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Mão na Massa

O chef Romeu Valadares apresenta as novidades do mundo gastronômico e dicas sobre pratos saborosos e cheios de detalhes curiosos

Os pontos e as vírgulas

O vinho, esse produto da simples fermentação das uvas, caiu na arapuca da moda e ganhou a boca do mundo, antes fosse da boca para dentro, infelizmente mais se comenta do que se bebe

Foto: Divulgação

“As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis.” (Umberto Eco para o Jornal La Stampa)     

O genial escritor era um crítico mordaz, não só das redes sociais, mas de diversos aspectos do cotidiano transformado pela força da tecnologia na fronteira do novo milênio. A verdade é que nunca dantes experimentamos tamanha fartura de opiniões, chovem canais para julgar e classificar restaurantes, comidas e vinhos. O vinho, esse produto da simples fermentação das uvas, caiu na arapuca da moda e ganhou a boca do mundo, antes fosse da boca para dentro, infelizmente mais se comenta do que se bebe. O mais célebre comentarista de todos, Robert Parker, criou um sistema de pontos de 50 a 100 para classificar os vinhos na década de 70, e graças ao sucesso de seu método e sua competência em levá-lo a cabo, uma atmosfera foi criada na qual ocorreu um verdadeiro “big bang” do vinho. Quarenta anos depois, as vozes se levantam contra a sua figura, com acusações que mais me sugerem elogios: que foi um golpe de marketing, sim, um gênio nesse quesito, diga-se; que influenciou negativamente, com seu poder, roubando a diversidade do vinho que se moldou a seu gosto, mas quem imaginaria um mundo tão diversificado na produção vitivinícola, com a viagem de videiras para meio mundo, e o resgate de outras tantas que estavam esquecidas? Ah! Mas as importadoras e lojas de vinho supervalorizam o fato do vinho ter alguma pontuação (já são tantas)... É compreensível, não? Se existe essa ferramenta para atingir o cliente, por que não usá-la? Quero ver alguém retirar aquele adesivo, geralmente Redondo, no qual se lê tantos pontos, blá-blá-blá. Estamos numa encruzilhada, Parker cumpriu seu papel e se diluiu, os grandes ícones da prova e da caneta estão envelhecendo, e agora? E depois? O próprio Parker dá a pista quando recomenda provar e provar, coincidentemente o que venho dizendo há 10 anos nessa coluna. Por que vemos centenas de rótulos com pontuações a partir de 80 e não encontramos outras entre 50 e 79? Para o grande público seria interessante perceber a evolução da qualidade, segundo Parker, dentro de níveis economicamente acessíveis. Há gente que se dedica a provar e estudar a cadeia produtiva dos vinhos do mundo, provam e bebem por profissão, devem ser ouvidos, respeitados. O gosto pessoal é um organismo vivo que deve ser cultivado com todos os riscos e sacrifícios envolvidos, é nele que vamos encontrar a companhia para a existência humana, tão cercada e tão essencialmente solitária. Dizer simplesmente que vinho bom é aquele que a gente gosta, me faz pensar no camarada que leva o filho a uma exposição e diante de um quadro de Jackson Pollock chega à conclusão de que seu filho de 5 anos seria capaz de fazer aqueles rabiscos.

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