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Pós-verdade

Intensificado nas redes sociais, o conceito pode significar o fim do debate plural e da evolução intelectual

Isabela Pimentel é especialista em gerenciamento de crise na internet

Foto: Divulgação

O que pensariam as pessoas se vivessem em um mundo de informações feitas apenas para agradar? Se não pudessem comparar para concluir o que é certo e errado? Pois saiba que, desde que se tornaram uma realidade, as redes sociais ocuparam ao mesmo tempo o lugar de fonte de informação e de interação entre as pessoas. Um universo sem limites nem compromisso pressupostos, que rapidamente também foi nos fechando em uma bolha de opiniões e gostos similares. Assim, a cada curtida ou compartilhamento, tanto verdades quanto mentiras são reafirmadas, sem espaço para reflexão ou análise. E o resultado disso é o que hoje se pode chamar de “pós-verdade”.

Para alguns pesquisadores, já é possível afirmar que vivemos na era da pós-verdade, quando as pessoas dão menos importância aos fatos objetivos e são mais influenciadas por aquilo que apela para suas crenças pessoais. Eleita, inclusive, a palavra do ano de 2016 pelo dicionário Oxford, o conceito é até antigo, mas voltou a se destacar como consequência do poder das mídias sociais. 

Nesses espaços, em que grande parte dos usuários costuma seguir somente as pessoas e páginas que compartilham suas opiniões, existe menos oportunidade de evolução intelectual, uma vez que cada usuário se fecha no que acredita, ressalta a marketing manager da NZN, Tayara Simões Antonello. “Publicações que são compartilhadas por pessoas próximas são tomadas como verdade, enquanto informações de veículos confiáveis podem ser tidas como irrelevantes, mesmo quando se opõem à informação anterior. Isso é pós-verdade, pessoas dando menos importância a fatos e sendo mais influenciadas por gostos e crenças”, afirma Tayara.

E não são apenas os contatos que editam a visão de mundo através das redes sociais. Só no Brasil, o Facebook possui cerca de 90 milhões de usuários que passam, em média, 20 minutos por visita na rede. Expostos a cerca de 1.500 publicações, eles só visualizam 100 em seus feeds de notícias. Por que isso acontece? Trata-se dos chamados algoritmos, uma sequência de instruções programadas com a qual as principais redes definem se um conteúdo é ou não interessante para as pessoas.

Mais complexa que a mentira, pós-verdade pressupõe perder o nexo e o vínculo com o real e achar que o que está na rede é verdadeiro. E as proporções assustam. Segundo um levantamento anual do Instituto Reuters de Estudos sobre Jornalismo realizado em 2016, 72% dos brasileiros afirmam se informar por meio de redes sociais. Nesse ranking, ficamos atrás somente da Grécia (74%) e da Turquia (73%). Pelo mundo, a média entre 26 países pesquisados é de 51%. 

Em abril de 2016, na semana da votação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff, três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook sobre o tema eram falsas, de acordo com um levantamento da BBC junto ao Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação, da Universidade de São Paulo (USP). E não é só no Brasil. No fim de 2016, o site BuzzFeed fez um levantamento que comprovou que as notícias falsas tiveram desempenho superior às verdadeiras em relação às eleições americanas e as informações inverídicas que circulavam na rede com mais impacto eram justamente as de apoio ao atual presidente americano Donald Trump.

Não se trata apenas de produção de informações equivocadas que induzem a erros de avaliação. Mais que isso. O fenômeno está associado à existência de um público mais interessado em confirmar, de qualquer maneira e a despeito de qualquer coisa, suas próprias visões de mundo, explica o cientista político e professor da UFF Marcus Ianoni. “Por todo o mundo, o crescimento da nova direita está muito associado à pós-verdade. O conservadorismo político atual tem menos compromisso com a verdade do que com a conquista de adeptos. E ainda, quando nas disputas, a direita cria boatos contra a esquerda, como uma espécie de nova estratégia”, explica Ianoni.

Para ideologias equivocadas e amizades duvidosas ainda não existe previsão de soluções, mas para o crescimento de boatos e do compartilhamento de informações falsas, têm surgido na internet diversas iniciativas que já permitem uma checagem, como o site boatos.org e ações do próprio Facebook e do Google, com dicas para os usuários aprenderem a identificar as chamadas “fake news”, como destaca a especialista em comunicação integrada e gerenciamento de crise Isabela Pimentel. Segundo ela, defender-se de uma mentira na internet requer vigilância. “Elas não nasceram com as redes sociais, mas a estrutura aumenta a velocidade de propagação. Parte do público não apenas lê a mensagem falsa, mas também passa adiante. Por isso, para defender uma reputação, é preciso interceder sempre que isso acontece, de preferência antes que a versão incorreta ganhe visibilidade. Na era digital, monitoramento é a palavra-chave para evitar mentiras. Os que precisam se prevenir devem sempre responder o quanto antes, no tom adequado, e da forma mais transparente possível”, ensina a especialista.​

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