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Pequenos ajudantes

Estudos de neurociência confirmam a importância dos neurotransmissores, responsáveis pelos sentimentos, pela memória e pela disposição. Mas, afinal, o que são eles?

O cérebro conta com a ajuda dos neurônios, que produzem neurotransmissores, responsáveis por enviar as informações a outras células, agindo diretamente nas sinapses nervosas

Foto: Reprodução

O cérebro é uma verdadeira central de comando do corpo humano. Para conseguir manter tudo em regularidade, ele conta com a ajuda dos neurônios, que produzem neurotransmissores, responsáveis por enviar as informações a outras células, agindo diretamente nas sinapses nervosas. Essas substâncias têm a capacidade de controlar as alterações de humor, o foco e também doenças mais graves, como a ansiedade e a depressão. Já que eles são tão importantes para o bom funcionamento do corpo, como então podemos manter o equilíbrio dos neurotransmissores? 

Recentemente, neurocientistas de todo o mundo têm se debruçado sobre como a atividade física e a alimentação podem se relacionar com o funcionamento dos neurônios e, indiretamente, dos neurotransmissores. De acordo com uma pesquisa realizada pelo centro médico UC Davis Health System, da Califórnia, os exercícios causam o aumento de dois neurotransmissores que regulam a saúde física e emocional: o glutamato e o ácido gama-aminobutírico (Gaba). 

“As atividades aeróbicas, como correr e caminhar, são eficientes no aumento do fluxo sanguíneo cerebral e na produção das substâncias químicas que regulam o sistema neurotransmissor. Com a atividade física, novos neurônios surgem. Ao caminhar ou correr, não melhoramos apenas o funcionamento dos sistemas muscular, respiratório e cardíaco, mas também a cognição. Com relação à alimentação, alguns alimentos fornecem ao seu cérebro substâncias antioxidantes que ajudam a retardar a degeneração da memória e prevenir doenças como o Alzheimer. Em geral, todas as frutas e legumes são bons”, recomenda a neuropsicóloga Renata Paes. 

Diagnosticado como uma criança de habilidades especiais, José Luiz se interessa por jogos de lógica

Foto: Lucas Benevides

O professor de educação física Felipe Fagundes Moore revela que a atividade física com frequência ainda pode auxiliar na liberação de neurotransmissores que dão a sensação de bem-estar.

“A atividade física estimula, estabiliza e protege o condicionamento mental. Ela eleva a concentração de triptofano, uma substância precursora do neurotransmissor serotonina, que favorece a recaptação do neurotransmissor, diminuindo efeitos da depressão e aumentando a sensação de bem-estar”, raciocina. 

A depressão e a ansiedade também estão relacionadas com o nível dos neurotransmissores no cérebro. Essas substâncias, que auxiliam na liberação de ácidos e aminoácidos, são essenciais para o controle do humor. Enquanto a depressão pode ser um desequilíbrio na produção de noradrenalina, dopamina e serotonina, a ansiedade está ligada a uma deficiência em neurotransmissores.

“Quando a pessoa tem carência de serotonina, seja genético ou não, faz falta porque ela serve para manter o humor. Qualquer depressão hoje pode ser tratada. Se você tem uma depressão ou ansiedade, os inibidores de serotonina ajudam no tratamento e também são ansiolíticos (com efeito tranquilizante). Para tratar a ansiedade, você não precisa usar dose antidepressiva, você pode usar metade da dose, que tem um ótimo efeito do humor. Os neurotransmissores têm uma influência muito grande na alteração do humor”, recomenda o psiquiatra Fernando Vasconcelos.

Em Niterói, o projeto Gugu, criado pelo ortopedista Claudio Augusto Bitencourt, promove há 27 anos uma série de atividades físicas dedicada aos idosos. Espalhado por diversos núcleos na cidade, Douglas Miranda, que trabalha no projeto Gugu há 6 anos, acredita que as atividades físicas na terceira idade possuem um papel transformador na vida do idoso. 

“Sim, tem inúmeros casos em que o exercício consegue retardar a depressão e a ansiedade. Quando esse aluno chega no Gugu, a gente percebe no idoso esse processo de ninho vazio, com inúmeras angústias. Lá ele descobre seu corpo, passa a planejar passeios, viagens, cafés da manhã. Antes o projeto era pensado apenas para cuidar do físico das pessoas, mas, depois de um tempo, foi pensado para muito além disso. A ligação com o outro, com o meio, faz com que tais doenças sejam retardadas e, em alguns dos casos, passem até a não existir mais”, ressalta Douglas.

Como a alimentação e os exercícios possuem um efeito tão grande sobre os neurotransmissores, as substâncias que causam vício como o álcool, a nicotina e a cafeína também acabam se relacionando à quantidade dessas substâncias. Para o neurologista Marcio Moacyr Vasconcelos, dessas três, a pior é o álcool. 

“O álcool reduz os níveis do glutamato e aumenta os níveis de Gaba e dopamina no cérebro. Ao contrário do que se pensa, o álcool é prejudicial ao sono. De fato, ele antecipa o início do sono, mas reduz a duração do sono com movimentos oculares rápidos (REM), período em que sonhamos. Além disso, o álcool não apenas lesiona o fígado, como também o cérebro. A longo prazo, o consumo contumaz de álcool produz lesões diretas e indiretas ao cérebro. Dentre as lesões cerebrais diretas, sabemos que o uso crônico de álcool reduz a memória e a capacidade de aprendizado. Os indivíduos que consumiram quantidades maiores de álcool frequentemente apresentam atrofia intensa e precoce do cérebro, isto é, sofrem envelhecimento acelerado do cérebro”, afirma.

Vitor Friary é o responsável pelo Centro de Mindfulness do Rio de Janeiro

Foto: Divulgação

Raciocínio

Quando se fala em cérebro, uma das primeiras relações feitas é com a inteligência. Se os neurotransmissores são os verdadeiros “transportadores” de substâncias no cérebro, então quando se deve começar a preocupação com eles? Qual a relação deles com o intelecto? 

“Os neurotransmissores estão presentes desde a vida embrionária e, ao longo do desenvolvimento, suas quantidades aumentam na mesma proporção em que as sinapses e os circuitos neuronais se desenvolvem. Durante os primeiros anos de vida, ocorre um intenso processo de desenvolvimento das comunicações entre os neurônios, incluindo a multiplicação de sinapses. As sinapses se desenvolvem intensamente durante as primeiras duas décadas de vida e atingem função plena na terceira década. Pode-se dizer que o produto da função das sinapses é a inteligência ou, mais propriamente, a cognição. É certo que algumas habilidades cognitivas atingem o auge na quarta ou mesmo quinta década de vida, mas é igualmente certo que algumas habilidades experimentam um declínio a partir de 40-50 anos de idade. Dentre as habilidades que começam a declinar, com certeza a mais temida e notória é a redução da memória. A época apropriada para o indivíduo cuidar da preservação de sua mente é desde sempre. Manter um estilo de vida saudável desde o início da idade adulta é um dos ‘segredos’ para uma vida longeva e produtiva”, acredita Marcio.

A publicitária Vivian Vellasco descobriu há três anos que seu filho era uma criança com altas habilidades. Desde criança, José Luiz se interessava por formar palavras, por jogos de lógica e outras atividades que eram consideradas incomuns para pessoas de sua idade. 

“Ele assistia ao filme uma vez e já contava quem era o personagem, quem era a namorada, quem era a identidade secreta. O pai dele começou a comprar a coleção do Monteiro Lobato com histórias da Carochinha e ele decorava cada obra pela cor. Hoje, aos cinco anos, ele acaba não lembrando de muitas dessas situações, percebemos que quando ele não é estimulado, vai se esquecendo. A ideia das atividades é sempre seguir a demanda dele, nunca forçamos nada. Hoje, o principal interesse dele é a matemática, principalmente a soma, subtração, divisão e multiplicação. Para evitar passar mal dentro do carro, ele começa a inventar problemas matemáticos”, conta Vivian. 

A médica esportiva Karina Hinato reforça que o estímulo é muito importante para exercitar as habilidades infantis.

“O próprio brincar das crianças já é um estímulo neuronal. Elas aprendem os movimentos grossos e, depois, aprendem os movimentos finos, aumentam a capacidade de memória, de fala, brincar já é um exercício. Quando entramos na adolescência, podemos começar a pensar em um esporte. Os jogos de lógica promovem um maior estímulo à criança. Quem não tem esse estímulo pode deixar a parte neurológica um pouco comprometida”, adverte.  

Outro fator comum associado à inteligência são os jogos de lógica, como o xadrez. Com 16 peças em jogo, sendo elas o peão, a torre, o cavalo, o bispo, a rainha e o rei, o esporte estratégico requer do jogador um planejamento e também muita atenção. Eduardo Sobrosa aprendeu xadrez com sete anos e, desde então, é um jogador assíduo. Aos 67, ele conta que esse hobby lhe rendeu importantes frutos. 

“O xadrez exige muita criatividade, cálculo e conceito. O que apaixona é o desafio, é a coisa lúdica, não tem o fator sorte. Ele deixa as pessoas mais focadas, você precisa de memória, inteligência e foco. Xadrez passa pela inteligência, mas não é só inteligência, passa pela criatividade, passa pelo conceito, passa pelo cálculo. Uma coisa que o xadrez tem é o seguinte: pessoas que têm distúrbio de atenção entram no hiperfoco”, conclui Eduardo. 

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