçá-la com certeza não será a solução adequada”, conclui a especialista. 

Ana Paula Viana, fonoaudióloga especializada em alimentação saudável, percebe que muitas famílias entendem, sim, a importância de mudanças de comportamento.

“Assim fica fácil compreender que o melhor argumento para criar bons hábitos, inclusive os alimentares, é o modelo correto. Já acompanhei casos em que os próprios pais passaram a incluir mudanças alimentares nas suas rotinas por causa da maneira correta de alimentar a criança. Mais frutas, novos sabores, consistências alimentares corretas, como, por exemplo, comer frutas inteiras ao invés de amassadas, cozidas ou descascadas e picadas, foram hábitos inseridos no cotidiano de várias famílias. Essa mudança de rotina é um grande aprendizado e progresso para toda a família”, identifica.

Para a pediatra Jéssica Pinha, não adianta tentar inserir uma alimentação saudável à criança se, ao olhar para o lado, ela vir o prato dos pais repleto de carboidratos e frituras.

De acordo com a nutricionista Patrícia Bertoni, no quadro de má alimentação, a dificuldade de inclusão de novos alimentos é frequentemente enfrentada pelos pais. Segundo a especialista, a criança se recusa a provar.

“Ela chega ao consultório e não conhece os alimentos, o que mostra que ela pode não ter tido o contato suficiente, não provou ou não foi orientado sobre a importância de bons hábitos alimentares. A saúde pode ficar comprometida nos dois casos, nas faltas, mas também nos excessos. Precisamos entender que a inclusão de alimentos ultraprocessados, por exemplo, terá efeito acumulativo e nocivos à saúde da criança”, afirma a nutricionista. 

Carolina Maia, madrinha de Sophia, de 6 anos, conta que dar certos alimentos à afilhada é uma grande dificuldade da família.

“Ela não come um legume sequer. Nem verduras. Nem frutas. A maioria das refeições é, apenas, com caldo de feijão, arroz e farofa. Sucos, só se for de maçã e caju. E de caixinha! Leite, só com achocolatado: e acaba tomando demais. Ela não come e, acima de tudo, não se permite experimentar novos alimentos. Diz que não gosta sem mesmo provar”, descreve Carolina, acrescentando que cozinham no feijão beterraba, abóbora e inhame, para ajudar no fortalecimento da menina.

A nutricionista Patrícia Bertoni afirma que toda criança tem gostos pessoais, contudo, como qualquer outra pessoa, também copia exemplos.

“Muito difícil a criança querer comer uma fruta se no seu ambiente vê consumo de alimentos ricos em açúcares, gorduras, com embalagens coloridas e atraentes. Isso não se restringe aos hábitos dos pais, mas também dos avós, dos amigos, do colégio”, conta a nutricionista.
Apesar da opinião da nutricionista, Carolina afirma que houve, sim, incentivo da família para que Sophia variasse o cardápio, mas sem sucesso.

Alimentação primária 

Como recomendação do Ministério da Saúde, a melhor alternativa de alimentação nos primeiros anos de vida é a oferta de leite materno exclusivo. A fonoaudióloga Ana Paula Viana afirma, até, que não há necessidade de oferecer nenhum outro alimento ou líquido - inclusive água, chás ou suquinhos para os bebês até o sexto mês de vida.
“Após este período, é preciso continuar amamentando, mas começar a oferecer frutas, legumes, folhas e carnes em pequenos pedaços. Hoje, valorizamos muito a ideia da alimentação caseira, do respeito à cultura e tradição de cada lugar. Como o Brasil é muito grande e cada região tem suas características distintas, não há como recomendar um cardápio único para todas as crianças. O importante é a criação do hábito das refeições em família, da alimentação regional e da utilização mínima de alimentos ultraprocessados”, explica Ana Paula.  

A especialista ressalta, ainda, que é preciso lembrar que as mesmas estruturas usadas para sugar, mastigar e engolir - ossos, músculos, articulações -, são aquelas que serão usadas para falar. “Ou seja, bebês que não mamam no peito ou o fazem por um curto período, além daquelas crianças que levam muito tempo para receberem alimentos sólidos, estimulam estas estruturas de forma inadequada, o que geralmente leva a alterações na dentição, na articulação das palavras e na comunicação como um todo”, elucida.

Ana Paula percebe que a vida corrida que muitos levam atualmente é o principal argumento para que pais optem por “alimentos práticos” para seus filhos. Para ela, muitos deles não deveriam, sequer, ser chamados de alimento. “Há, ainda, uma grande desinformação geral por parte da sociedade, que faz com que muitos ainda acreditem em propagandas que vendem os leites artificiais como ‘substitutos do leite materno’ ou que produtos ‘com menos X% de sódio ou de açúcares’, de fato, não mantenham em sua composição quantidades altíssimas dessas substâncias”, explica a especialista. 

Nesse contexto, no IV Encontro Nacional de Alimentação Complementar Saudável (ENACS), acontecido em Florianópolis entre 22 e 25 de novembro, foi dito que “todos concordam e se preocupam com o risco de utilização de gasolina adulterada para abastecerem seus carros e por isso ela é proibida e há fiscalização. No entanto, alimentos adulterados, que serviriam para abastecer a máquina humana - inclusive aquelas ainda em formação -, são perfeitamente aceitos e cada vez mais utilizados”.  
A fonoaudióloga afirma que refletir sob esse ponto de vista já seria um bom começo para que todos conseguissem escolher melhor como querem “abastecer” nossos filhos. 
“Já está comprovado: amamentar e oferecer uma alimentação complementar variada gera adultos mais inteligentes e bem-sucedidos profissionalmente”, conclui a especialista. 

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