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Moda consciente

Dayana Molina é a única representante em Niterói da ONG Fashion Revolution

A estilista e produtora de moda Dayana Molina é a única representante em Niterói da ONG Fashion Revolution, presente em 95 países

Foto: Lucas Benevides

Acreditando que seu discurso não pode ser diferente de suas práticas, a produtora de moda e estilista Dayana Molina (29) tornou-se, em 2015, a única representante em Niterói da organização não governamental Fashion Revolution, presente em 95 países. A partir disso, a niteroiense passou a respeitar ainda mais seu estilo de vida, simplificando seu closet e consumindo de forma equilibrada. Dayana é categórica ao dizer: “Só vencemos o ego consolidando nossas práticas, respeitando as diferenças, reconhecendo os talentos uns dos outros e nos unindo em favor de algo muito maior que nós mesmos. Mudar o mundo é utópico do ponto de vista geográfico, mas podemos começar pela nossa cidade”. Hoje, além de trabalhar como personal stylist para revistas, campanhas publicitárias e figurino, é responsável pela direção criativa da marca que fundou, a Nalimo, desenvolve pesquisas sobre consumo e dá aula de produção de moda. Estudou Design na PUC e Marketing de Moda na ESPM, onde atualmente faz uma especialização em Antropologia de Consumo.

Quando tornou-se uma preocupação para você a origem das roupas?

Sinceramente, sempre tive uma preocupação mínima em termos de consumo. Prezo pela exclusividade nas peças, e isso me inspirava a consumir as roupas da minha avó, estilistas autorais, brechós ou as roupas que eu mesma confeccionava. Na primeira viagem que fiz, não queria ir para shoppings. Tinha fascínio pelas roupas vintage e suas histórias. O que faltava era a consciência de forma mais abrangente. Por exemplo, saber em que condições as roupas eram feitas de forma geral. E outra questão é que, quando comecei a trabalhar como stylist, isso estimulava um consumo que eu não gostava. Sabe aquela besteira das pessoas reconhecerem que você é uma referência de estilo ou sabe tudo sobre tendências? Era isso. O meio profissional do qual fazia parte era fútil. Não me sentia representada por aquele comportamento. Sempre me sentia fora daquele padrão de consumo. Mas a indústria fashion te impulsiona a usar todas as tendências, o que, hoje, pra mim, não faz sentido algum. Tenho meu estilo pessoal e ético muito bem-resolvido. Não vivo baseada em regras. Tenho o propósito de liberar as pessoas de todas essas besteiras que os ensinaram até aqui. Hoje, mais madura, posso afirmar que as minhas atitudes sempre foram diferentes do senso comum. Antes, eu era vista como um ET, e hoje sou admirada. A vida é uma caixa de surpresas!

Como você conheceu a Fashion Revolution e como tornou-se a única representante da ONG em Niterói? 

Conheci o movimento na internet. Numa ocasião em que desenvolvia pesquisas comportamentais sobre consumo. E girou a chave dentro de minha mente. Com o FR, entendi a necessidade urgente de mudança. As nossas roupas não brotam das araras. Existem muitas pessoas por trás disso, e essas pessoas parecem invisíveis. Ainda no mesmo ano (2015), encontrei minha coordenadora nacional, a Fe Simon, numa ação no Rio. Ali, decidi me envolver de forma atuante. Em 2016, fui nomeada representante em Niterói, responsável por falar do movimento nas mídias, conscientizar, organizar e reunir pessoas locais interessadas em moda sustentável. Com esse time, fizemos uma programação incrível e aberta ao público em 2017. Durante o FRWEEK Niterói, mais de 400 pessoas passaram pelo evento. 

É um absurdo ainda hoje existir trabalho escravo em países mundo afora. Em muitos casos, são oriundos da indústria da moda, que paga valores miseráveis pela mão de obra de peças ou insumos para lucrar mais com a venda. Na sua opinião, como podemos atuar de forma a coibir essa injustiça e desumanidade?

O primeiro passo é consumir menos. Essa é a forma mais objetiva de coibir esse tipo de injustiça. Nós somos responsáveis por tudo o que consumimos. O que significa que, na prática, potencializamos isso dando poder econômico às marcas que atuam de forma negativa. Quando compramos a marca fast fashion ou outras grifes envolvidas em denúncias, aplaudimos suas práticas abusivas. Pesquisar a origem de nossas roupas e a forma como são feitas traz à luz essas respostas. Além disso, lembrar que a melhor roupa é aquela que já existe e deve ser bem-cuidada ou reaproveitada.

A Fashion Revolution criou a hashtag “Quem fez minhas roupas?” e, desta forma, consegue atuar nas redes sociais de forma massiva, tentando conscientizar a população e os empresários sobre a importância de saber a origem do que se veste. Você acha que desta forma combate-se diretamente o problema?

Nós queremos que você pergunte: “Quem fez minhas roupas?” Porque o questionamento impulsiona a transparência. Essa ação incentiva as pessoas a imaginarem o “fio condutor” do vestuário, passando pelo costureiro até chegar no agricultor que cultivou o algodão que dá origem aos tecidos. Esperamos que o Fashion Revolution Day inicie um processo de descoberta, aumentando a conscientização sobre o fato de que a compra é apenas o último passo de uma longa jornada que envolve centenas de pessoas, realçando a força de trabalho invisível por trás das roupas que vestimos. Quando tagueamos uma etiqueta nas redes sociais, acontece um incentivo de práticas transparentes nos processos de produção. Uma atitude simples desperta um questionamento necessário. As marcas tagueadas respondem nas redes sociais. Geralmente, a maioria delas se dispõe a falar dos seus processos de produções. Outras não se pronunciam. Dessa forma, podemos entender quem vive práticas positivas ou não. Quem está disposto a mudar ou não. O que precisa ficar claro é que não fazemos apologias ao boicote ou ao consumo a nenhuma empresa. Nosso papel é conscientizar o consumidor. E a ideia é que o indivíduo faça suas escolhas mediante as informações que tem acesso.

De alguns anos pra cá, assim como o capitalismo está sendo colocado em xeque, o comportamento dos consumidores também está. Como você enxerga esse movimento? 

Acredito que grande parte das pessoas tem ido por um caminho de autoconhecimento, e a evolução pessoal faz parte desse processo. Como indivíduos, isso gera equilíbrio de dentro para fora. Você começa a avaliar o que realmente te faz bem, se você realmente precisa daquilo e a qualidade passa a ter mais sentido que a quantidade. Eu tenho uma análise bastante particular a respeito disso. Grupos de pessoas com esse comportamento mais consciente começam a consumir com mais significado. Tanto em termos de alimentação, quanto em termos de vestuário. Se tornou “cool” ser do bem, vegano, sustentável. Algumas pessoas dizem que o mundo tem uma tendência a piorar. Eu acredito que vai melhorar. 

Explique o papel da Fashion Revolution para o desenvolvimento da moda consciente e sustentável E como a ONG atua na cidade.

A moda é uma força a ser considerada. Ela inspira, provoca, conduz e cativa. O Fashion Revolution coopera para que a moda se torne uma força para o bem. Lola Young é criadora do Grupo Ética e Sustentabilidade de Moda no Reino Unido. Ela tem uma fala interessante: “O Fashion Revolution Day promete ser uma das poucas campanhas verdadeiramente globais a surgir neste século”. Eu complemento dizendo que isso se deve ao fato de fazermos com amor e consciência. Todos os voluntários envolvidos no FR mundialmente fazem juntos e fazem tudo o que podem. O que significa que, em unidade, somos mais fortes. Esse é o poder que pode mudar o mundo. O FR começou com um pequeno bloco de estilistas e, hoje, está presente em 95 países. Nossas campanhas ganham mais força a cada ano. Em termos de FR local, além do Fashion Revolution Week (que é a nossa principal atividade), nos encontramos para reuniões, conversas, discussões e atividades. Costumo atuar principalmente na representação do movimento na cidade. Disponibilizo o meu tempo em palestras, workshops, rodas de conversas, visitas às universidades e outros eventos que sou convidada.

Fale sobre o primeiro evento de 2018 do Fashion Revolution que vai acontecer em Niterói em abril.

Nesse ano, completamos cinco anos de movimento. Teremos atividades em pontos estratégicos da cidade, onde circulam grande número de pessoas. Nessa atividade, o intuito do movimento é conscientizar o niteroiense. Será uma ação surpreendente, de impacto e diálogo com a sociedade. A programação ocorre no período do dia 24 ao dia 27 de abril, e entre os locais predefinidos estão o Teatro Popular Oscar Niemeyer e a Biblioteca Parque. 

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