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No limite

Diante do crescimento descontrolado do uso e descarte do plástico no mundo, há quem pense em alternativas dentro da cadeia produtiva para amenizar esse cenário a partir de setores como a moda, a arte e o design

A designer Aline Fidalgo decidiu produzir ecobags de pano com apelo fashion para serem usadas em feiras e até no supermercado

Foto: Lucas Benevides

Não é mais novidade que a vida na terra tem sido consumida pela própria intervenção humana. Construções, descartes indevidos, abusos indiscriminados de recursos naturais, entre outras práticas retratam um cenário cada vez mais cinzento e frio, que contrasta com os números divulgados pelo Ibope este ano, apontando que 91% da população brasileira gostaria de ter mais contato com a natureza do que tem hoje em dia, porcentagem que representou um “progresso” na consciência ecológica brasileira, frente ao dado apresentado em 2014, pela mesma instituição, em que 84% tinham a mesma vontade, 7% a menos.

Na pesquisa, o número de pessoas que atribuem ao próprio homem a responsabilidade de preservar os parques, reservas e florestas nacionais, também aumentou. Mas como fazer nossas ações acompanharem nossa evolução de pensamento, já que os vilões estão tão aliados ao nosso dia a dia?

No ano passado, a Organização Nacional das Nações Unidas (ONU) lançou uma campanha global em prol da redução dos resíduos de plástico nos oceanos, que é uma das esferas mais afetadas pelo produto em todo o planeta. O que contribui para a preocupação é a estimativa divulgada pelo Fórum Econômico Mundial, em 2014, de que, se continuarmos descartando plástico no ritmo que se vê hoje, até 2050 o número de plásticos no oceano superará o número de peixes. E o Brasil não está isento de culpa nesse processo, já que, em um estudo divulgado pela Revista Science, em 2015, o País aparece em 16º lugar no ranking dos 200 países que mais descartam lixo plástico nos mares e oceanos.

Todos esses números levam-nos a acreditar que o plástico é um dos maiores, senão o maior vilão do meio ambiente, mas Anna Carolina Lobo, coordenadora dos Programas Mata Atlântica e Marinho do World Wide Fund For Nature (WWF) do Brasil, conta que nem sempre foi assim. A explicação está na própria história do material, que foi criado no século XlX como uma solução.

“Olhando para a história do plástico, ele foi criado em uma época em que a sociedade humana usava madeira, marfim e outros produtos para fazer os manufaturados que precisava. Então, naquela época, o plástico representava uma solução para que não tivéssemos que usar tantos outros recursos naturais que estavam quase chegando em sua escassez”, esclarece Anna, que acrescenta a reflexão do que um dia foi uma solução. Hoje nós perdemos totalmente o controle. “Não sabemos descartar, e as pessoas não têm consciência do impacto que isso traz para o meio ambiente. Tem alguns estudiosos do plástico que dizem que, provavelmente, o primeiro plástico que foi criado, lá atrás, até hoje ainda não sumiu. Atualmente, não sabemos nem estimar quando eles vão desaparecer”, lamenta.    

Infelizmente, o plástico é um material facilmente banalizado, pois, apesar de ser produzido a partir do petróleo, chega ao mercado por um preço muito baixo. Segundo ela, o preço é só um dos fatores que levam à banalização da utilização do material por parte da população, que, por sua vez, acaba descartando sem se preocupar com o destino final do lixo que não é reciclado. Contudo, o maior dos males pode não ser identificado a olho nu, como exemplo do microplástico, que constitui um volume substancial na totalidade dos oceanos.

A empresária Isabele Delgado, dona de uma marca de roupa que utiliza fibra de garrafa pet na composição das peças.

Foto: Lucas Benevides

“A banalização tanto da produção como do uso, somada ao descarte inadequado, está resultando na estimativa de que até 2050 teremos mais plásticos nos oceanos do que peixes. Além do que a grande maioria das espécies marinhas que hoje estão nos oceanos, como peixes e vários outros frutos do mar, têm plástico no estômago. Pode não ser um plástico que a pessoa consegue enxergar, mas pode ser um microplástico, que é utilizado em muitos produtos, como, por exemplo, uma calça jeans ou um cosmético. Ainda não temos tecnologia suficiente para lidar com a questão do microplástico, então, quando um plástico é reciclado, o microplástico permanece. A cada lavada de produtos que possuem microplástico, ele vai embora pela pia, chega no curso do rio e, em algum momento, chega no oceano. Então tudo vai parar no oceano”, conta a coordenadora.

De acordo com Anna, de um modo geral, o Brasil tem uma das melhores legislações ambientais que já foram criadas no mundo, porém, tirando o fato de algumas ações do legislativo na atualidade terem tomado algumas decisões à revelia das leis já feitas, outro problema é a deficiência em estabelecer metas mais concretas para a diminuição do plástico.

“O Ministério do Meio Ambiente está tentando criar uma regulação dos plásticos no âmbito da política nacional dos resíduos sólidos. O plano era abrir amplas consultas públicas on-line até o fim deste ano para receber contribuições e depois acordar um plano com a sociedade e com o setor privado. Ocorre que o governo brasileiro está começando a promover essa discussão sem trazer algumas metas, que é o contrário do que a ONU tem feito. O braço de meio ambiente da ONU pretende que, até 2030, a produção e o descarte inadequado dos plásticos nos oceanos acabe. Com isso, em março do ano que vem, será votado na Assembleia Ambiental das Nações Unidas (Unea, em inglês), ligada à ONU, por todos os países signatários, a importância de fazer valer essa meta”, lembra. 

Pensando nesse cenário, o WWF tem um programa global que foca nas principais cidades que produzem plástico no mundo, para fomentar desde políticas eficazes nas grandes cidades até a criação de novas tecnologias que substituem a utilização de microplástico em produtos variados. Em 2015, foi iniciada a primeira atividade com esse foco, que consistiu na criação da Remolda, uma unidade de recicladora móvel, onde as pessoas descartam o plástico, que é triturado e esquentado, criando-se um souvenir a partir disso em poucos minutos. O órgão doou a máquina para uma cooperativa de catadores do Rio de Janeiro, o que faz com que eles tenham uma renda bem maior a partir do produto com valor agregado. Além da Remolda, o WWF, junto do Instituto Mar Adentro e outras ONGs, também promove todos os anos clean-ups de praia, que é uma proposta de recolher o lixo deixado indevidamente nas orlas.  

O artista plástico Getúlio Damado, que cria peças a partir do plástico que recolhe nas ruas

Foto: Lucas Benevides

Este ano, demos um passo importante na esfera legislativa com a sanção de dois Projetos de Lei (PL) que objetivam diminuir o uso do plástico tanto na cidade como no estado do Rio de Janeiro. A Lei 8006/18, sancionada pelo governador Luiz Fernando Pezão no fim de junho, proíbe os supermercados e estabelecimentos comerciais de distribuírem sacolas plásticas descartáveis, sendo substituídas por bolsas reutilizáveis ou biodegradáveis; e o PL nº 1691 de 2015, de autoria do vereador Jorge Felipe (MDB-RJ) sancionado pelo prefeito Marcelo Crivella em julho, obriga restaurantes, lanchonetes, bares e similares da cidade do Rio de Janeiro a usar e fornecer canudos de papel biodegradável ou reciclável embalados com material semelhante.

Fora desse panorama de maior abrangência, que pretende atingir objetivos de grandes proporções, podemos ter conhecimento de algumas iniciativas individuais que não são nem um pouco menos importantes. Um ramo como a moda, conhecido por ser um dos maiores responsáveis pelo consumo no mundo, também tem se posicionado perante as questões ambientais, e o plástico não ficou fora disso. A marca Ciclo Ambiental, fundada pela empresária Isabele Delgado, nasceu em 2003 inspirada na filosofia slow fashion, e utiliza em suas peças apenas materiais reciclados, como fibra de garrafa pet para a produção das roupas que usam poliéster, por exemplo. Tudo surgiu de um envolvimento que ela já possuía com o lado sustentável do ramo têxtil.

“Eu trabalhava em uma outra empresa, que se chamava Couro Vegetal da Amazônia, e fazia mapeamento e desenvolvimento de borracha natural na Amazônia. Nós trabalhávamos com os seringueiros e fazíamos bolsas com tecidos também de base ecológica. Quando surgiu a fibra de garrafa pet, eu fazia parte de um outro movimento, chamado Fórum de Lixo e Cidadania do Rio, porque sempre foi meu sonho trabalhar com reciclagem, mas eu vi que era muito difícil operar na ponta, e particularmente não tinha muito a ver comigo, já que eu vim da moda. Na mesma época, decidi abrir a minha empresa, a Ciclo Ambiental, para poder ter mais liberdade. De lá para cá, o que fazemos é utilizar tecidos de base ecológica, reaproveitar o máximo possível, também não embalamos nossos produtos em sacos plásticos, então nosso consumo de plástico é bastante restrito”, expõe Isabele. 

Atualmente, a empresa trabalha com as fases de produção de maneira terceirizada, com uma logística que atravessa os estados de São Paulo, Minas Gerais e a região Sul do País. O desenvolvimento das peças é feito pela própria marca, e a base dos materiais varia entre os fios de garrafa pet e os fios de algodão orgânico. Mas nem sempre foi assim. Segundo Isabele, o mercado já foi bem mais limitado do que é hoje.

Ao lado, algumas ações do WWF, como a coleta de lixo e a limpeza das orlas das praias

Foto: Divulgação/WWF

“A gente começou tendo que fazer todo o processo por uma necessidade, não tinha no mercado, e continua tendo ainda de forma muito restrita. Melhorou muito, antigamente não tinha nada mesmo, a gente produzia com a sobra de um projeto chamado Carência Zero, que pretendia organizar todas as cooperativas do Brasil. Hoje, a gente consegue comprar os fios, mandar tecer e tingir. Aqui a gente faz toda a parte de desenvolvimento das peças”, declara.

A empresária trabalha há tanto tempo com material reciclado que não consegue mais estimar o valor de uma produção em grandes escalas, como é feito nas grandes fábricas na China, por exemplo, mas, se levado em consideração o valor que ela compra as malhas e o desenvolvimento dos seus tecidos, Isabele Delgado considera ser um preço justo, que ela reitera ter a vantagem, ainda, das peças possuírem uma durabilidade muito boa, o que ajuda a agregar valor aos produtos.

Pensando em uma alternativa mais fashion para as ecobags, muito utilizadas ultimamente pelos frequentadores de feiras e hortifrúti, e até de supermercados, a designer e consultora de estilo Aline Fidalgo viu um potencial mercadológico e sustentável muito mais eficaz: as ecobags de pano. 

“Trabalho como designer há dois anos, mas comecei a produzir as ecobags no ano passado. Se você pensar bem, as próprias ecobags que vendem no mercado são feitas de plástico. Como sou consultora de estilo, pensei em inventar uma que tivesse como material o pano, que a pessoa pudesse lavar e até reaproveitar, tudo com um estilo diferenciado. Apesar das pessoas encontrarem ecobags no mercado com preço bem baixo, o que chama a atenção no meu trabalho é o estilo e a durabilidade”, comenta Aline, que começou a se interessar por soluções sustentáveis ainda quando fazia o curso de consultoria de estilo. 

Hoje, quando vai prestar serviços de consultoria, ela pensa o guarda-roupa dos clientes com o objetivo de reaproveitar de todas as formas, transformando peças, que aparentemente não servem mais, em novas peças. Além desses dois serviços, ela também produz bijuterias e, mais uma vez, conseguiu achar uma forma de substituir o plástico sem deixar de lado a satisfação do cliente.

“Depois que eu fiz o curso de consultoria de estilo, comecei a trabalhar muito com a parte de reaproveitamento, tanto de roupas como de bolsas. Tem as estampas que eu mesmo faço, e também trabalho com encomenda. Aqui em Niterói, a demanda é muito boa, mas, para o pessoal do Rio, vendo muito a bolsa de palha que as pessoas costumam usar em feiras. Faço tudo à mão. Também faço bijuterias, e todas elas são vendidas ao cliente em saquinhos de pano, não coloco nada em sacos plásticos. No início, era só para o cliente poder guardar as bijuterias mesmo, mas, agora, as clientes estão usando também como nécessaire, que tem substituído as tradicionais de plástico”, diz.

Passando da moda às artes, o plástico também é objeto de atenção. O artista plástico Getúlio Damado tem 63 anos, e 33 de carreira artística dedicada ao reaproveitamento de materiais descartados. 

“Trabalhei durante muitos anos com papelão e ferro-velho. Algumas coisas eu vendia, outras não, mas fui juntando tudo. Como não tinha onde guardar, e estava muito em alta a ideia de sustentabilidade e reaproveitamento de lixo, eu decidi fazer um boneco, que foi produzido com uma lata e garrafa de álcool. Até que apareceu a primeira cliente. Ela era uma professora que estava desenvolvendo um estudo na Ilha do Fundão sobre o plástico, gostou da minha obra e acabou comprando. Eu pensei: ‘Quem compra o primeiro, compra o segundo’. Com isso, estou aí até hoje produzindo minhas obras, faço bonecos, bondes”, conta.

Entre uma obra e outra, ele chegou a participar de inúmeras exposições no Brasil e no mundo. Com sua simplicidade característica, produz e mantém suas obras em uma barraquinha em Santa Tereza, que se tornou quase um ponto turístico no local. 

“Uso todo tipo de material reutilizável: madeira, plástico, entre outros. Mas a questão do plástico é muito importante para o meu trabalho, porque acabo evitando muitos impactos à natureza”, afirma Getúlio. 

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