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Os adultos da relação

Psicanalista aborda relações familiares e experiências da maternidade em seus trabalhos

Marcia Neder traz na bagagem o lançamento de livros nos quais aborda a relação mãe-filho, questões voltadas para a mulher e família

Divulgação

Psicanalista, doutora e pós-doutora em psicologia clínica, Marcia Neder já contabiliza a publicação de livros como “A Arte de Formar: o feminino, o infantil e o epistemológico” e “Déspotas mirins: o poder nas novas famílias”. Mãe de um casal de filhos, ela agora lança o título “Os filhos da mãe”, que se propõe a desconstruir arquétipos e apresentar novas perspectivas sobre ser mãe. Para isso, a especialista analisa conceitos como o de infantolatria. Para ela, a relação mãe-filho se tornou símbolo da vida feminina, como se toda mulher nascesse para a maternidade e esta fosse a sua maior bênção.

“Os Filhos da Mãe” e seu antecessor “Déspotas Mirins” abordam relações familiares. Você pode falar um pouco sobre como esses dois livros dialogam entre si? 

No “Déspotas”, começo a análise de um fenômeno sobre o qual eu falo em “Os Filhos Da Mãe”, que é essa cultura que a gente está vivendo. São crianças e jovens sem limites, fazendo o que dá na telha, sem respeitar. Esse é o ponto de partida para entender o que está acontecendo. Eu acho que esse é um problema mais complexo do que algumas pessoas pensam. A crença é de que essa situação está acontecendo porque a mulher foi para o mercado de trabalho, o poder do pai diminuiu, e essa mulher, que ficou com o poder, vai trabalhar, deixando o filho sob os cuidados de outras pessoas. A mãe voltaria muito culpada para casa e tentaria compensar com permissividade. No “Déspotas”, eu discordo dessa visão, e mostro que, na história da família, não foi a mãe que ficou vitoriosa na família e, sim, a criança. 

Você acredita que o homem, a partir do momento que deixa de estar completamente sozinho no poder, decide não se responsabilizar mais pela criação dos filhos? 

Existe uma cultura voltada para privilegiar os laços da mãe com os filhos, e dificulta muito a aproximação do pai com os filhos. Em países como a Suécia, em que há uma licença que pode ser vivida tanto pelo pai quanto pela mãe, quando nasce o bebê, a porcentagem de pais que escolhem é muito pequena. Quando é possível escolher, ainda assim é a mãe que acaba ficando. É como se a criança, mesmo depois de nascida, não tivesse saído do ventre da mãe. 

Você já afirmou que os adultos, pais e mães, que antes queriam ser obedecidos, agora querem ser amados. Existe uma certa infantilização da vida adulta? Essa necessidade de ser sempre amado infantiliza o adulto? 

Essa é uma marca muito importante da família atualmente. Hoje eles querem ser aprovados pelos filhos. Talvez haja uma infantilização da cultura como um todo. Na verdade infantilização é um termo muito gigantesco para mim. Em que sentido você fala da infantilização? Se for no sentido dessa necessidade de se sentir como se tivesse a mesma idade da criança para conseguir dialogar com ela, se sentir amiga, amada, sim. O que eu acho fundamental na educação é que exista um adulto na relação. O adulto responsável pela criança tem que educá-la. Quando ela não tem esse adulto, isso provoca uma angústia muito grande nela também. Nós temos impulsos, e é preciso que a criança se sinta protegida de seus próprios impulsos. Não só dos perigos externos, mas também dos que vêm de dentro. É preciso um adulto que a contenha. A infantilização vem acontecendo no sentido de baixar a exigência, o adulto se portar como amigo que concede tudo, com permissividade. 

A gente tem novas configurações familiares surgindo. Elas afetam de alguma forma a experiência da maternidade? 

Sim. Eu uso essas novas configurações familiares para mostrar que essa ideia de que os filhos são da mãe é uma ideia criada historicamente, e que está mudando. Essa ideia de que filho tem que ser da mãe precisa ser revista. Ela está datada e está indo embora. Essa coisa ideal da dedicação, do altruísmo, do sacrifício, que vai afastando cada vez mais as jovens mulheres da maternidade... Quem é que quer, hoje, abrir mão da própria vida? Porque o nível de exigência que hoje os adultos colocam é tão absurdo, tão idealizado, que não há quem consiga acompanhar. É massacrante. 

A infantolatria, que é outro termo que você usa, acontece somente entre a criança e a mãe? Ou entre adultos e crianças que não são “suas” ? 

A infantolatria é a “idolatração”, a adoração de um ídolo, que é a criança. A maternidade se tornou uma religião, onde a criança é adorada. Todas as instituições sociais se voltam para esse culto, de uma maneira ou de outra. Quem coloca a criança no centro do núcleo familiar é a família. O bebê não consegue por conta própria alcançar esse poder. 

É preciso temer por essa geração que vem aí, criada nessa conjuntura, ou nós já estamos convivendo com crianças que foram infantolatrizadas? 

Já! No “Déspotas” eu uso como exemplo aqueles jovens que atearam fogo em um índio, em Brasília. Eles não tinham motivo para fazer aquilo, a não ser atender o próprio impulso. Nós já estamos convivendo com essa situação. Os adultos jovens já são uma manifestação dessa cultura infantólatra.

Existe uma receita para equilibrar uma relação de autoridade, mas ao mesmo tempo de amizade entre mãe e filho? É possível alcançar essa relação saudável ? 

É possível sim, mas não existe receita. A gente está em 2016, e essa história de que a mulher tem que querer ser mãe precisa ser revisada. A criança precisa ser educada, o que significa que é necessário um adulto nessa relação. Se o adulto se portar dessa forma desde o começo, ela não irá confrontá-lo. É preciso começar a criação nesse sentido, desde que a criança nasce. E quando a criança vai se sentindo protegida, vai sendo criada uma relação de confiança. Não tenho dúvida que dessa forma se cria uma relação de grande amizade, cumplicidade, dentro da privacidade de cada um. 

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