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Novos padrões

Modelo catarinense, Maria Clara Melo, fala sobre inclusão no mundo da moda

Modelo catarinense faz parte da geração que dá o pontapé inicial para inclusão

Foto: Divulgação
 

Paralelo à onda de conservadorismo, é possível observar um avanço da pessoa trans em relação aos desafios sociais impostos. Mesmo com todas as dificuldades, felizmente, também vivemos uma inclusão que avança de maneira sem precedentes e pode ser notada principalmente na mídia, que passou a oferecer a voz e vez que até então eram totalmente negadas para essa parcela da população. A modelo catarinense Maria Clara Melo, de 23 anos, faz parte da geração que dá o pontapé inicial para essa tão desejada inclusão. Nas passarelas dos principais desfiles nacionais e páginas de grandes revistas, ela tem consciência de que ainda é uma exceção, mas também acredita em um mundo mais acolhedor para todos os seres humanos em um futuro próximo.

Como você se tornou uma modelo?

Quando era adolescente, minha prima era modelo. Um dia, fui acompanhá-la em uma agência e me notaram. No dia seguinte, voltei para fazer umas fotos.
 
Ser trans ajudou ou atrapalhou a carreira? 

Não posso dizer que não ajudou, mas sinto que a cobrança é muito maior. Acredito que, em função da questão do gênero estar sendo mais discutida do que nunca, a tendência é o mercado procurar mais por pessoas assim, que fogem do padrão que até então se seguia.
 
Com alguns sucessos em evidência, como o mercado enxerga o transgênero hoje?

Acho que como oportunidade de atrair um novo público, ou como instrumento para expressar sua simpatia com a liberdade individual. Há casos em que marcas só querem alguém como eu para tentar alcançar consumidores, mas, mesmo que não seja o melhor conceito, isso também ajuda a pôr o assunto em pauta.

Maria Clara diz que tem consciência de que ainda é uma exceção nas passarelas

Foto: Divulgação

E a sociedade? A quantas andam o respeito e a cidadania da pessoa trans?

Existem algumas políticas públicas para que uma pessoa trans tenha o mínimo de amparo, como direito à carteirinha com o nome social, mas ainda é muito pouco. Todas sofremos preconceitos, as que estão na rua ou em uma passarela, e muitas ainda morrem pelo simples fato de existir. Apesar de eu ser cercada por pessoas que me respeitam e me apoiam, infelizmente sei que isso não acontece com a maioria.
 
Além da moda, que outros setores você observa serem mais acolhedores com os transgêneros?

Já conheci pessoas trans que trabalham com arte (teatro) e educação, mas são casos bem específicos. O mercado de trabalho ainda não consegue enxergar uma pessoa trans como um potencial. São poucas as empresas que procuram ou aceitam pessoas trans, o que acaba empurrando a maioria para a viver na rua.
 
Modelo é a profissão dos seus sonhos? Quais os seus planos para o futuro?

Sim! Desde criança brincava de desfilar com a minha irmã. Pegávamos as roupas e saltos da minha mãe e desfilávamos pela casa. Para futuro, espero que as pessoas possam conhecer cada vez mais quem é a Maria Clara, o amor que eu tenho pelo que faço. Se tudo der certo, quero viajar o mundo trabalhando. Só quando isso acontecer vou poder pensar em algo para depois.
 
Enquanto alguém que vende beleza, qual a sua relação com seu corpo? O que pensa sobre a mudança de sexo? 

Estamos começando a nos entender (rs). Graças a um médico chamado Dr Luiz Paulo de Azevedo Barbosa, consegui ter confiança pra realizar minhas primeiras cirurgias nesse sentido, que, no caso, foram faciais. A pouco mais de uma mês, fiz a feminização facial e estou amando os resultados. Eu acredito que você tem que fazer o que for pra se sentir feliz e completa, mas tem que partir de você e para você. Penso em um futuro breve estar realizando a cirurgia de redesignação sexual, mas estou fazendo tudo com muita calma. A cabeça precisa acompanhar todas as mudanças e acredito que tudo tem seu tempo.
 
Você acha que estamos evoluindo no respeito e compreensão em relação à diversidade? Acredita em um futuro com mais empatia entre as pessoas?

A evolução é inevitável, mesmo que pessoas retrógradas e conservadores não queiram. Nunca falamos tanto sobre esse tema porque nunca precisamos tanto discutir sobre isso. É preciso acreditar em um futuro melhor, não podemos abrir mão desse sonho, mas também não dá pra ficar sentado esperando. Nosso futuro já é amanhã, por isso, precisamos fazer algo hoje. 

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