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Cresce o movimento child free, de homens e mulheres que não querem ser pais e mães

Jeicy Shine, cuja decisão de não ser mãe veio de forma mais tardia, aos 35 anos

Foto: Arquivo pessoal

Por muitos anos, acreditava-se que, na vida amorosa, deveríamos seguir um roteiro: namorar, noivar, casar, ter filhos... Mas nem todo mundo concorda com esses costumes e opta por tomar um caminho diferente. A atual geração está deixando para trás diferentes estilos de vida, e, com isso, tomando à frente outras prioridades. 

Entre as diversas mudanças de vida está o desejo de não ter filhos. Visto com estranheza por muitos, a configuração familiar vem mudando com o passar do tempo. De acordo com uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dez anos, de 2005 até 2015, aumentou-se de 15,2% para 20% o número de casais sem descendentes. Segundo a neuropsicóloga e psicóloga de família Rosa Prista, diversos fatores podem influenciar nessa decisão.

“Esta é uma opção pessoal, muitas vezes centrada em alternativas individuais. Toda escolha sobre nossas vidas pertence ao campo da subjetividade e está vinculada ao nosso processo histórico de vida. Tudo que vivemos está implícito nas nossas escolhas. Muitas pessoas não querem ter filhos, ou preferem adotá-los ou simplesmente viver sozinho ou com algum companheiro, eternizando sua liberdade”, explica.

Para Ana Beatriz Neves, cientista social e produtora cultural de 43 anos, a decisão de não passar pela maternidade veio naturalmente em sua vida. Desde muito nova, já era decidida quanto à sua opinião, e destacou que não precisa ter um filho para se sentir completa como mulher. 

“Um dos motivos da minha decisão é que sou caçula de cinco filhos e tenho uma diferença grande de idade entre meus irmãos. Fui muito participativa na infância deles e também ajudei a cuidar dos meus sobrinhos. O outro motivo é que já tenho uma ótima família e me sinto totalmente completa”, pontua Ana Beatriz, que ainda conta que foi casada e sempre deixou clara sua vontade de não ter filhos, apesar de seu ex-marido ter o desejo de ser pai. Segundo ela, em nenhum momento houve pressão de sua parte e o relacionamento era baseado na liberdade, ou, como preferiu intitular, era como uma “pós-adolescência”. 

Ana Beatriz Neves, que decidiu não ser mãe quando percebeu que um filho não a faria completa

Foto: Lucas Benevides

“Já oscilei entre a vontade de ter filhos ou não, mas, sempre que parava para pensar, logo vinha a resposta: não quero. Tenho pais idosos que demandam atenção e sou uma cuidadora para eles. Não tem isso de ser fria ou seca, é apenas uma opção minha”, conta Bia, que também destaca o apoio de sua família e amigos na sua opção de vida.

Apesar de ter recebido apoio, ainda há pessoas que passam pelo julgamento de familiares por conta da sua decisão, principalmente por parte da mulher. Segundo a psicóloga Rosa, isto acontece pois ainda somos uma sociedade muito preconceituosa.

“Existem diferentes formas de ver o mundo. Criticamos todos os que não seguem os nossos modelos ou escolhas porque ainda há muito preconceito. Posso escolher o que quiser desde que não interfira na vida do outro. Este padrão é ético, mas nossa sociedade vive sobre o princípio da moral. Além disso, o papel da mulher ainda é muito visto ligado à maternidade”, orienta.

Para a assistente de departamento pessoal Jeicy Shine, de 48 anos, a decisão veio de forma mais tardia. Até os 35 anos, tinha a vontade de ter um filho, menino, que se chamaria Igor, mas a experiência de morar sozinha e não ter qualquer tipo de preocupação ou alguém para cuidar a agradou tanto que a fez mudar de ideia.

“Não foi algo que percebi de imediato, mas, aos poucos, fui gostando cada vez mais da minha liberdade. Por muito tempo, usei o fato de não ter um parceiro ou condições financeiras como desculpas para não ter filhos, mas, na verdade, queria continuar vivendo a minha independência”, admitiu. 

A psicóloga Rosa destaca que ter filhos é um ato de responsabilidade, que envolve cuidar, ter trabalho, abrir mão de alguns desejos e, acima de tudo, se responsabilizar por uma outra pessoa que chegará ao mundo.

“Há pessoas que eticamente acham absurdo fazer mais filhos quando há tantos abandonados. Ter filhos é sair de si em direção ao outro, mas há quem prefira ir em direção ao outro de formas diversas”, conclui.

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