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Rascunhos Nus

A coluna do publicitário, capricorniano e escritor Hugo Rodrigues fala sobre relacionamento, romance e comportamento. São os dilemas que tornam a vida mais interessante

Pedras-no-Mar

Talvez, ainda há motivos para acreditar no “ainda”. “Ainda” é estranho, difuso e complicado de entender, de engolir e de aceitar. Jogamos nossos relacionamentos (amorosos ou não) ao vento, ao tempo, como crianças brincando de jogar pedras no mar e torcendo para que não afundem de primeira, mesmo sabendo que, no fundo, no fundo, todas irão afundar. 

Mas não quero falar de finais, quero falar do “ainda”. 

Que começa no instante que a pedra sai da tua mão. Você se preparou. Você calculou a força e a distância. Você se lembrou de todas as outras vezes que deu errado, e ajeitou teu corpo para criar um ângulo ideal para a tal pedra alcançar a perfeição do voo. Você até escolheu uma pedra que, a teu ver, tem mais chances de flutuar pelo espelho-d’água - e, numa doce esperança - permanecer flutuando por muitos e muitos dias, quiçá anos. Você tá ali, no milésimo de segundo que antecede ao arremesso. Tua perna de apoio se dobra. Tua perna de impulso se estica. Todo o teu corpo funciona em razão desta minipedra, que promete voar sobre o mar realizando teus desejos mais genuínos. E só. Agora, você, apenas, torce.

Você torce para o vento não atrapalhar porque, agora, pensa que não se atentou em relação aos ventos. Lembra daquelas histórias de marinheiros? Você sabe que era para ter pensado nisso e agora se arrepende - ou acha que se arrepende. Você torce para as ondas não atrapalharem. Não é um mar revolto, você pensa. Mas que mar não é revolto, às vezes? - você pensa, também, como um libriano que não consegue fazer escolhas - ou acha que não sabe. E o peso da pedra? Será que era mais leve que o necessário? Será que ela era mais pesada do que o mar aguenta? E a tua força? 

Você ainda nem recompensou teu corpo, mas a cabeça se enche de questionamentos no ainda. 

O “ainda” ainda age. Você torce. Você até reza, mesmo sem ter religião, e isso, agora, te incomoda porque seria interessante ter alguma religião neste momento. Você até tem fé, mas não sabe a quem pedir. É como escrever uma carta de amor linda, mas não saber o endereço do destinatário. “Se o homem já pisou na lua, como ainda não tenho o seu endereço?”, você se perdeu - e se encontrou - em referências musicais enquanto é “ainda”. Músicas te acompanham neste momento de ilusão e ironia do tempo. São segundos entre a pedra sair da tua mão, alcançar o mar e flutuar ou não por ali. Mas dentro de ti, você já envelheceu, casou ou morreu. Ouviu mil músicas dentro de ti - de Cássia Eller a Beatles, passando por Coer de Pirate, uma cantora francesa que você mal conhece, mas já torce em seu nome para que seus desejos aconteçam como em “Comme des enfants”, porque, você pensa, se aconteceu ali que o cara continua a amando e ela segue o amando ainda mais (de novo o “ainda”), por que também não pode ser a história de vocês dois? Até pra Carla Bruni foi dito que “alguém continua a amando” e você acha que se soubesse cantar em francês, tudo seria menos difícil e mais romântico.

A pedra sai da tua mão. Você se preparou. Você deu o teu melhor. Você torce. Você tem fé. Você reza aos deuses - musicais e literários. Você acredita no “ainda”. 

Mas agora já não há mais nada que possa fazer. 

Você é a pedra. 

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