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Mais Amor, Por Favor

A jornalista Dara Bandeira fala sobre os conflitos da rotina, as dificuldades e prazeres dos relacionamentos. Conquistas e tristezas da vida. E-mail para esta coluna: dara.bandeira@ofluminense.com.br

Para onde vamos?

Eu não sei bem para onde vamos. Decidi avisar logo de início para que você não crie mais essa expectativa em vão. Eu só sei que, independente para onde estejamos indo, é muito difícil ir só. É difícil porque há algumas coisas que a gente só consegue contornar se estivermos em uma relação, em um espaço coletivo. É ali que vamos aprender a conviver, cooperar. Nós falamos pouco de como esse tipo de generosidade possibilita a resistência, mas é através desses espaços que vamos aprender formas – que não são novas, mas estão em desuso – de nos relacionar, produzir, consumir e, o mais importante, de curar. De curar angústias, de tornar as coisas mais leves, de ver novidade no mundo e inaugurar sonhos, projetos, formas de fazer. É uma chance de curar e ser curado. É uma chance de resistir.

Construir junto dá um trabalho considerável, confesso. É como se recebêssemos uma caixa com várias ferramentas que não sabemos bem como utilizar. Convivemos com gente que fala alto e com gente que nem consegue se expressar bem. Tem uma parte do todo que parece que não faz ideia do motivo pelo qual aterrissou aqui nessa vida. Tem um outro grupo que está amargando um pedaço enorme e a gente está ocupado demais para perceber. Tem gente que veio porque viu em nós uma possibilidade de cuidado, de aperfeiçoamento. E às vezes a gente não dá conta. A gente não consegue enxergar as características do outro como uma potência. Nós não conseguimos utilizar a potência do outro para que as coisas fluam um pouco melhor, sem que a gente cerceie ou queira que ele seja uma outra pessoa. Nos resumimos a apontar e, por vezes, querer excluir quem carece do que temos de melhor. 

É ali, nas relações, que vamos aprender a manusear ferramentas. Que vamos aprender a observar, a falar mais ou menos. A saber quando seremos úteis e a saber como a nossa vida pode ajudar a vida do outro a se recuperar dos percalços, a contornar, feito a água faz com as pedras que aparecem nos rios. Vamos aprender, se formos dedicados e menos egocêntricos, a aceitar o outro mesmo apesar de toda complexidade. Ao invés de pura e simplesmente entregar uma crítica, vamos aprender a entender a vida como um sistema menos binário. Nem tudo se resume em certo ou errado. Vamos aprender a entender o outro como uma possibilidade de nos movermos para um lugar melhor. O outro precisa de aperfeiçoamento e desenvolvimento, como tudo que respira, mas precisa também de afeto, carinho e reconhecimento, atenção.

Se dentro das relações que podemos escolher participar já é extremamente difícil encontrar esse lugar de descanso, para onde vamos? Estar aqui, e se predispor a participar o outro, é um processo de amadurecimento emocional. É entender que entrar em contato com a gênesis das nossas emoções e escolhas pode ser difícil. Ser colocado diante do espelho também  é difícil. Mas, por vezes é só assim, e com o auxílio do outro, que vamos exterminar o que nos fere sistematicamente. Que vamos romper com formatos que não nos contemplam. Que vamos estar mais satisfeitos e aprenderemos a ser mais generosos. Generosos não com bens, dinheiro ou coisa parecida. Generosos com a nossa afetividade. Generosos com a troca que nos propusemos a fazer. Vamos estar mais satisfeitos porque existe um esforço para ser melhor. Melhor sem ser só. 
Vamos juntas.

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