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Mais Amor, Por Favor

A jornalista Dara Bandeira fala sobre os conflitos da rotina, as dificuldades e prazeres dos relacionamentos. Conquistas e tristezas da vida. E-mail para esta coluna: dara.bandeira@ofluminense.com.br

A Esperança

Pensei em não te escrever hoje e me lembrei do privilégio que é falar e ouvir, escrever e receber cartas ou o que for, assim como fazemos hoje – sem medo. Talvez eu passe um tempo sem escrever nada, mas queria deixar esses versinhos – já anunciando uma saudade. Tenho lido um livro atrás do outro, tenho passado as longas manhãs sozinha, em silêncio. Paira uma nuvem escura, que não necessariamente é ruim, mas é sempre prenúncio de tempestades enormes – que custam a passar. Estou assim, aguardando uma tempestade que talvez custe a passar. Medito durante à noite, quando não consigo dormir. Tenho lido sobre reprogramação do subconsciente. Tenho tentado de tudo para ficar bem aqui. Ficar com a cabeça boa, com meus afetos que construí com tanto cuidado e urgência. 

Um dia desses sonhei que tinha sido chamada para escrever para uma revista e eles trocavam meu pagamento por um machado enorme. E eu saía da sala tentando arrastar o machado, pesadíssimo – meu pagamento. Acordei pensando na justiça de Xangô. Chorei muito e tentava respirar ali, onde doía, no meio do peito que parecia se abrir. Eu chorei por mim e chorei pelos outros que estão aqui comigo, debaixo da nuvem que a cada minuto se torna mais espessa. Eu chorei como se cada lágrima fosse um pedido pela justiça. Talvez fosse. Tudo que eu escrevo, pra você e pro mundo, tem vindo assim, atravessado, engasgado. Um grande choro contido na garganta. Tenho falado menos quando estou nos lugares em que não posso chorar. Tenho estado por um triz, sempre. E não acho que esteja errada em me sentir assim, pelo contrário. Me deixa assustada ver que há quem não esteja. Talvez por isso eu tenha repensado tanto te escrever. Quem não está aqui, respirando dessa atmosfera, talvez não me compreenda tanto. Fora isso, tenho estado com um pouco (mais) de medo. Sempre tive medo, você deve estar pensando. Sim, sempre estive na mira das mais variadas caças. Mas agora é diferente. Tenho medo de não conseguir fazer tudo que é preciso para não sucumbir. Para não deixar de escrever meus versinhos dissidentes, pra não deixar de lembrar que durante muito tempo a única justiça que valia para quem era como eu, era, de fato, a justiça de Xangô. 

Fumo um cigarrinho atrás do outro, não me julgo. Só deus pode me julgar. Tenho bebido um pouquinho também, pra ter argumento, como diz a Nana. Mas não foi por isso que escrevi. Escrevi porque esses dias estava no metrô, indo num bar ali pertinho do Maracanã. E quando entrei, na Carioca, tinha um menino bem jovenzinho, uns 15 anos, adesivado, lendo “O Quarto de Despejo”. Eu olhei pra ele e fui tomada por uma esperança tão grande que chorei um pouquinho. Briguei depois com quem dizia que o mundo não tem jeito. Falei: “Tem sim. Tinha um menino de 15 anos, 15 anos, lendo Carolina Maria de Jesus. Tem jeito, sim.” Eu preciso acreditar que tem, por isso escrevi pra você. Tenho tentado acreditar que amanhã vai ser outro dia.

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