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Rascunhos Nus

A coluna do publicitário, capricorniano e escritor Hugo Rodrigues fala sobre relacionamento, romance e comportamento. São os dilemas que tornam a vida mais interessante

Não tem sido difícil

Não tem sido difícil encontrar além que saiba sobre astrologia. Ou que pareça saber. Ou que finja saber. Eu não entendo nada sobre astrologia – nada além das doze casas porque aprendi na infância vendo Cavaleiros do Zodíaco – e por não entender nada, não consigo distinguir se uma pessoa sabe de verdade ou apenas finja saber. Ela me pergunta meu signo, meu regente, meu Saturno, minha lua e eu só penso estar numa consulta com a Susan Miller, ou numa canção do Ventania, meio chapado, meio viajante, meio Chaves cantando os-astronautas-vão-pelo-céu-capturando-os-planetas (deixemos claro que eu adoro a parte do que-giram-que-giram-que-giram).

Mas nada por aqui tem a ver com Chaves ou coisa assim. Ela tá ali na frente, sentada esperando se decidir entre mojitos e gim tônica, com uns traços bonitos que qualquer cara ou moça que goste de moça saberia apreciar, elogiar e até disfarçar se surpreender, eu me pego ainda feliz por ela vestir um casaquinho meio grande demais, onde a manga se transforma numa quase luva e eu acho isso tão aconchegante que pensei que ela poderia estar se sentindo confortável comigo, ao meu lado, na minha frente, enfrentado dúvidas simples ou complicadas, e a minha cabeça começa a viajar em relacionamentos sem fim que terminarão antes mesmo das três da manhã.

Vou-de-tônica-pura-amanhã-eu-acordo-cedo. Eu chutaria o mojito. Ela quer tônica, Schweppes, eu adoro esse nome, parece iogurte de criança ou até mesmo marca de pirulito japonês. Eu bebo cerveja. Ela não me perguntou, mas o garçom sim, que fique claro. Capricorniano-nossa. É o que sempre ouço quando falo que nasci em janeiro. Meu signo sempre foi um bom término de assunto, logo após o “nossa”, que eu não consigo ver, nem ouvir, mas com certeza deve ser um nossa-exclamação-tripla. Conversar pessoalmente tem dessas coisas de não lermos as pontuações e sinais que a gente se perde em quem não consegue, de fato, colocar o tom certo nas falas. Até pelos múltiplos sotaques que a gente carrega por aqui, nas ruas do Rio de Janeiro, numa miscigenação gritante.

Não tem unhas melhores do que as tuas, eu pensei, mas não falei. Aposto que ela preferia estar lendo o livro do nosso encontro ao invés de estar aqui me encarando mudo, capricorniano, com a cabeça viajando em poemas, we’ve-changed-honey-boo, em canções lunares, em cidades australianas que nunca irei, mas ela interrompe o meu silêncio e eu acho estranho alguém interromper o silêncio porque o silêncio já é uma interrupção, mas tudo bem, ela interrompe o meu silêncio como quem inventa uma pausa na pausa e diz, meio feliz, meio besta, meio irônica, que é taurina. Eu pergunto como-a-Anelis-Assumpção? Ela só ri, sem entender a referência e diz que capricornianos se perdem para as taurinas. 

Eu rio. Sem entender a referência. Perdido. 

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