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Ocupar é preciso

Espaços públicos recebem rodas culturais e feiras, aumentando o vínculo entre as pessoas

Roda Cultural do Engenho do Mato possui oficinas de cultivo de cactos e suculentas

Foto: Marcelo Feitosa

Sempre no segundo sábado de cada mês, de 10h às 18h, a Praça Irênio de Matos Pereira recebe vida, cor e alegria através da Roda Cultural do Engenho do Mato, na Região Oceânica de Niterói. O projeto começou em 2013 e, de lá para cá, já são cerca de 80 edições com oficinas, brechó de consumo consciente, economia colaborativa, exposição, feira de trocas ou vendas e doação de livros. A produtora cultural Aline Pereira, de 39 anos, idealizadora da roda, foi quem percebeu o quanto seu bairro era carente de atividades que unissem os moradores, com uma programação para todas as idades.

“A importância da roda cultural para a gente é a formação dessa rede de pessoas que moram ou que gostam e frequentam o bairro, que passam a conhecer os serviços que cada um oferece. Há um mapeamento dos recursos da região que acontece naturalmente. Quando surgem as células (formação de outros espaços em outros lugares) fica claro que há um desdobramento do que a gente vem fazendo aqui. Outras pessoas se inspiram no que estamos fazendo para proliferar as ideias em outros lugares”, analisa Aline. 

Festival Cervejeiro de Inverno, que acontece na Praça Nilo Peçanha, no Ingá

Foto: Divulgação / André Redlich

 Biblioteca do Engenho do Mato, que pertencia à escola Ciep 448 Ruy Frazão Soares, em frente à praça, e estava abandonada, caindo aos pedaços, tanto que a escola colocou uma grade separando o espaço do seu terreno por ser considerado perigoso para os alunos. O grupo transformou o local em uma biblioteca de novo, só que, desta vez, oferecendo também aulas e oficinas gratuitas como bioconstrução, violão, kung fu, yoga, teatro, capoeira, judô e pré-vestibular. Uns ajudam os outros e todos têm prazer em doar seu tempo ao próximo.

“Me fiz bastante essa pergunta nessa jornada: ‘O que motiva as pessoas a serem colaboradores, voluntárias?’. E acho que é a possibilidade de estar trabalhando com uma moeda diferente do dinheiro. Acaba sendo também uma experiência de uma nova forma de se relacionar, da autogestão, da autonomia e da liderança disponíveis a todas as pessoas que se envolvem com o projeto. Não é da noite para o dia, é progressivamente, mas as pessoas vão construindo essa responsabilidade de cuidar um do outro e todos do espaço, sem punição”, celebra a produtora cultural.

De acordo com o cientista político e social Júlio Aurélio, que acaba de lançar o livro “Viver em Rede”, o exemplo do Engenho do Mato é considerado uma “rede social off-line” – que vai acabar sendo on-line também –, parte de um movimento importante e positivo que começou há uns dez anos e vem crescendo no mundo todo.

“Toda grande mudança é feita do local para o global. Minhas pesquisas comprovam que isso é bom e tem relação com a qualidade de vida. Essas ocupações oferecem melhora da educação, da renda e da saúde. Isso deveria ser assumido como uma política pública. As autoridades deveriam facilitar esse tipo de acontecimento, promovendo a adoção de lugares abandonados para a comunidade, e perceber que é uma boa prática social. Para ser disseminada, ela precisa da política, que, por enquanto, ainda está muito atrasada”, argumenta Júlio, que completa: “Essa é uma apropriação de heróis, contra tudo e contra todas as condições negativas. Mas a gente não precisa apenas de heróis. Basta que as autoridades encarem os espaços públicos dessa maneira, nem como estatal, nem como privado, mas como social”.

O representante comercial Alexandre Borges, 45, sempre participa da Roda Cultural do Engenho do Mato com oficinas de cultivo de cactos e suculentas. Para o colaborador, certos tipos de aprendizado só estão disponíveis nesses espaços. 

O Viva Zumbi celebra a cultura negra e suas formas de manifestação

Foto: Lucas Benevides

“O evento é uma grande troca, além de aproximar os vizinhos. Às vezes, uma pessoa que está próxima de você faz um serviço que você precisou e acabou buscando muito longe por não saber. Essa aproximação faz com que a economia da região acabe crescendo. O que para mim é tão simples, para muitas pessoas é um grande mistério. Isso desperta talentos e cria vínculos”, observa Alexandre. 

A Praça Leoni Ramos, em frente à Cantareira, abriga desde 2009 o Viva Zumbi, evento organizado pela ONG Cidadania em Movimento, que surgiu no feriado estadual de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. De acordo com Verônica Lima, idealizadora do projeto, a data, bastante comemorada no estado, começou a ser celebrada em Niterói com o Viva Zumbi. Na primeira edição, foi feita uma feijoada e levada para a praça. As pessoas começaram a aparecer aos poucos. 

“Não tinha percebido na cidade nenhum tipo de atividade que celebrasse a cultura negra. E, desde que começamos, o projeto só cresceu, constatando o quanto era necessário. A cada ano, fomos reunindo atividades como capoeira, jongo, exposição de fotos de personalidades negras, rap, hip-hop, artesanato afro, comidas típicas como feijoada e acarajé. Levamos também o pessoal das religiões de matrizes africanas. Começamos com 50 pessoas e, ano passado, registramos, de 10h à meia-noite, 10 mil pessoas”, comemora Verônica.

Três praças, a Getúlio Vargas, a Dom Navarro e a Nilo Peçanha (próxima do Solar do Jambeiro) recebem o Circuito das Artes Niterói, evento bimestral que começou em 2014 a partir de encontros com artistas da cidade, onde eram debatidas políticas públicas para as artes.

“Pensamos sempre em edições especiais e percebemos o potencial no setor cervejeiro. Aí criamos, neste ano, o Festival Cervejeiro, que está na quarta edição, a de inverno, que será nos dias 15, 16 e 17 de setembro”, adianta Mariana Tauil, produtora do projeto Circuito das Artes.

A programação do Festival Cervejeiro de Inverno vai contar com artistas locais, como Amanda Chaves, o projeto PareoDuo e a dupla DJ Bella Cristo e o violinista Yuri Reis. 
“Cultura é identidade, é comportamento. A sociedade está cada vez mais afinada em ocupar os espaços públicos, que, afinal, são nossos!”, pondera Mariana.

 
 
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